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Vegetarianos são mais propensos a ter anemia? Não, desde que a dieta seja equilibrada

17 Mai 2022 - 08:30

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Vegetarianos são mais propensos a ter anemia? Não, desde que a dieta seja equilibrada

As dietas vegetarianas são muitas vezes associadas à grande probabilidade de desenvolver anemia. Muitos acreditam que o ferro só está presente na carne e que, por isso, nem todas as pessoas podem ser vegetarianas. Mas é mesmo verdade? Primeiro é preciso esclarecer o que é esta condição clínica, como se desenvolve e como pode ser combatida.

A médica de Saúde Pública (SP), Raquel Vareda, explica ao Viral que a anemia se designa por um redução “do número de eritrócitos (ou glóbulos vermelhos) ou da hemoglobina (que é uma metaloproteína que existe dentro dos eritrócitos e que faz o transporte das moléculas de oxigénio)”. Quer isto dizer que, na prática, “o transporte de oxigénio no nosso organismo fica comprometido”, acrescenta Sandra Silva, nutricionista e autora do blog e do livro “O Vegetariano”.

Raquel Vareda refere que se estima que um quarto da população mundial tenha algum tipo de anemia em algum momento da sua vida. Também um artigo publicado na Associação Vegetariana Portuguesa garante que esses 25 por cento da população, com diferentes regimes alimentares, têm alguma forma de anemia, sendo que mais de metade dos casos se deve à deficiência de ferro. “A anemia é o défice nutricional mais comum do mundo, e é mais frequente em mulheres em idade fértil, devido à menstruação”, defende Sandra Silva.

“A anemia é o défice nutricional mais comum do mundo, e é mais frequente em mulheres em idade fértil, devido à menstruação”.

O que provoca uma anemia, na maior parte dos casos, é a ferropénia (falta de ferro). “Isto é frequente em mulheres jovens com menstruações abundantes, porque perdem muito sangue mensalmente, mas pode ocorrer por qualquer outra causa de hemorragia (hemorróidas). Também pode acontecer porque temos necessidades aumentadas de ferro (durante o crescimento, gravidez e pós-parto, atletas de alta competição), por alterações na absorção do ferro pelo trato gastrointestinal (doença celíaca, mas também simplesmente a velhice), ou por défice no consumo de ferro”, explica Raquel Vareda.

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Para se descobrir realmente o que está a causar a anemia, faz-se quase sempre “um hemograma” e “aquilo que chamamos as análises da ‘dinâmica do ferro”’. Como exemplifica a médica, se uma mulher jovem tiver menstruações abundantes, assume-se que é essa a causa e parte-se para a suplementação com ferro oral. Num jovem que faça uma dieta muito restritiva também. “Mas qualquer outra situação, implica geralmente outro tipo de exames para compreendermos a causa da anemia. O ‘combate’ à anemia vai depender do valor, das causas e das consequências clínicas da anemia”, esclarece.

É verdade que os vegetarianos são mais propensos a ter anemia?

“Segundo a revisão sistemática com metanálise mais recente sobre o tema, a resposta é sim. Compararam adultos vegetarianos com não-vegetarianos e encontraram realmente valores inferiores de défice de ferritina (as reservas de ferro no fígado) e incidência superior de anemia ferropénia no geral”, afirma a médica de SP.

No entanto, a especialista avisa que a evidência científica mantém-se um pouco controversa, uma vez que existem estudos que não identificam a maior prevalência de anemia ou défice de ferritina, “mas no geral, é um grupo ao qual devemos estar atentos”.

A evidência científica mantém-se um pouco controversa, uma vez que existem estudos que não identificam a maior prevalência de anemia ou défice de ferritina, “mas no geral, é um grupo ao qual devemos estar atentos”.

A nutricionista Sandra Silva assegura que “não existe mais prevalência de anemia em vegetarianos. Alguns estudos mostram que vegetarianos podem apresentar tendencialmente níveis de ferritina mais baixos face aos não vegetarianos, mas ainda dentro das recomendações. Assim, não devemos associar dieta vegetariana a anemia. Seja qual for o padrão alimentar, devemos procurar ter um aporte de ferro adequado”. 

