A Saúde Mental no período pré-festivo: Como nos sentimos?

A Saúde Mental no período pré-festivo: Como nos sentimos?

Por Alexandra Antunes

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Compras, convívios, gastos, iluminações, música, stress… e, afinal, como nos sentimos?

À medida que se aproxima o período pré-festivo, neste caso,  o Natal , intensificam-se as narrativas centradas na celebração, na união e no ideal de “felicidade familiar”. Contudo, aquilo que a ciência psicológica nos mostra é que estas semanas podem ser, para muitas pessoas, um momento de exigência emocional elevada, marcado por pressões sociais, comparações, solidão e desafios financeiros. É, por isso, essencial falarmos abertamente deste tema que atravessa todas as faixas etárias e realidades familiares, e que pode suscitar sentimentos tão distintos como entusiasmo, nostalgia, ansiedade ou tristeza profunda.

A evidência científica explica que existem vários mecanismos psicossociais que contribuem para o impacto emocional desta época. Um deles é a pressão das expectativas. Culturalmente, o Natal é associado à felicidade obrigatória, à convivência harmoniosa e à estabilidade financeira. Quando a experiência real se afasta deste ideal, seja por dificuldades económicas, conflitos familiares, solidão ou luto recente, surgem frequentemente sentimentos de inadequação, vergonha emocional e ruminação. Estes processos estão bem descritos na literatura sobre normas emocionais e ajustamento psicológico.

Outro mecanismo amplamente estudado é a comparação social, hoje amplificada pelas redes sociais. O consumo passivo de conteúdos, fotografias esteticamente cuidadas, cenários perfeitos e rotinas idealizadas, aumentam a probabilidade de comparações ascendentes, geralmente associadas a um humor mais triste e a uma maior insatisfação pessoal. As escolhas relacionadas com os perfis que seguimos têm, por isso, impacto direto no nosso estado emocional. Seguir muitos desconhecidos nas redes sociais, com “vidas perfeitas”, está associado a maior vulnerabilidade psicológica, enquanto utilizar      as redes de forma ativa, comunicando com pessoas significativas, tende a promover sentimentos de bem-estar e a reduzir a solidão.

A solidão, as dificuldades financeiras e os problemas de saúde mental pré-existentes são também fatores relevantes. Pessoas que atravessam estas situações descrevem muitas vezes o Natal como um período de intensificação da sensação de ausência ou desconexão. Nestes grupos, o aumento do consumo de álcool, muito comum nesta época, pode agravar o risco de intoxicações, impulsividade, autolesão e conflitos interpessoais.

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Importa ainda esclarecer um dado frequentemente mal interpretado: a crença de que os suicídios aumentam no Natal. A investigação não confirma estes dados, antes pelo contrário. Vários estudos descrevem uma redução dos suicídios durante o período natalício, embora exista alguma variação entre países e populações. Esta fase parece ter um efeito protetor, provavelmente associado ao aumento da atenção comunitária, ao reforço das redes de apoio e ao sentimento de pertença que muitas pessoas relatam. Também se verifica, de modo consistente, uma diminuição das idas às urgências e dos internamentos por motivos psíquicos.

Contudo, este efeito não é linear ao longo de toda a época. Após o período natalício, alguns estudos assinalam um “rebound”, isto é, um aumento do risco de agravamento de sintomas como ansiedade, tristeza, desmotivação ou desesperança, especialmente nos primeiros dias de janeiro. Por isso, é importante que cidadãos, famílias e profissionais de saúde estejam atentos a esta fase.

É, portanto, essencial estar alerta para estes sentimentos tão diversos que poderão surgir nesta época e tomar medidas preventivas para que tenham o mínimo de impacto na saúde mental de todos nós. 

O que podemos fazer:

Gerir expectativas
Reconhecer que esta época pode ser emocionalmente ambivalente é um primeiro passo. Incentivar metas realistas, simplificar compromissos e comunicar de forma assertiva sobre limites e necessidades são medidas fundamentais. A terapia cognitivo-comportamental demonstra que a reestruturação de expectativas e a flexibilidade cognitiva reduzem significativamente o stress e a autocrítica.

Higiene de utilização das redes sociais
Reduzir o consumo passivo, estabelecer limites de tempo e ajustar o feed, removendo contas que desencadeiam comparação negativa, são medidas eficazes para proteger o bem-estar. Privilegiar interações ativas, enviar mensagens, fazer chamadas ou participar em encontros pequenos reforça a sensação de pertença e diminui a solidão.

Fortalecer a conexão social
É particularmente importante para quem se encontra isolado, em luto, com dificuldades económicas ou com perturbações mentais. Convidar de forma inclusiva, oferecer ajuda prática (como transporte ou partilha de refeições) e realizar visitas regulares podem fazer uma diferença significativa. Incentivar a verbalização e a partilha de sentimentos é decisivo na redução do sofrimento emocional.

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Reduzir danos associados ao consumo de álcool
Monitorizar sinais de intoxicação, disponibilizar alternativas não alcoólicas e combinar limites prévios em grupos mais vulneráveis, ajuda a prevenir comportamentos de risco.

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Pedir ajuda especializada
Se os sentimentos de ansiedade, tristeza, ideias de morte, desesperança, alterações prolongadas do sono ou perda marcada de energia se intensificarem, é fundamental procurar apoio de um profissional de saúde mental. Todas as emoções são válidas e todas as pessoas têm histórias diferentes. Na dúvida, peça ajuda.


Alexandra Antunes
Vice-Presidente da Ordem dos Psicólogos Portugueses

9 Dez 2025 - 04:11

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