Pouco tempo depois do Dia Mundial do Doente* justifica-se recordar a problemática do que é viver com Dor Crónica, tendo em consideração a complexidade deste fenómeno e o tema proposto para 2026, pelo Papa Leão XIV: “A compaixão do samaritano – amar carregando a dor do outro”, ao enfatizar esse aspeto do amor ao próximo, da compaixão, da compreensão e da empatia com o outro que vive uma situação de sofrimento pela doença e pelas consequências da dor.
A Dor Crónica é um dos problemas médicos mais comuns, na Europa e no mundo, e a principal razão para a procura de cuidados de saúde, para a incapacidade e para a redução da qualidade de vida. Atualmente, cerca de 150 milhões de pessoas sofrem de dor crónica na Europa (1 em cada 5) e, em Portugal, os números de estudos científicos são de 37% das pessoas que se dirigem ao médico de família (1 em cada 3) referem sofrer de dor.
A dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável associada a, ou semelhante à associada a uma lesão real ou potencial dos tecidos. A dor crónica é individual e invisível, o que leva a que o estigma (1) associado seja muito frequente e um desafio permanente na vida das pessoas que vivem com dor crónica. A sua elevada prevalência mostra como a complexidade da dor crónica não é compreendida, o que desvaloriza as lutas pessoais com a gestão da dor e aumenta o impacto associado a comportamentos individuais, ao “esconder o que é invisível”. A descrença dos parceiros, familiares e amigos, e até dos profissionais de saúde, tal como a hostilização no local de trabalho, levam a auto culpabilização, descrença e redução da autoestima.
De acordo com a Associação Internacional para o Estudo da Dor, IASP, a dor é sempre uma experiência pessoal que é influenciada, em diferentes graus, por fatores biológicos, psicológicos e sociais, portanto sempre considerada como uma experiência biopsicossocial.
O modelo biopsicossocial (2) é crucial na avaliação e no tratamento da dor, na atualidade.
Este modelo substitui o modelo biomédico em que se pensava que a dor era sempre causada apenas por fatores biológicos e pela doença, diagnosticada ou não, sendo a visão que, em meados do século passado, era admitida por especialistas em todo o mundo e condicionante da evolução das formas de tratamento, baseadas sobretudo em técnicas invasivas e, posteriormente, farmacológicas.
Aos sintomas da doença que lhe deu origem, juntam-se os sintomas causados pela dor que, por volta dos anos 2000 foi considerada uma “doença por si só”, pela Federação Europeia de Dor, EFIC e pela Associação Internacional para o Estudo da Dor, IASP e que está espelhada na atual definição.
Assim, foram necessárias mais de cinco décadas para que a interpretação desta doença fosse alterada, com uma nova definição que valoriza os fatores emocionais, a experiência de dor do doente ao longo da vida, a sua personalidade e reação a adversidades e assenta numa abordagem individualizada. Também, nas duas últimas décadas a persistência dos peritos internacionais foi fundamental para que a OMS, em2019, tenha aprovado os Códigos para a Dor Crónica (3) na Classificação Internacional de Doenças, ICD 11, com uma identificação dos vários tipos de dor. Foi uma conquista que levou à identificação das situações de Dor Primária, em que não é conhecida a causa e que se refere a doenças muito incapacitantes e de Dor Secundária, em seis situações (cancro, doenças musculo esqueléticas, pós-cirurgia e pós-traumatismo, visceral, neuropática, cefaleia e dor oro-facial). A implementação da codificação da dor depende de vontade política e investimento na transformação digital da saúde e terá vantagens para os doentes, os profissionais e os sistemas de saúde.
A Classificação Internacional de Doenças é um sistema mundial usado por médicos, profissionais de saúde e investigadores para classificar e codificar as várias doenças, condições e problemas relacionados com a saúde. Ajuda a comunicação sobre as doenças, a investigação, a documentação clínica, a segurança do doente, dicionários de dados para as orientações da OMS, comparticipação e reembolsos.
A dor tem um impacto devastador para as pessoas. Pode monopolizar a sua vida, sendo, frequentemente, o fator dominante na vida do doente. Contribui para a diminuição do bem-estar, para as limitações de mobilidade e para a marginalização social ao longo da vida e está associada a depressão, cancro e mortalidade cardiovascular, bem como a uma menor esperança de vida. Os entes queridos também são afetados negativamente de várias formas, seja pelo stress emocional, seja por alterações na dinâmica da relação, o aumento das responsabilidades de prestação de cuidados, ou problemas financeiros. Afeta os sistemas de saúde, económicos e sociais e reforça, ainda, as desigualdades sociais; a dor crónica é mais comum nas mulheres, nos idosos e nos grupos socioeconomicamente desfavorecidos. O custo económico da dor crónica está estimado em 12 mil milhões de euros anuais, ou até 4% do PIB, com perdas resultantes de despesas de saúde, baixas médicas de longa duração, reformas antecipadas e redução da produtividade. É o chamado Impacto Social da Dor (4).
