A urgência de uma abordagem preventiva à desinformação em saúde

A urgência de uma abordagem preventiva à desinformação em saúde

POR RAFAELA ROSÁRIO*

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Num tempo em que as redes sociais são as praças públicas do século XXI, a informação circula à velocidade de um clique. Entre factos e falsidades, cresce o ruído, e com ele, a (des)misinformação (ver nota no final do texto). A pandemia de COVID-19 revelou de forma inequívoca que a desinformação pode ser tão perigosa para a saúde pública como o próprio vírus. A proliferação de rumores, interpretações erróneas e teorias da conspiração, amplificadas pelas redes sociais, contribuiu para a hesitação vacinal, para práticas perigosas e para a erosão da confiança nas instituições. Hoje, fala-se de infodemia para descrever essa sobrecarga de informação, verdadeira ou falsa, que dificulta a tomada de decisões informadas. Mas se a resposta até agora tem sido, sobretudo, reativa, é tempo de mudar o paradigma: a desinformação deve ser enfrentada com a mesma lógica de prevenção que orienta a saúde pública. A ciência já demonstrou que não basta corrigir o erro; é preciso preparar as pessoas para o reconhecer e resistir-lhe. A evidência recente sugere que é possível “imunizar” os cidadãos contra a desinformação, utilizando abordagens profiláticas (“prebunking”), que preparam os indivíduos para reconhecer e resistir a manipulações, e terapêuticas (“debunking”), que corrigem informações falsas após a exposição. 

Um recente artigo publicado na The Lancet Public Health propõe precisamente essa mudança de perspetiva. O enquadramento, inspirado no modelo clássico de prevenção em saúde pública, adapta as quatro dimensões preventivas, primordial, primária, secundária e terciária, à gestão das infodemias. A ideia central é simples e poderosa: não basta corrigir a desinformação depois de circular; é preciso reduzir os riscos que a alimentam e fortalecer os sistemas e comunidades antes que a infodemia se instale.

Na prevenção primordial, o foco está em criar ecossistemas de informação saudáveis e resilientes. Isso passa por investir na confiança entre cidadãos, profissionais de saúde e instituições. A transparência, a comunicação empática e a participação comunitária são pilares essenciais. A confiança não se constrói apenas com mensagens claras, mas com práticas consistentes: serviços de saúde acessíveis, respostas coerentes e lideranças que reconheçam as incertezas de forma honesta. Um cidadão que confia é menos vulnerável à manipulação informativa.

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A prevenção primária visa evitar que a desinformação ganhe terreno entre grupos vulneráveis. A aposta na literacia em saúde geral, digital e mediática é crucial. Ensinar as pessoas a reconhecer fontes fidedignas, a compreender os processos científicos e a questionar o que leem online é uma forma eficaz de “vacinação cognitiva”. As estratégias de prebunking, ou inoculação psicológica, têm mostrado resultados promissores. Sabe-se que ao expor previamente os cidadãos às técnicas usadas para enganar o cidadão, reforça-se a sua capacidade crítica. 

A prevenção secundária corresponde à deteção precoce das infodemias. Ferramentas de auscultação social (“social listening” que inclui a escuta ativa nas redes sociais e nos meios comunitários) permitem identificar rumores e lacunas de informação antes de se transformarem em crises. Ao preencher rapidamente esses “vazios informativos” com dados credíveis e acessíveis, reduz-se o espaço disponível para narrativas falsas. O diálogo contínuo com as comunidades é aqui essencial: compreender as dúvidas e medos das pessoas é tão importante quanto corrigir os factos.

Por fim, a prevenção terciária concentra-se na mitigação dos danos quando a desinformação já se disseminou. Envolve ações de verificação de factos (debunking), campanhas públicas e medidas de regulação nas plataformas digitais. No entanto, como a evidência sugere, este nível deve ser apenas uma parte de uma estratégia mais ampla. Corrigir depois do dano é necessário, mas insuficiente.

