Temos de ser virais! Precisamos de mais informação em saúde viral, segura e credível

Temos de ser virais! Precisamos de mais informação em saúde viral, segura e credível

POR CRISTINA VAZ DE ALMEIDA

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Num mundo de excesso de informação, ser credível, seguro  e viral torna-se importante para combater a crescente desinformação em saúde.

A comunicação em saúde enfrenta hoje um paradoxo decisivo: nunca houve tanta informação disponível, e nunca foi tão difícil distinguir o que é credível do que é apenas viral. No mundo acelerado digital contemporâneo, a informação correta já não chega por ser verdadeira. A informação faz o seu caminho de influenciar a mudança se for partilhada, compreendida e percebida como relevante.

 A literacia em saúde, a empatia e a persuasão ética nos processos comunicacionais e o apoio digital são determinantes centrais para garantir que o conhecimento científico não fique confinado aos especialistas, mas produza impacto real na vida das pessoas.

Numa sociedade em estado de “abuso” do algoritmo sobre a análise humana crítica, a informação credível em saúde tem de ser também comunicacionalmente eficaz e viral, sob pena de ser silenciada pelo ruído da desinformação.

Parece-nos que ser viral é essencial, para ser suficientemente disseminada a franca credibilidade da fonte e dos bons conteúdos que conduzem a práticas mais saudáveis.

A consulta em saúde continua a ser, para muitas pessoas, um momento de vulnerabilidade, expectativa e tomada de decisões com consequências duradouras. Procura-se o alívio para sintomas, as explicações para diagnósticos e orientação para escolhas que afetam o quotidiano, a família e o futuro numa reabilitação que se deseja mais rápida e conducente à saúde plena. Contudo, a evidência mostra que uma parte significativa das pessoas sai da consulta sem compreender plenamente o que tem, o que deve fazer ou por que razão determinadas orientações são importantes. Este desfasamento não decorre apenas de limitações individuais, mas de modelos comunicacionais ainda pouco adaptados à complexidade atual da saúde. A competência digital poderia trazer aqui mais orientações sobre as estratégias de comunicação que os profissionais podem e devem ter para aumentar e reforçar a adesão terapêutica.

Aprender através da IA é um caminho crítico, mas muito estruturante e bem organizado quando acompanhado do capital intelectual humano.

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Durante décadas, predominou um modelo paternalista, assente numa lógica unidirecional de transmissão de ordens ou orientações para a saúde. Este modelo revelou-se eficaz em contextos de urgência e doença aguda, mas tornou-se insuficiente face à crescente prevalência de doenças crónicas, à multimorbilidade e a uma profunda necessidade de gestão continuada da saúde. Hoje, impõe-se uma comunicação deliberativa, “tailored made”, baseada em decisões partilhadas, corresponsabilização e de competências trazidas pela boa utilização de estratégias de literacia em saúde. 

A literacia em saúde não se limita à capacidade de ler ou ouvir informação médica. Envolve aceder, compreender, interpretar, questionar, aplicar , usar e modelar os recursos de saúde, para além da informação: quando decidimos o que comer, quanto devemos dormir, a saúde mental no dia a dia através do controlo de ações e de acionar o bem-estar em pequenas coisas como a atividade física ou a conversa salutar com a família ou amigos estamos a agir pela nossa saúde global. Partilhamos e usamos uma literacia em saúde na prática, de forma crítica e contextualizada em nosso benefício e do próximo: estamos todos em rede de inter e múltiplas influências.

Viver em conformidade com os padrões de saúde, neste caso, numa perspetiva mais ocidental, inclui também atos da dimensão emocional da comunicação, reconhecendo que ansiedade, dor ou medo interferem na capacidade de escuta e compreensão. Ad dimensões cognitivas do bem-estar exigem, porém, e também , as competências da triagem do que nos pode fazer melhor ou pior à saúde.

