Desinformação em hipertensão – questões comuns na prevenção e controlo da doença

Desinformação em hipertensão – questões comuns na prevenção e controlo da doença

POR HELOÍSA RIBEIRO

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A hipertensão arterial é frequentemente descrita como uma doença silenciosa. Esta designação não é exagerada: na maioria dos casos, a pressão arterial elevada não provoca sintomas, o que pode atrasar o seu diagnóstico. Em Portugal, onde a hipertensão é uma doença prevalente e o principal fator de risco para o acidente vascular cerebral (AVC) — a principal causa de morte no país — a natureza silenciosa desta doença assume particular gravidade. Muitas pessoas desconhecem que são hipertensas e, entre as que conhecem o diagnóstico, uma proporção significativa não segue adequadamente as recomendações médicas ou subestima a importância das medidas de estilo de vida e de manter terapêutica farmacológica como prescrita. Neste contexto, a desinformação surge como uma dificuldade adicional, aprofundando lacunas de conhecimento, distorcendo prioridades e comprometendo intervenções essenciais para o controlo da doença.

A desinformação na área da saúde não é um fenómeno novo, mas tomou uma dimensão alarmante com a expansão das redes sociais e de plataformas digitais onde qualquer pessoa pode difundir conteúdos sem escrutínio. Em relação à hipertensão, esta desinformação assume várias formas: desde a minimização da gravidade da doença, passando pela promoção de “tratamentos” sem benefícios comprovados ou ditos “naturais”, até interpretações erradas sobre recomendações de estilo de vida. Tudo isto afeta diretamente a prevenção e o controlo da doença. 

As medidas preventivas da hipertensão baseiam-se em mudanças de estilo de vida, sendo as modificações alimentares particularmente importantes. A adoção da dieta mediterrânica tem benefício comprovado na prevenção e controlo da doença, sendo fundamental reduzir do consumo de sal (<5 g/dia o que equivale a 1 colher de chá por dia por pessoa). Apesar da evidência científica que apoia estas orientações, circulam afirmações infundadas de que certos tipos de sal “mais naturais” — como o sal rosa do Himalaia — seriam isentos de risco ou mesmo benéficos, em detrimento do sal “convencional”.  Num país com elevado consumo de sal esta questão gera entropia e desvia-nos do foco: reduzir o consumo de sal.

A literacia é, de facto, uma ferramenta inestimável na ida ao supermercado. No momento de escolher é crucial analisar o rótulo do produto que pretendemos e compará-lo entre as opções disponíveis. Por exemplo, a escolha “light” não é sine qua non tradutora de baixo consumo de sódio e uma análise cuidada do rótulo é fundamental.

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Paralelamente a esta questão, surgem alimentos/produtos que são promovidos como capazes de controlar a pressão arterial. É o caso do consumo de gengibre, chá de folha de oliveira entre outros exemplos possíveis. Contudo, a esmagadora maioria destes produtos não tem evidência científica que suporte efeito significativo na pressão arterial. A confiança exagerada nestas soluções populistas não só engana a população, como pode desencorajar o cumprimento de terapêuticas devidamente prescritas pelo médico, comumente associadas a produtos “não naturais” capazes de “habituar” e “intoxicar o corpo”. A hipertensão, na maioria dos casos, é uma condição crónica e requer tratamento contínuo pelo que, abandonar a medicação com base em mitos pode resultar em elevações abruptas de pressão arterial e, consequentemente, em eventos cardiovasculares potencialmente fatais e indutores de limitação funcional.

A repetição é, de facto, uma arma poderosa da desinformação: quanto mais vezes um indivíduo é exposto a determinada afirmação, maior a probabilidade de a aceitar como verdadeira, mesmo que seja falsa. As pessoas acreditam que estão a fazer algo benéfico pela sua saúde, quando na realidade estão a negligenciar as medidas que realmente fazem diferença.

Outro aspeto preocupante da desinformação é o seu impacto na relação médico-doente, onde a clareza e a confiança são fundamentais. Quando um indivíduo acredita firmemente em informações infundadas, pode desenvolver desconfiança perante recomendações médicas e rejeitar orientações fundamentais. Esta rutura compromete a adesão ao tratamento e pode resultar em valores tensionais persistentemente elevados, aumentando o risco de AVC, enfarte do miocárdio e insuficiência cardíaca. 

A hipertensão é conhecida por “assassina silenciosa”. Sem barulho, impacta profundamente a saúde dos portugueses, que muitas vezes associam apenas hipertensão a cefaleias e a idade avançada, o que retira a importância de medir a pressão arterial e conhecer os seus valores. Como resultado, perdem-se oportunidades importantes de intervenção. A ausência de sintomas não significa ausência de risco!

O combate à desinformação exige uma estratégia multifacetada. Primeiro, é essencial reforçar a literacia em saúde da população. Quanto maior for a capacidade das pessoas para compreenderem informação médica, mais aptas estarão para identificar conteúdos duvidosos. Programas educativos, campanhas de comunicação fundamentadas e iniciativas comunitárias podem desempenhar um papel determinante. Em segundo lugar, os profissionais de saúde devem ser apoiados na sua missão de comunicar de forma clara, acessível e empática. A informação científica, quando transmitida de forma simples e consistente, tem maior impacto e reduz o espaço para interpretações erradas. Além disso, é fundamental que entidades de saúde pública e organizações científicas tenham uma presença activa nos meios de comunicação digital. A ausência destas vozes cria terreno fértil para que discursos não validados ocupem o espaço disponível. A disseminação de conteúdos rigorosos, claros e atrativos é crucial para competir com mensagens simplistas, mas enganadoras. Os cidadãos, por sua vez, devem ser incentivados a adotar uma postura crítica perante aquilo que lêem e a verificar fontes antes de seguirem recomendações.

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Em suma, a desinformação tem um impacto profundamente negativo na prevenção e no controlo da hipertensão. A sua influência manifesta-se na adoção de práticas alimentares inadequadas, na confiança excessiva em soluções não comprovadas, na hesitação em procurar cuidados médicos e na baixa adesão à terapêutica. Numa doença tão silenciosa quanto prevalente, onde cada decisão pode fazer a diferença entre saúde e doença grave, a clareza da informação é um elemento vital. Combater a desinformação não é apenas uma questão de corrigir erros factuais; é uma medida de saúde pública que protege vidas, reduz o risco de AVC e contribui para uma sociedade mais informada e mais saudável.


Heloísa Ribeiro

Presidente-eleita da Sociedade Portuguesa de Hipertensão

2 Fev 2026 - 02:34

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