Vivemos num tempo em que a informação sobre saúde está por todo o lado: nas redes sociais, nos programas de televisão, nos sites da internet e até nas conversas do dia a dia. Mas será que ter acesso à informação é o mesmo que saber usá-la? Será que basta descarregar um artigo ou ver um vídeo com gráficos bonitos e atrativos para tomar boas decisões sobre a nossa saúde?
A resposta é não. A literacia em saúde não é apenas saber procurar informação ou repetir o que se ouviu. É muito mais do que isso. É a capacidade de compreender, avaliar e aplicar essa informação de forma útil e responsável. É saber distinguir o que é confiável do que é ruído. É conseguir tomar decisões informadas sobre o nosso corpo, os nossos hábitos e os cuidados de que precisamos.
Neste sentido, literacia também não é apenas escolaridade. Não basta ter muitos anos de estudo mais ou menos específico nesta área. O que conta é o uso que fazemos do conhecimento. É saber ler e interpretar. É saber fazer perguntas. Mas é saber como procurar ajuda, tomar decisões e participar ativamente na nossa saúde. É uma competência que se constrói ao longo da vida e que deve ser trabalhada desde cedo, nas escolas, nas famílias e nas comunidades, com base no pensamento crítico e no método científico. É saber como se avalia uma fonte, que tipo de evidência pesa mais e quando pedir uma segunda opinião.
A literacia em saúde é parte de uma literacia maior, que atravessa todas as áreas da vida, como as finanças, a segurança, a alimentação ou até pequenos arranjos domésticos. Sempre que precisamos de agir com base em informação, estamos a ativar essa literacia. Por isso, ela é um verdadeiro pilar da vida. E, como tal, deve ser reconhecida como um dos determinantes sociais da saúde, ao lado da educação, da habitação, da justiça social ou do rendimento disponível.
Promover literacia em saúde é trabalho de toda a sociedade. Não depende só dos médicos ou dos serviços de saúde: depende de todos. Não se resolve em campanhas pontuais: implica continuidade. A educação formal tem um papel importante, mas não suficiente. As escolas devem ensinar pensamento crítico e como avaliar informação; as autarquias e associações locais podem criar espaços de aprendizagem e apoio; os media e as plataformas digitais precisam de regras de qualidade e de práticas responsáveis. Até a vida de bairro nas associações, bibliotecas, centros culturais e cafés pode ser palco de conversas e oficinas que ajudam as pessoas a praticar decisões de saúde no seu contexto real.
E depois estarão os médicos e os outros profissionais de saúde que têm um papel relevante, mas diferente do que muitos imaginam. A consulta não é um centro de diagnóstico e prescrição. É um espaço de diálogo, onde se avalia o grau de compreensão da pessoa, se ajusta a linguagem, se promove a decisão partilhada e se usam estratégias eficazes de comunicação. Falar devagar, usar exemplos simples, recorrer a imagens ou vídeos e perguntar se a pessoa entendeu são facilitadores desta capacitação. Ajudam a pessoa a encontrar o seu próprio caminho entre as diferentes opções que se lhe colocam e que permitem a necessária personalização da informação disponível a cada caso concreto. É aí que deve existir espaço para a dúvida, percebendo que não há propriamente erros na saúde, apenas caminhos distintos que naturalmente terão também consequências distintas. Do outro lado está uma pessoa nas suas características de vida, expectativas, sonhos e dificuldades. Como todos, quer mais saúde, adaptada aos diferentes objetivos que estabelece para si própria ao longo da vida, e ao menor custo possível, não apenas financeiro, mas, e talvez até mais importante, no desconforto, na qualidade de vida e até na sobrevida.
A tecnologia oferece grandes oportunidades. Hoje, quase todos têm um telemóvel com acesso à internet. Aplicações, portais de utentes e telemedicina podem reforçar a autonomia quando as pessoas sabem avaliar fontes e interpretar dados. Caso contrário, multiplicam-se boatos e soluções milagrosas. Exigir qualidade na informação que chega ao público é exigir responsabilidade: não faz sentido submeter fármacos a ensaios rigorosos e tolerar, sem escrutínio, páginas e influencers que promovem “curas” sem evidência, autênticas banhas-da-cobra na alegoria popular. Sociedades científicas e organizações profissionais podem ajudar, mas a mera criação de repositórios de informação ou conteúdos alinhados a agendas institucionais não substitui um trabalho que parta das reais necessidades das pessoas. Projetos fechados e top‑down não resolvem a questão se não ouvirem e envolverem as comunidades a que se destinam.
Medir literacia em saúde é complexo. Mais do que perguntar conhecimentos, importa compreender as atitudes e as práticas para agir, liderar e transformar ambientes. Programas bem desenhados combinam avaliação, formação e acompanhamento comunitário, com metas claras e indicadores que permitam ajustar o caminho.
Num mundo onde a desinformação circula com facilidade e onde muitas vezes se confunde visibilidade com verdade, é fundamental olhar para a literacia como um investimento estruturante. Mais do que uma escolha inteligente, é uma obrigação ética. Porque a saúde não se resolve com frases feitas ou vídeos virais. Resolve-se com conhecimento, com diálogo e com ação, e mede-se nas atitudes, nas escolhas e na forma como cuidamos de nós e daqueles que nos rodeiam.
Por isso, promover a literacia em saúde é promover cidadania. É garantir que cada pessoa, independentemente da sua idade, origem ou condição, possa compreender, decidir e agir sobre a sua vida com confiança, promovendo a sua saúde. É combater desigualdades, prevenir doenças e melhorar a qualidade de vida. É preparar a sociedade para enfrentar os desafios da saúde com inteligência, solidariedade e responsabilidade.
Pequenos passos podem fazer toda a diferença:
- verifique a fonte e prefira sites institucionais, universidades e sociedades científicas;
- antes de partilhar, confirme uma notícia com pelo menos três fontes independentes de qualidade;
- leve as suas dúvidas escritas à consulta e peça ao profissional que explique em linguagem simples e confirme a sua compreensão;
- peça sempre um resumo escrito quando receber orientações importantes;
- aprenda a ler rótulos e doses; traduza riscos em números simples para facilitar decisões;
- limite-se a fontes que explicam a evidência e divulgam os conflitos de interesse;
- tenha especial atenção aos posts virais sem referências;
- participe em sessões locais, bibliotecas ou associações para praticar decisões de saúde no seu contexto.
A literacia em saúde não é espetáculo. Não se compra com visibilidade nem se reduz a belos folhetos ou vídeos virais. É uma prática quotidiana de aprender, julgar e agir. É uma responsabilidade coletiva. Quanto mais cedo a assumirmos, melhor será o futuro que construímos juntos.
*Paulo Santos
Médico de família, professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto





