Feliz Ano Novo: 2026 – dar mais vida aos anos

Feliz Ano Novo: 2026 – dar mais vida aos anos

POR PAULO SANTOS

PUB

O homem vive preocupado em viver muito e não em viver bem, quando, na realidade, não depende dele o viver muito, mas sim o viver bem (Lucius Annaeus Seneca, século I d.C.).

Há décadas que Portugal soma anos à vida sobretudo pela capacidade de tratar doenças, mas falha em acrescentar vida aos anos. Os dados do Eurostat mostram que, desde 1995, aumentamos a esperança média de vida à nascença em 7 anos. No entanto, mantivemos praticamente inalterado o número de anos de vida com saúde à volta dos 60. O resultado é evidente: serviços de saúde superlotados, cada vez mais caros e uma população que se sente doente. Para o futuro, a ambição tem de ser acrescentar vida aos anos, olhando para a saúde como um investimento de vida e não apenas um custo associado à carga de doença que transportamos. Neste sentido, o desafio para 2026 é reduzir a carga de doenças evitáveis e aumentar os anos de vida saudável, através de políticas que premeiem a prevenção e a equidade.

A solução não é simples. Há toda uma complexidade nos determinantes de saúde, onde os cuidados médicos representam uma parcela limitada de um enquadramento multidimensional que envolve a predisposição genética, os fatores ambientais e sociais e os comportamentos. Isto não significa o abandono dos serviços de saúde. Um sistema de saúde sustentável, justo e verdadeiramente centrado no cidadão é fundamental, mas a organização, os recursos humanos e materiais e os sistemas de financiamento são apenas meios, não um fim em si mesmos, ainda que muitas vezes centrem de tal forma o discurso que parecem abafar tudo à sua volta. A digitalização e a inteligência artificial podem apoiar esta viragem, mas só serão úteis se aproximarem pessoas e profissionais, garantindo segurança, equidade e confiança.

Os serviços de saúde têm um papel fundamental na prevenção. Vacinas, rastreios oncológicos e não oncológicos, gestão precoce da hipertensão e outros fatores de risco e promoção da atividade física são investimentos que devolvem saúde e reduzem custos futuros, sem esquecer o diagnóstico e o tratamento das doenças. Programas como as consultas de cessação tabágica, de nutrição ou de psicologia nos cuidados de saúde primários e iniciativas como o “Mexa-se Mais” em vários municípios são bons exemplos em curso. Mas a saúde não se esgota nas doenças ou na sua ausência. É um estado de bem-estar físico, mental e social, que implica a capacidade de adaptação às circunstâncias e de autogestão no dia a dia. Como lembrava Séneca, acrescentar vida aos anos exige escolhas conscientes, mais do que a obsessão pela longevidade, o que reflete a importância de cada um nas suas opções do dia a dia.

PUB

Dos médicos queremos a tradução da ciência para as necessidades individuais. Dos gestores, estruturas que permitam esse exercício. Dos políticos, visão e coragem para centrar tudo nas pessoas. E, de cada um de nós, responsabilidade pelas escolhas do dia a dia: alimentação, atividade física, estilos de vida, relações familiares e comunitárias, uso adequado dos recursos e adesão aos cuidados.

Cada um tem o seu papel: específico, complementar e responsável. É tempo de medir o que importa: anos de vida saudável, resultados em saúde, literacia, e confiança no sistema. Não apenas atos de urgência, consulta, internamento ou cirurgia. É tempo de premiar quem previne, valorizar redes que entreguem resultados visíveis em prevenção e equidade, garantir confiança digital num tempo cada vez mais tecnológico e, sobretudo, colocar as pessoas no centro, com percursos simples, linguagem clara e decisão partilhada.

Esta mudança não depende apenas dos serviços de saúde. As comunidades e autarquias têm um papel decisivo na criação de ambientes saudáveis. Exemplos como as ciclovias integradas no espaço urbano, as hortas comunitárias, o apoio ao associativismo, as universidades sénior e projetos de combate à solidão, como o Programa Apoio 65 – Idosos em Segurança da PSP, mostram que é possível. A saúde nasce nas casas, nas escolas e nos locais de trabalho, muito antes de chegar ao consultório. Acrescentar vida aos anos significa investir em políticas intersetoriais que liguem saúde, educação, urbanismo, inclusão social e muitas outras áreas.

No início de cada ano, ao contarmos as doze passas, formulamos os desejos que queremos ver concretizados: saúde, paz, prosperidade… Neste início de 2026, desejemos mais saúde para todos: uma saúde responsável, em que cada um assume o seu papel e faz do seu um mundo melhor. Porque se a minha realidade for melhor, tudo à minha volta também o será, e isso fará um mundo mais saudável e melhor para viver. Em 2026, vamos virar a página: menos doença, mais vida. Porque viver bem depende de nós.

PUB

*Paulo Santos

Médico de família, professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

19 Jan 2026 - 03:46

Partilhar:

PUB