A vitamina B3 é “a melhor vitamina para a artrite”?
No TikTok alega-se que a vitamina B3 (ou niacina) “é a melhor vitamina para a artrite”. Segundo um dos vídeos publicados, suplementar com esta vitamina pode “transformar as articulações em apenas uma noite”, porque, supostamente, “ajuda a regenerar a cartilagem, reduz o inchaço e devolve a mobilidade”. Será mesmo assim?
É verdade que “a melhor vitamina para a artrite” é a vitamina B3?
“Do ponto de vista científico e clínico, não existe evidência robusta que sustente que a B3 é a melhor vitamina para a artrite”. Quem o diz, em declarações ao Viral, é a especialista em medicina geral e familiar Sofia Carvalho Pinto, que trabalha na área da medicina preventiva e longevidade da Clínica Pilares da Saúde.
A especialista começa por explicar que, de facto, “a ideia de que a vitamina B3 possa ser ‘a melhor vitamina para a artrite’ pode, à primeira vista, parecer plausível, pois trata-se de uma vitamina envolvida no metabolismo celular e na produção de energia”.
Tal como se esclarece no site do Programa Nacional de Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS), a vitamina B3 (ou niacina) “é essencial para todas as células, na produção de energia e para o metabolismo, e tem também um papel importante na reparação do DNA e estabilidade genética”.
No entanto, sublinha Sofia Carvalho Pinto, “quando olhamos para a evidência científica disponível, a realidade é diferente”. Não há evidência robusta que sustente a afirmação de que a vitamina B3 é a melhor vitamina para a artrite.
“O único estudo clínico relevante sobre o tema foi publicado em 1996, no Journal of Orthopaedic Research”, em que “foram estudadas 72 pessoas com osteoartrose (não artrite reumatoide)”, adianta a médica.
As pessoas “foram divididas em dois grupos: um recebeu a vitamina B3 e o outro placebo, durante 3 meses”.
Os autores “observaram uma melhoria modesta na mobilidade articular e uma redução no uso de anti-inflamatórios no grupo tratado, mas sem diferença significativa na dor em relação ao placebo”, explica a especialista.
Na perspetiva de Sofia Carvalho Pinto, “importa sublinhar que este se tratou de um estudo pequeno, de curta duração e nunca replicado em larga escala — ou seja, os resultados não são conclusivos e não se podem aplicar a larga escala”.
Na ciência médica, clarifica a especialista, “um único estudo isolado não é suficiente para justificar recomendações clínicas, especialmente quando a amostra é pequena e os resultados não se repetem noutros contextos”.
Por esse motivo, “as principais sociedades internacionais, como a American College of Rheumatology (ACR) e a European League Against Rheumatism (EULAR), não incluem a vitamina B3 nas suas diretrizes para o tratamento da artrite reumatoide nem da osteoartrose” (ver aqui, aqui, aqui e aqui).
Segundo a médica, “estas organizações baseiam as suas recomendações em múltiplos ensaios clínicos, revisões sistemáticas e meta-análises — e até ao momento, nenhuma revisão de qualidade encontrou benefício consistente da B3 na artrite”.
Por outro lado, salienta, a suplementação indiscriminada de vitamina B3 não é isenta de riscos. “Pode causar rubor facial intenso, aumento da glicose no sangue, alterações hepáticas (fígado) e aumento do ácido úrico (potencialmente, agravando a gota, uma forma de artrite)”, esclarece.
Além disso, os suplementos de vitamina B3 podem “interagir com medicamentos frequentemente usados no tratamento da artrite”.
De modo geral, “a melhor estratégia nutricional para a artrite continua a ser uma alimentação equilibrada, rica em frutas, legumes, peixes gordos e azeite — a dieta mediterrânica — que se associa a um perfil anti-inflamatório”, defende.
Em casos específicos, “a evidência apoia o uso de ómega 3 como adjuvante na artrite reumatoide, e de vitamina D quando existe deficiência documentada” (ver também aqui e aqui).
Em suma, “não há base científica para afirmar que a vitamina B3 é a melhor, ou sequer uma vitamina eficaz, para tratar ou prevenir a artrite”, reforça Sofia Carvalho Pinto.