Raquel Vareda garante que a dieta vegetariana ou vegana pode perfeitamente incluir ferro suficiente, “mas tem de ser conscientemente planeada, pelo menos inicialmente, quando os utentes estão a mudar a sua dieta, para poderem aprender a fazer trocas inteligentes. Até porque, ao contrário daquilo que se pensa, a carne e o peixe não têm assim tanto ferro – algumas leguminosas têm mais. Por isso todos os utentes, omnívoros ou não, beneficiariam de aprender a comer de forma mais equilibrada”.

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Ana Isabel Monteiro, nutricionista e autora do blog “Laranja-Lima”, diz ao Viral que existem alimentos de origem vegetal que podem assegurar os níveis de ferro. São eles: leguminosas, como feijão, grão, ervilhas, lentilhas, favas e tremoços; cereais integrais (“há inclusive alguns fortificados com ferro à venda no mercado”); sementes; oleaginosas, como as amêndoas e a noz; e hortícolas de folha verde.

“Podemos potenciar a absorção do ferro não heme (presente nos alimentos de origem vegetal, mas também animal) através da combinação com vitamina C, que podemos encontrar na couve-flor, couve-roxa, kiwi, laranja, limão, morangos, papaia, pimento, tangerina. Contrariamente, devemos evitar o consumo de chá, café, chocolate e vinho junto das refeições principais, normalmente mais ricas em ferro”, acrescenta Ana Isabel Monteiro.

Existem alimentos de origem vegetal que podem assegurar os níveis de ferro. São eles: leguminosas, como feijão, grão, ervilhas, lentilhas, favas e tremoços; cereais integrais; sementes; oleaginosas, como as amêndoas e a noz; e hortícolas de folha verde.

Quando é que se deve tomar suplementos?

“Quando há défice, quando não é possível suprir as necessidades através da alimentação, ou quando as necessidades estão aumentadas, como na gravidez”, defende a nutricionista. Na opinião da médica Raquel Vareda, “qualquer vegano deve fazer suplementação com vitamina B12”. Em relação aos “vegetarianos que comam ovos e bebam leite, tem de se avaliar caso a caso”, pois “depende do quanto consomem esses alimentos”.

No que diz apenas respeito às dietas vegetarianas restritas, ou seja, veganas, a vitamina B12 não está de todo presente. Nestes casos, o suplemento desta vitamina é indispensável. “É verdade que os depósitos de vitamina B12 duram uns anos (dois a quatro anos, depende das pessoas), mas a partir do momento em que entramos num défice, pode ser mesmo muito grave”, avisa a médica.

“Qualquer vegano deve fazer suplementação com vitamina B12”. Em relação aos “vegetarianos que comam ovos e bebam leite, tem de se avaliar caso a caso”, pois “depende do quanto consomem esses alimentos”.

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Em relação à anemia ferropénia, Raquel Vareda explica que só há suplemento de ferro em situações específicas, como por exemplo em bebés veganos, devido às necessidades aumentadas. “Ou então, porque estão com anemia ferropénica, e aí suplementamos três meses com ferro oral. Eventualmente seis meses, se os níveis forem muito baixos, mas geralmente nem é necessário. Também suplementamos se ainda não existir anemia clínica, mas já existir anemia funcional (isto é, ferritina muito baixa, abaixo de 20ng/dL)”, especifica Vareda.

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Porque é que se acredita que a dieta vegetariana provoca sempre anemia?

Isto acontece, porque, de acordo com a médica do SP, pode efetivamente desenvolver-se anemia, não tanto por défice de ferro, mas por défice de vitamina B12, especificamente nas dietas veganas.

“Além disso, acho que simplesmente as dietas vegetarianas têm uma má reputação. Durante os anos 70, 80 e 90, foram muito associadas às comunidades hippies e a estilos de vida muito alternativos, em que as pessoas não recorreriam aos cuidados de saúde e comiam coisas aleatórias. Algumas dessas pessoas efetivamente desenvolveram patologia e isso chegou aos meios de comunicação social. É isso que os meus pais se lembram quando pensam em vegetarianismo ainda hoje”, conta Vareda.

No entanto, a especialista garante que essa já não é a realidade do vegetarianismo atualmente. “Eu sou vegetariana há mais de sete anos e nunca tive anemia. Pelo contrário, tinha anemia antes de ser vegetariana. Dito isto, é verdade que é necessária consciência a fazer esta ou qualquer outra dieta, e idealmente apoio inicial de um profissional de nutrição e de um médico”, finaliza Raquel Vareda.

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17 Mai 2022 - 08:30

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