“A maior parte das pessoas não ouve com a intenção de compreender; ouvem com a intenção de responder.” Stephen R. Covey, 2020
A consulta médica é, para muitos, um momento de tensão, expectativa e esperança. É ali que se procura alívio para sintomas, respostas para dúvidas, soluções para problemas que, por vezes, se arrastam há semanas ou meses. Mas será que estamos a tirar o melhor partido desse encontro? Será que compreendemos realmente o que nos é dito? E, mais importante ainda, será que desempenhamos o nosso papel como doentes de forma ativa e consciente?
Em Portugal, mais de 60% da população tem dificuldade em compreender e aplicar informação de saúde, segundo o inquérito europeu HLS-EU. Apenas 44% demonstram literacia suficiente nos cuidados médicos. Quando questionadas sobre temas complexos como o prognóstico, apenas 38% das pessoas reconhecem ter recebido informação nova, apesar de os médicos acreditarem que a transmitiram, como mostra um estudo da Universidade Católica. Estes números mostram que a consulta, tal como é vivida por muitos, está longe de ser plenamente aproveitada.
Durante anos, a medicina foi marcada por um modelo paternalista, em que o médico decidia e o doente obedecia (ou assim se pensava…). A autoridade médica era incontestável, e a consulta, muitas vezes, resumia-se a uma transmissão unilateral de ordens. Este sistema unidirecional funcionava bem na urgência e nas doenças agudas. No entanto, falhou progressivamente à medida que a realidade das doenças crónicas se impôs. Mais, atualmente, queremos cada vez mais saúde pela abordagem dos estilos de vida e do controlo do risco de doença, o que implica que cada pessoa assuma a responsabilidade de gerir os aspetos da vida numa capacidade adaptativa pouco compatível com o discurso diretivo de antigamente. Pede-se uma comunicação de tipo deliberativo, em que ambos, médico e doente, assumem os seus papéis específicos na consulta e partilham o poder de decisão, dentro dos limites do que é correto. É a medicina centrada na pessoa, em decisões partilhadas, em literacia em saúde. Mas, na prática, muitas pessoas continuam a sair da consulta sem saber exatamente o que têm, o que fazer ou por que razão devem seguir determinada orientação ou tratamento.
Mais do que atribuir responsabilidades a uns ou a outros, interessa perceber de que forma cada um se pode posicionar para ser um agente facilitador de uma consulta mais eficaz, mais humana e mais útil. Aproveitar bem a consulta começa antes de entrar no consultório. É preciso preparar-se: pensar nas perguntas que se quer fazer, nos sintomas que se têm sentido, nos medicamentos que se tomam. Levar consigo os exames realizados, apontar datas, episódios, dúvidas. Pensar nas expectativas que tem em relação à saúde e às doenças. Não é necessário ser especialista em medicina, mas é fundamental ser especialista em si próprio.
Durante a consulta, o tempo é limitado. O médico tem de ouvir, observar, raciocinar, decidir e explicar. O doente, por sua vez, tem de contar a sua história, expressar os seus receios, compreender o que lhe é dito. E aqui surgem os obstáculos. A linguagem médica é, muitas vezes, técnica e inacessível. Termos como “insuficiência renal”, “estenose”, “comorbilidades” ou “prognóstico reservado” podem gerar confusão ou medo. Além disso, o estado emocional do doente por ansiedade, dor ou receio interfere na capacidade de escuta e compreensão.
Por isso, é essencial que cada um se sinta à vontade para pedir esclarecimentos. Para dizer: “Não percebi.” Para repetir o que entendeu e confirmar se está correto. Para perguntar: “O que significa isso?” ou “O que acontece se eu não fizer este tratamento ou seguir esta dieta?” O monólogo doutros tempos dá lugar ao diálogo. E esse diálogo só funciona se houver espaço para perguntas, para pausas e para explicações adaptadas à realidade de cada pessoa.
O médico, por sua vez, tem de estar disponível para escutar. Para adaptar a linguagem. Para usar metáforas, exemplos do quotidiano, esquemas simples. Usar o digital a favor da informação — seja numa fotografia encontrada na internet, num vídeo do YouTube® ou num blog que recomenda com informação suplementar. Tem de verificar se o doente compreendeu. Não basta perguntar “percebeu?” – é preciso ouvir o que o doente entendeu. Porque compreender não é apenas ouvir; é integrar, relacionar e aplicar.
O trabalho prolonga-se para lá da consulta. É preciso seguir as orientações, mas também estar atento ao próprio corpo, aos efeitos dos medicamentos, à evolução dos sintomas. É útil tomar notas, envolver familiares ou cuidadores, procurar fontes de informação fiáveis. E, se necessário, voltar a contactar o médico para esclarecer dúvidas que surgem depois ou realizar ajustamentos que sejam necessários.
A literacia em saúde é um fator decisivo. Não se trata apenas de saber ler ou escrever, mas de conseguir compreender e usar a informação de saúde para tomar decisões informadas. E isso exige esforço, curiosidade e vontade de aprender. Exige também que os sistemas de saúde promovam essa literacia, com materiais acessíveis, linguagem clara e apoio ao longo do percurso de cuidados.
Mas a literacia em saúde não se limita à compreensão básica da informação. Inclui também a capacidade crítica de questionar, comparar e adaptar o que se ouve e lê. Num mundo onde a informação médica circula em blogs, redes sociais, vídeos e fóruns, é essencial saber distinguir fontes fiáveis de opiniões infundadas. Mais ainda, é preciso saber contextualizar: perceber que uma recomendação genérica pode não se aplicar à sua situação específica e que há sempre espaço para perguntar “isto faz sentido para mim?” ou “quais são as alternativas?”. Esta literacia crítica permite a cada um não apenas seguir instruções, mas participar nas decisões, ponderar riscos e benefícios e construir um plano de cuidados que respeite a sua realidade, valores e possibilidades.
A consulta médica é um espaço de cuidado, mas também de construção de conhecimento. É onde se cruzam o saber técnico e o saber vivido. É o local onde se pode transformar uma queixa em compreensão, uma dúvida em decisão, uma preocupação em plano de ação. Mas para isso, é preciso que o doente esteja presente, não apenas fisicamente, mas mentalmente, emocionalmente, ativamente. Quando essa presença é ativa e a comunicação é clara e partilhada, a consulta torna-se não só mais eficaz, mas também mais satisfatória: para o doente, que se sente compreendido e capacitado, e para o médico, que vê o seu cuidado valorizado e melhor aplicado.
Então, como pode aproveitar bem a consulta com o seu médico? Preparando-se antes, participando durante e continuando o cuidado depois. É na atitude ativa, na curiosidade, na coragem de perguntar e na disponibilidade para escutar que reside a chave. Aproveitar bem a consulta não é apenas entender o que o médico diz: é transformar essa informação em ação, em decisão, em cuidado. E isso começa quando a pessoa se reconhece como parte essencial da equação da saúde.
Perguntar-se se entendeu o que o seu médico lhe disse é, sobretudo, um desafio à corresponsabilização. É reconhecer que a saúde não se delega por completo. Que o médico é um aliado, mas não um substituto. Que a consulta é um momento de partilha e não apenas de prescrição. E que quando cada um assume o seu papel, a medicina torna-se mais eficaz, mais justa e mais humana.
*Paulo Santos
Médico de família, professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto





