Ato I – Para Além do Número
Durante décadas, o Índice de Massa Corporal (IMC) foi a “régua” pela qual medíamos o excesso de peso. Bastava dividir o peso pela estatura ao quadrado e o resultado parecia dizer tudo: normal, excesso de peso ou obesidade. Mas hoje sabemos que esta medida é incompleta e pode enganar. O IMC não mede a quantidade real de tecido adiposo ou de gordura, nem a forma como esta se distribui no corpo — e muito menos revela como essa gordura afeta a saúde de cada pessoa. Duas pessoas com o mesmo IMC podem ter composições corporais muito diferentes — uma mais musculada, outra com maior acumulação de gordura central, abdominal ou visceral, o tipo mais associado a maior risco cardiovascular. O IMC é demasiado simples para uma doença tão complexa como a obesidade.
O diagnóstico passa agora por combinar medidas como o perímetro da cintura, o rácio perímetro da cintura/estatura (se superior a 0,5, está associado a maior risco de doença cardiovascular), análises laboratoriais e outros exames que podem revelar alterações metabólicas, mentais e mecânicas associadas à obesidade. A obesidade está associada a mais de 220 outras doenças ou comorbilidades e a 13 tipos de cancro.
São exemplo de complicações metabólicas a diabetes mellitus tipo 2, a dislipidemia (aumento do colesterol LDL e triglicerídeos, diminuição do HDL), a hipertensão arterial, a síndrome metabólica (associação de obesidade abdominal, hipertensão, dislipidemia e hiperglicemia), a esteatose hepática não alcoólica (“fígado gordo”), que pode evoluir para cirrose e carcinoma hepatocelular, o aumento do risco de doença coronária, insuficiência cardíaca e acidente vascular cerebral, o maior risco de alguns tipos de cancro (mama, endométrio, próstata, rim, cólon e fígado), e ainda a infertilidade e as alterações hormonais reprodutivas em homens e mulheres.
São exemplo de complicações mecânicas a artrose e outras doenças osteoarticulares (sobretudo nos joelhos, ancas e coluna), lombalgias crónicas e limitação funcional para a marcha e o esforço, apneia obstrutiva do sono e síndrome de hipoventilação da pessoa com obesidade, maior risco de hérnias, refluxo gastroesofágico e problemas ortopédicos pós-cirúrgicos.
São exemplo de complicações mentais a depressão (o transtorno mental mais frequentemente descrito em pessoas com obesidade), a ansiedade, a baixa autoestima, a vergonha do corpo e o isolamento social, a maior vulnerabilidade a bullying, estigma e discriminação, com impacto na qualidade de vida, e perturbações do comportamento alimentar (por exemplo, a compulsão alimentar periódica), entre outras. A relação entre obesidade e saúde mental é bidirecional: a obesidade aumenta o risco de perturbações psiquiátricas, e estas também favorecem o ganho de peso.
O IMC, assim, deixa de ser um “veredito” e torna-se apenas o ponto de partida de uma avaliação mais completa, que permite um tratamento mais personalizado e eficaz.
Ato II – A Viragem da OMS e os Novos Fármacos
A segunda grande mudança chega com as novas diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre o uso dos agonistas do recetor GLP-1, medicamentos inicialmente criados para a diabetes que hoje representam uma das ferramentas mais promissoras no tratamento da obesidade. Mas não devemos esquecer que, em Portugal, existem mais dois fármacos aprovados para o tratamento da obesidade, que não pertencem à classe dos agonistas do recetor GLP-1.
A obesidade é oficialmente reconhecida como uma doença crónica e recorrente, que atinge mais de mil milhões de pessoas — e importa sublinhar que Portugal foi pioneiro no reconhecimento da obesidade como doença. E, pela primeira vez, a OMS defende o uso de terapias farmacológicas — nomeadamente os GLP-1 — como parte integrante dos cuidados de longo prazo.
Estas substâncias atuam sobre o sistema nervoso central, reduzem o apetite e aumentam a sensação de saciedade. Os resultados clínicos mostram perdas de peso significativas e melhorias metabólicas, cardiovasculares e mecânicas (como na apneia do sono ou na osteoartrose do joelho) bastante marcantes. Mas o mais importante é o enquadramento com outras estratégias em simultâneo: alimentação estruturada e equilibrada, atividade física orientada e acompanhamento psicocomportamental, se necessário.
Ainda assim, a OMS sublinha que as evidências a longo prazo são limitadas e que o acesso continua a ser desigual, devido ao custo e à falta de integração da terapêutica farmacológica nos sistemas de saúde. Acrescenta ainda que é necessária a produção de genéricos e o desenvolvimento de modelos de licenciamento partilhados, para tornar estas terapêuticas mais acessíveis globalmente.
A mensagem é clara: o combate à obesidade requer um ecossistema integrado, que combine medicamentos, políticas de saúde e educação alimentar. Não se trata de culpar indivíduos, mas de transformar sistemas — e a sociedade em geral.
Ato III – Os GLP-1 e a Busca pela Longevidade
O terceiro ato leva-nos para um futuro que começa agora. Os mesmos medicamentos GLP-1, usados para controlar a obesidade e a diabetes tipo 2, estão a despertar o interesse da medicina da longevidade.
Estudos recentes indicam que estes fármacos reduzem a inflamação, protegem o coração, o fígado e os rins, melhoram a apneia do sono e têm o potencial de melhorar a saúde cerebral. Tudo isto aponta para um potencial mais vasto: prevenir o envelhecimento biológico e prolongar o tempo de vida saudável — o chamado healthspan.
Ainda não há “pílulas da juventude”, mas os GLP-1 são hoje os candidatos mais avançados a serem considerados geroterapêuticos — medicamentos que atuam sobre os mecanismos do envelhecimento. Ensaios clínicos em curso estão a testar o seu efeito noutras doenças crónicas, incluindo Alzheimer, Parkinson, demência e outros problemas de cognição.
Esta nova fronteira científica baseia-se na ideia de que envelhecer é um processo regulável, influenciado por vias metabólicas, inflamação, equilíbrio celular e até pela composição corporal. Ao estabilizar esses mecanismos, acredita-se ser possível adiar várias doenças simultâneas.
Para além da farmacologia, outras estratégias prometem reforçar a saúde a longo prazo: terapias génicas, combate à inflamação crónica, nutrição personalizada e até moléculas que imitam os efeitos do exercício. Mas o foco não é apenas viver mais — é viver melhor.
O verdadeiro desafio do século XXI é aumentar os anos de vida com autonomia, energia e bem-estar. E, de certa forma, a história dos GLP-1 simboliza o início dessa transição: da obesidade como doença individual para a longevidade como projeto coletivo de saúde pública.
No fim desta peça em três atos, uma conclusão impõe-se: a obesidade já não é vista apenas como excesso de peso, mas como um espelho da saúde global das sociedades. A ciência está a mudar o guião — e nós, cidadãos, somos parte ativa deste novo enredo, onde viver bem é tão importante quanto viver mais.
* Paula Freitas
- Presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia
- Professora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto
- Coordenadora de Endocrinologia do CRI de Obesidade da ULS São João
- Coordenadora de Endocrinologia do Hospital CUF Porto





