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Mistura com vinagre de maçã e bicarbonato cura a candidíase?

13 Mai 2024 - 09:22
falso

Mistura com vinagre de maçã e bicarbonato cura a candidíase?

Diz-se nas redes sociais que uma mistura com vinagre de maçã e bicarbonato de sódio cura a candidíase. Num vídeo publicado no Facebook, alega-se que esta receita caseira é um “remédio excelente e natural” para tratar o “mau cheiro, a comichão, o corrimento amarelado e o ardor” na região genital. 

Para tal, é aconselhado que se misture, num litro de água, “um pouco de vinagre de maçã” e “um pouco de bicarbonato” de sódio.

Depois, segundo o autor do vídeo, a mistura deve ser aplicada no local com recurso a uma toalha ou a um pano humedecido ou apenas com as mãos. Após repousar por cinco minutos, recomenda-se que a mistura seja reaplicada. No fim, recomenda-se “lavar normalmente” a região genital. Mas será esta mistura de vinagre de maçã um tratamento eficaz e seguro contra a candidíase?

Mistura com vinagre de maçã e bicarbonato de sódio cura a candidíase?

vinagre e bicarbonato de sódio candidíase

Em declarações ao Viral, Joana Sousa, ginecologista na clínica Forjaz e na clínica da Luz de Odivelas, adianta que não há evidência científica que demonstre a eficácia do vinagre de maçã na eliminação da candidíase.

Um dos argumentos de quem defende o uso do vinagre, explica a médica, é que ele poderia “equilibrar” o pH dos tecidos vaginais e tornar o meio “desconfortável” ao desenvolvimento da candida, o fungo que provoca a candidíase.

No entanto, esclarece a especialista, este microorganismo prefere o pH “ácido e rico em estrogénios”, ambiente predominante em idade fértil.

Por isso, além de esta mezinha não ser eficaz, a utilização de vinagre ou de qualquer outra substância que tenha pH ácido tende a “agravar os sintomas e a irritação”, afirma Joana Sousa.

A ginecologista da clínica da Luz de Odivelas acrescenta que esta mistura pode mesmo provocar irritação, ardor e, em casos mais graves, queimaduras na região genital.

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Em relação ao bicarbonato de sódio, a especialista em ginecologia explica que este ingrediente “tem sido usado”, mas apenas com a orientação de um médico. 

Adicionalmente, admite que saquetas com chá de camomila frio podem “associar-se ao tratamento convencional” por poderem ter uma ação “calmante e refrescante”.

Em declarações ao Viral, a médica da clínica da Luz destaca que a utilização de remédios caseiros para curar a candidíase podem ser perigosos, sobretudo os ácidos, que podem causar irritação e queimaduras.

Nesse sentido, para diminuir crises de candidíase, recomenda a adoção de um estilo de vida saudável, a hidratação adequada e uma alimentação rica em vitaminas e antioxidantes e pobre em hidratos de carbono de absorção rápida (alimentos processados, como bolachas e doces).

Por outro lado, para evitar a candidíase, Joana Sousa aconselha o uso de roupas amplas de algodão, a regularização do trânsito intestinal e que se evite o uso de pensos diários e de roupas justas.

É também aconselhado pela Ordem dos Farmacêuticos manter uma “higiene íntima adequada”, isto é, secar bem a zona genital e evitar humidade. A higiene da zona íntima, com um produto de pH neutro, não deve ser feita mais do que uma vez por dia. Além disso, não devem ser utilizados sabonete, gel de banho nem toalhetes com antissépticos ou perfumes.

A área genital e anal deve ser “sempre” limpa “da frente para trás”, refere-se no mesmo documento.

O que é a candidíase?

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A candidíase vulvo-vaginal (CVV) é uma doença inflamatória que afeta o trato genital inferior causada por um fungo, a Candida spp. De acordo com a ginecologista Joana Sousa, esta doença é “muito frequente” e pode prejudicar “gravemente” a qualidade de vida das mulheres, sobretudo nos casos recorrentes.

“De um modo geral, pensa-se que entre 90% a 95% das mulheres com CVV têm infeções devido a Candida albicans, a espécie mais frequente”, acrescenta.

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Estes microrganismos fazem parte da flora vaginal de cerca de 10% a 25% das mulheres, de forma assintomática, de acordo com o texto informativo “Candidíase vulvovaginal”, da Ordem dos Farmacêuticos

Já a doença sintomática está associada a uma “proliferação excessiva do fungo” e à “penetração das células epiteliais superficiais”, causando uma resposta inflamatória.

A origem da candidíase é “controversa”, refere a médica consultada pelo Viral. Entre as hipóteses estão o “reservatório intestinal, a reinfeção a partir de um parceiro sexual ou a incapacidade de eliminar totalmente o microorganismo após a infeção inicial”.

Segundo Joana Sousa, na maioria das mulheres, não existem “fatores predisponentes”. Mas há “situações que favorecem a CVV”, tais como: gravidez, contraceção com estrogénios, terapêutica hormonal de substituição, toma de antibióticos e imunidade celular reduzida.

Certas patologias, como a diabetes mal controlada, ou algumas doenças e medicamentos que provocam imunossupressão, aumentam as “taxas de colonização e infeção por Candida spp”.

Os sintomas mais comuns são corrimento anormal branco e espesso (tipo requeijão) comichão, irritação, ardor, dor extrema ao urinar e dor nas relações sexuais, explica a especialista. 

Por norma, os sintomas tornam-se mais intensos na semana anterior à menstruação, indica o texto informativo da Ordem dos Farmacêuticos.

No exame físico, pode observar-se, por exemplo, “vermelhidão dos grandes e pequenos lábios”. Nos casos mais graves, pode verificar-se “edema ou fissuras na vulva e escoriações”.

O tratamento pode ser feito através de antifúngicos, probióticos e prebióticos com simbióticos, explica a ginecologista.

Os antifúngicos, em pomada ou comprimidos, resolvem 80/85% dos casos. 

Em relação aos probióticos, dados “in vitro” mostram que “muitas espécies de lactobacilos inibem o crescimento do fungo”, indica a médica da clínica Forjaz. No entanto, sublinha Joana Sousa, são necessários mais estudos aleatorizados para demonstrar a sua eficácia.

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Já sobre o uso de prebióticos com simbióticos, um estudo de 2019 concluiu que, com o tratamento à base de lactobacilos e lactoferrina baixa, as taxas de recorrência ao fim de três meses eram mais baixas quando comparadas com o grupo placebo.

As mulheres com imunossupressão (diabetes) podem precisar de tratamento farmacológico “mais completo e mais prolongado”, sinaliza a especialista.

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Em caso de candidíase em mulheres imunodeprimidas, a fazer quimioterapia, diabéticas ou qualquer outra doença que afete o sistema imunitário, estas devem ser encaminhadas para o médico, diz o Protocolo de Dispensa Exclusiva em Farmácia (EF) do Infarmed.

A ida ao médico é também recomendada, segundo o mesmo documento, em caso de “candidíase complicada”, ou seja, recorrente e severa, quando há hemorragia vaginal “anormal e irregular”, sangue no corrimento vaginal, corrimento esverdeado e odor intenso, inchaço, úlcera, dor abdominal inferior e também quando há antecedentes de doenças sexualmente transmissíveis ou em mulheres com menos de 16 anos ou mais de 60.

Por fim, Joana Sousa alerta que há outras patologias com sintomas semelhantes aos da candidíase. Nesse sentido, é “importante” consultar o médico assistente, principalmente em quadros recorrentes.

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Ginecologia

13 Mai 2024 - 09:22

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