A viralidade da desinformação impera sobre a viralidade da credibilidade da fonte e do conteúdo porque se pensou naturalmente que o que é viral, “é mau”. Mas o viral pode ser credível se a força da boa e credível comunicação, como é aquela que é veiculada pelos profissionais das várias áreas que operam na saúde, saltar para o campo da disseminação com conteúdo seguros, apelativos, claros, simples, orientadores e desejáveis.

É preciso mudar o paradigma da informação complexa em saúde e torná-la simples, compreensível e que vá ao encontro das necessidades dos que a procuram, sem que se desviem desse caminho seguro para alternativas que podem por em risco a saúde e mesmo a vida de muitos. 

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Quando estas dimensões da simplicidade e bom acesso e navegabilidade são ignoradas, aumentam os mal-entendidos, a resistência às recomendações e os conflitos latentes entre profissionais e cidadãos.

Neste contexto, a empatia emerge como uma competência central. Não se trata apenas de simpatia, mas de uma capacidade estruturada de reconhecer o outro, adaptar a linguagem, validar emoções e construir confiança. A comunicação empática está associada a maior adesão terapêutica, maior satisfação e melhores resultados em saúde, funcionando também como mecanismo preventivo de conflito. Para além da empatia a comunicação e o comportamento assertivo (respeitador de ambas as partes), claro (simples e acessível) e positivo (construção positiva dos comportamentos) em que se baseia o Modelo ACP – a assertividade – clareza – positividade traz bons frutos em todas as dimensões do acesso, compreensão e melhor uso de recursos com impacto na saúde. 

O desafio torna-se mais complexo no ambiente digital. As redes sociais transformaram-se nas praças públicas do século XXI, onde a informação circula rapidamente, sem filtros claros de qualidade. Conteúdos alarmistas, simplificados ou emocionalmente carregados tendem a tornar-se virais, independentemente da sua validade científica. A pandemia de COVID-19 evidenciou de forma inequívoca que a desinformação pode ser tão prejudicial para a saúde pública quanto o próprio risco biológico, influenciando comportamentos, atitudes e decisões coletivas.

Perante este cenário, a resposta não pode ser apenas reativa, centrada na correção tardia de erros. A evidência aponta para a necessidade de uma abordagem preventiva, baseada no reforço da literacia em saúde, da literacia digital e da resiliência à desinformação.

Preparar as pessoas para reconhecerem conteúdos enganosos, questionarem fontes e resistirem à manipulação informativa é um investimento estrutural em saúde pública.

A informação credível precisa, por isso, de competir no mesmo terreno da viralidade. Não basta ser cientificamente correta; deve ser assertiva, clara, acessível, empática e adaptada aos diferentes públicos.

Comunicar bem deixou de ser um complemento da ciência: é hoje uma condição da sua eficácia social.

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Neste processo, o apoio digital e a Inteligência Artificial podem desempenhar um papel estratégico. Quando orientadas por princípios éticos e comunicacionais, estas tecnologias podem apoiar a personalização da informação, a adaptação da linguagem, a identificação de dúvidas recorrentes e o reforço da compreensão. 

Longe de desumanizar os cuidados, a tecnologia pode contribuir para reduzir assimetrias de poder e apoiar relações mais equilibradas entre profissionais e cidadãos.

A prevenção e a resolução de conflitos em saúde dependem, em larga medida, da qualidade da comunicação ao longo de todo o percurso de cuidados. Pessoas que compreendem e são compreendidas sentem-se respeitadas; pessoas que se sentem respeitadas tendem a confiar, colaborar e participar ativamente nas decisões. A literacia em saúde, aliada a modelos comunicacionais assertivos, claros e positivos, permite transformar divergências em diálogo construtivo e decisões informadas.

*Cristina Vaz de Almeida (PhD)

Presidente e Fundadora da Sociedade Portuguesa de Literacia em saúde

 

23 Jan 2026 - 01:51

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