Adotar esta abordagem preventiva implica um verdadeiro investimento sistémico. A gestão da desinformação não pode ser responsabilidade exclusiva das autoridades de saúde, exige colaboração entre universidades, meios de comunicação, escolas, plataformas digitais e organizações comunitárias. É um esforço intersectorial, que reconhece que a informação, tal como a saúde, é um bem público.

Um estudo recentemente publicado pela nossa equipa de investigação marca um passo decisivo nesta reflexão. Foi desenvolvido e validado um instrumento que contribui para medir a resiliência à desinformação nas redes sociais, avaliando a capacidade de manter o pensamento crítico e o equilíbrio emocional face à avalanche de conteúdos enganosos. O instrumento resiliência à desinformação apresenta duas dimensões: i) resistência ao stress e resiliência à desinformação (a resposta emocional perante a confusão e a sobrecarga informativa) e, o ii) autocontrolo perante a desinformação (a atitude reflexiva de quem pensa antes de partilhar e questiona antes de acreditar).

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Estas duas forças, cognitivas e emocionais, formam o verdadeiro escudo psicológico contra o vírus da desinformação.

Ao contrário do que se pensa, a resiliência não é uma qualidade inata nem uma muralha impenetrável. É um processo dinâmico, que depende tanto das competências individuais como do contexto social e comunitário. Assim como o corpo ganha imunidade com vacinas e bons hábitos e estilos de vida, também a mente se fortalece com educação mediática, literacia digital e um ambiente de confiança.

O estudo sublinha a importância dos pais como mediadores de informação. Numa fase em que as crianças aprendem a distinguir o real do virtual, são os adultos que decidem o que se partilha, o que se acredita e, muitas vezes, o que se teme. A vulnerabilidade parental à desinformação repercute-se na forma como as famílias interpretam temas de saúde, educação e cidadania. Ensinar os pais a reconhecer emoções de medo, ansiedade ou frustração diante de notícias falsas é, por isso, um investimento de saúde pública.

Mas a responsabilidade não é apenas individual. As plataformas digitais continuam a privilegiar o que gera cliques, não o que promove verdade num tempo e num espaço. Por conseguinte, é urgente que as políticas públicas e os algoritmos passem a integrar critérios de saúde informacional, principalmente num contexto onde o ecossistema da informação é progressivamente encarado como um determinante social da saúde, omnipresente, muitas vezes invisível, mas mitigável.

Assim, medir a imunidade informacional de uma sociedade, permite identificar os grupos mais vulneráveis e orientar programas de intervenção comunitária e gestão de infodemia, de promoção da (literacia em) saúde e prevenção. Medir é o primeiro passo para agir.

Há, porém, outras lições amplamente descritas no âmbito do estudo da inoculação social e no âmbito da gestão da infodemia. Ser resiliente à desinformação não é viver desconfiado, mas viver informado sem perder a serenidade. É manter o espírito crítico sem ceder ao cinismo, e preservar a empatia mesmo quando o outro partilha uma mentira. É compreender que, no caos informativo, a calma é também uma forma de responder à sua exigência.

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A resiliência à desinformação é, em última análise, uma competência democrática. Numa era em que os algoritmos moldam opiniões e as emoções determinam cliques, resistir ao engano é defender a liberdade de pensar. Talvez o antídoto mais poderoso contra a desinformação não seja a censura, mas a mistura de razão e humanidade que a rede social tem dificuldade em replicar.

Nota – No âmbito da desinformação e da misinformação, importa clarificar a distinção entre ambos os termos. Ambos se referem à circulação de informação incorreta; contudo, a misinformação ocorre sem a intenção de enganar, enquanto a desinformação implica deliberadamente o propósito de induzir em erro ou causar dano. Dado que as intenções das pessoas ao partilhar conteúdos nas redes sociais são, na prática, difíceis de determinar, e na ausência de um termo mais abrangente, neste texto utilizamos o termo “desinformação” de forma inclusiva, englobando também a misinformação e afastando-nos da questão da intencionalidade.


Rafaela Rosário
Professora Coordenadora. Universidade do Minho, Escola Superior de Enfermagem

17 Out 2025 - 04:11

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