A dor crónica continua largamente ausente das estratégias nacionais de saúde, pouco abordada na formação médica e invisível nas políticas de prevenção.
Chegados ao presente, em que o estigma, o modelo biopsicossocial, a codificação como doença e o impacto social requerem uma profunda reflexão nas sociedades, está cientificamente provado que, apesar da magnitude do problema, a dor crónica não se cura, mas pode ser aliviada e pode ser prevenida. A prevenção (5) é uma oportunidade que não está a ser aproveitada.
A prevenção, neste contexto, significa identificar e abordar os fatores de risco modificáveis que aumentam a probabilidade de a dor aguda se tornar crónica e incapacitante e de a dor crónica se manifestar de forma contínua ou por crises. Esses fatores que não dependem da doença nem da dor, mas apenas da vontade, da informação, do estilo de vida, da esperança ou da psicologia positiva da vida, incluem: – baixa atividade física, – sono insatisfatório, – stress e depressão, – medo da dor, – falta de apoio no local de trabalho, – baixa literacia em saúde – acesso limitado a cuidados atempados.
À medida que a população europeia continua a envelhecer e a multimorbilidade aumenta, a prevenção proativa da dor deve ser incorporada nas políticas de saúde pública, educação, emprego e envelhecimento. É um investimento na resiliência social, na sustentabilidade e na justiça, já que o acesso ao tratamento da dor também é um problema ético (6). Veja-se a Declaração Internacional de Montreal de 2010 e a Carta Europeia dos Direitos dos Doentes.
Ao aumentar o financiamento para a investigação da dor, centrada na prevenção, os governos podem desbloquear melhores cuidados, reduzir a incapacidade a longo prazo e reforçar a sustentabilidade do sistema de saúde. O retorno do investimento é evidente, como evidente, também, é a necessidade de: – profissionais especializados, – doentes ativos, motivados e informados, – investimento na literacia em saúde para a dor, – políticas dirigidas, como exemplo na relação da dor crónica com a saúde mental, – programas específicos para a autogestão da dor, tendo em conta a mudança de estilos de vida.
É motivante falar sobre a prevenção, quer como forma de redução da prevalência da dor crónica, quer como forma de redução de crises de agravamento da dor e, até forma de tratamento. Com a evolução dos tempos e da ciência, a abordagem das pessoas que vivem com dor crónica tem evoluído de forma que o doente deixou de ser passivo na sua relação com os profissionais e com os sistemas de saúde e adquiriu um “novo lugar”, tendo passado a ser mais ativo ao tomar conta da sua saúde e da sua dor. Isto só é possível com o novo paradigma da formação dos doentes, dos cidadãos, dos políticos e das sociedades, através da Literacia em Saúde (7). Só assim o próprio é capaz de perceber a dor, fenómeno complexo, individual e subjetivo, como defini-la, conhecer as suas consequências, o que a agrava e o que a melhora.
Cabe, assim, a cada pessoa que vive com dor crónica adquirir uma série de competências e diretrizes que a ajudem a perceber a forma de melhorar o seu bem-estar e a sua qualidade de vida, através da autogestão da sua dor, com objetivos, programas, capacidades, persistência, entre outras. Justifica–se a importância de um Programa de Literacia em Saúde para a Dor (7).
Enfim, considera-se que os cuidados centrados no doente, sejam substituídos por cuidados em que o doente ocupa um outro lugar, passando a “protagonista da sua própria saúde” e aprenda, através da literacia, a controlar a sua dor.
Sobre os Programas de Autogestão (8), há vários projetos que demonstram a sua utilidade, seja através de Grupos de Apoio, seja através de informação especializada. Um exemplo é o KIT DOR de Pete Moore que disponibiliza uma sequência de ferramentas que ajuda as pessoas com dor: – aceitar que tem dor crónica, – envolver-se em grupos de apoio, – estabelecer um ritmo para as atividades, – estabelecer e planear prioridades, – definir objetivos, – ser persistente, – praticar técnicas de relaxamento e exercício físico, – registar os progressos, – não desistir, – se necessário rever o plano, – priorizar as atividades em equipa e – manter atividade constante.
Conclusão:
Justifica-se que, em cada local ou região, todas as entidades de saúde, sociais, autarquias, associações de doentes, reconheçam que dar as mãos e juntar esforços para apoiar doentes e famílias, podem promover a literacia em saúde para a dor, definir estratégias comuns e programar atividades que potenciem a prevenção, o acesso a tratamento, a melhoria da qualidade de vida e o alívio do sofrimento do próximo.
A sensibilização para o que é a dor, em particular a natureza biopsicossocial e pessoal de toda a dor, é essencial para combater o estigma.
* Instituído por São João Paulo II em 1992
1 a 8 – mensagens principais
Referências:
https://splsportugal.com/guia-de-recursos-sobre-a-dor/
Dia Mundial do Doente, 11 de fevereiro de 2026
Maria Teresa Flor de Lima
Vice-Presidente da Associação de Doentes de Dor Crónica dos Açores
Grupo de Dor da Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde





