Entre o algoritmo e o utente: o farmacêutico na era da Inteligência Artificial

Entre o algoritmo e o utente: o farmacêutico na era da Inteligência Artificial

POR HELDER MOTA FILIPE*

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A inteligência artificial (IA) está a revolucionar a forma e a velocidade como pensamos a inovação. Da investigação científica à farmácia comunitária, dos ensaios clínicos aos estudos observacionais, do medicamento frequentemente utilizado à terapêutica personalizada, a IA acelera processos, antecipa riscos e abre caminho para soluções que, há poucos anos, eram inimagináveis.

Adicionalmente, a IA está a transformar a prática clínica e administrativa, libertando tempo, até agora consumido por tarefas repetitivas, para o contacto humano e outras tarefas mais diferenciadas.

Em Portugal, a integração da IA surge num momento em que os desafios para o sistema de saúde se tornam cada vez mais evidentes. A insuficiente interoperabilidade entre plataformas digitais, a fragmentação dos dados, a sobrecarga administrativa e a escassez de recursos humanos estão no centro das queixas de todos os profissionais e dos utentes do sistema de saúde e do Serviço Nacional de Saúde (SNS) em particular.

No entanto, esta transformação levanta também importantes desafios e enfrenta barreiras técnicas, económicas, regulatórias e culturais. A qualidade dos dados é muitas vezes insuficiente, enviesada ou pouco padronizada, comprometendo a segurança e a confiança nos resultados. A interoperabilidade dos sistemas digitais continua a ser um dos principais problemas em Portugal, levando à ausência ou duplicação de registos e ao desperdício de recursos. Por outro lado, não se pode ignorar os custos de investimento em infraestruturas ou a necessária formação em literacia digital. E há, ainda, receios legítimos por parte dos profissionais: o medo da substituição, a opacidade dos algoritmos, a falta de clareza sobre quem responde em caso de erro.

Estes desafios não nos devem fazer ignorar ou desvalorizar o potencial da IA na saúde, tendo como ponto de partida duas condições claras, referidas no Livro Branco sobre Inteligência Artificial do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV): o respeito pelos direitos fundamentais e valores humanos e a centralidade do humano como finalidade última.

Temos já exemplos que demonstram ser possível integrar a IA com segurança. A startup portuguesa Sword Health, que oferece programas de fisioterapia e cuidados musculoesqueléticos à distância, provou que é possível exportar inovação em saúde digital para todo o mundo. No estrangeiro, surgem iniciativas que podem ser replicadas no nosso país: o CisMED espanhol, capaz de prever ruturas no abastecimento de medicamentos e de fornecer informação estratégica, ou o Pharmi, o chatbot desenvolvido nos Países Baixos, focado em adesão terapêutica e apoio direto ao doente. 

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Quando aplicada com validação clínica, avaliação ética e supervisão humana, a IA aumenta a eficácia do sistema, não descurando a segurança dos doentes.

O olhar dos cidadãos: informação ou desinformação?

Num tempo em que muitos doentes recorrem primeiro à internet antes de falar com o seu profissional de saúde, a proliferação de ferramentas de IA generativa traz um perigo acrescido: respostas rápidas, mas frequentemente incorretas ou descontextualizadas. Estudos recentes, como o que foi conduzido em 2023 pela Flinders University, na Austrália, revelam que modelos generativos são capazes de criar conteúdos falsos altamente persuasivos, incluindo sobre medicamentos e vacinas. A confiança cega em sistemas digitais pode levar a diagnósticos errados, à automedicação ou ao abandono precoce de terapêuticas.

Várias organizações, como a Organização Mundial da Saúde, já alertaram para o impacto da IA na propagação de notícias falsas (“fake news”) em saúde, 

recomendando o reforço de mecanismos de verificação e rastreabilidade da informação. 

Investir em soluções que combinem IA validada com supervisão profissional, garantindo que os cidadãos têm acesso a informação fidedigna e atualizada, será o caminho. Experiências internacionais, como o chatbot suíço confIAnce, mostram que é possível oferecer serviços digitais de informação ao doente com validação científica e supervisão humana. 

Neste contexto, os farmacêuticos devem assumir-se como mediadores de confiança: utilizar a IA como ferramenta de apoio, reforçando o contacto presencial e a literacia em saúde. 

Liderança e responsabilidade da Ordem dos Farmacêuticos

Entre as atuais prioridades da Ordem dos Farmacêuticos (OF), encontram-se a dispensa de medicamentos em proximidade, que depende da articulação entre farmácias hospitalares e comunitárias; a integração de cuidados, que exige uma atuação coordenada entre os diferentes níveis de prestação e entre todos os profissionais de saúde; ou a resolução de problemas de interoperabilidade dos sistemas de saúde e acesso a dados. Questões que se cruzam e podem ser agilizadas com os desenvolvimentos e potencialidades da IA.

A OF entende que a IA deve ser adotada com ética e transparência, colocando o doente no centro e reforçando a intervenção do farmacêutico em todo o sistema de saúde. Isso significa defender padrões de qualidade, apoiar projetos-piloto em farmácias comunitárias e hospitalares e colaborar com startups, universidades e decisores políticos. Significa também integrar a literacia digital e a ética da IA nos planos de estudo e na formação contínua.

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A Ordem dos Farmacêuticos tem o dever e a oportunidade de liderar este movimento, garantindo que a IA serve a saúde pública, com ética, equidade e humanidade.

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*Helder Mota Filipe
Bastonário da Ordem dos Farmacêuticos

21 Nov 2025 - 11:53

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