Vacinas da dengue e da gripe contêm óxido de grafeno?
Num vídeo publicado no Instagram alega-se que as vacinas Qdenga (contra a dengue) e Istivac 4 (contra a gripe) contêm “óxido de grafeno“. Segundo a autora da publicação, estão a introduzir este “material tóxico” nas vacinas. Mas será mesmo assim?
As vacinas contra a dengue e contra a gripe contêm óxido de grafeno?
Em declarações ao Viral, Jorge Gonçalves, professor responsável do Laboratório de Farmacologia da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto (FFUP), adianta que, “em termos regulamentares, ainda não está autorizado o uso de grafeno ou de óxido de grafeno nas vacinas”.
No mesmo sentido, não existem documentos oficiais de nenhuma organização ou instituição nacional e internacional de saúde a referirem que as vacinas, nomeadamente a Qdenga (contra a dengue) e a Istivac 4 (contra a gripe), contêm óxido de grafeno.
As informações que dizem respeito à composição de todas as vacinas aprovadas a nível mundial, europeu e nacional, são públicas e podem ser encontradas, por exemplo, no site da Agência Europeia de Medicamentos (EMA, na sigla inglesa) e na base de dados de medicamentos de uso humano do Infarmed (Infomed).
Na lista de ingredientes da Qdenga, disponibilizada num documento da EMA, não consta grafeno, nem óxido de grafeno. Além disso, estas substâncias também não fazem parte da composição de nenhuma vacina contra a gripe (ver aqui e aqui).
Não é a primeira vez que é partilhada informação falsa sobre o grafeno e as vacinas. Já tinham sido publicados posts nas redes sociais em que se sugeria que as vacinas contra a Covid-19 continham óxido de grafeno.
Na altura, estas alegações foram verificadas por várias plataformas de fact-checking (ver aqui, aqui e aqui).
A própria Pfizer (empresa responsável por uma das vacinas contra a Covid-19) fez um esclarecimento, no seu site, em que garantiu que “o óxido de grafeno não é um ingrediente da vacina contra a Covid-19 da Pfizer-BioNTech”.
O que é o grafeno?
O grafeno é um material feito de uma camada de átomos de carbono, dispostos numa rede de hexágonos (ver aqui e aqui). Na perspetiva de Jorge Gonçalves, este produto é considerado “revolucionário”, devido às suas características.
Apesar de ser “muito leve”, tem “uma resistência semelhante à do aço”, sublinha. Além disso, o grafeno é um dos melhores condutores de eletricidade e calor, tendo inúmeras potenciais aplicações em muitas indústrias, como a eletrónica, a medicina e a aviação (ver aqui).
Para o professor, em teoria, faria sentido incluir o grafeno nas vacinas. Pelas suas características, este material poderia ser útil, por exemplo, no transporte “de antigénios (amostras de agentes infecciosos, como bactérias ou vírus) para o sistema imunitário”, um passo importante no processo da vacinação.
Aliás, já existem alguns estudos (preliminares) sobre os potenciais benefícios do grafeno na preparação de vacinas, enquanto ingrediente adjuvante (ver aqui e aqui).
O problema é que “ainda não conseguimos produzir o grafeno de forma comercialmente viável”, explica Jorge Gonçalves. “O grande desafio é conseguirmos produzir grafeno em quantidade e em qualidade, para poder ser usado”, acrescenta.
Nesse sentido, tem-se tentado encontrar formas eficazes, mas pouco dispendiosas, de produzir e utilizar derivados do grafeno, como o óxido de grafeno, produzido através da oxidação da grafite.
Ainda assim, antes de este composto poder ser integrado nas vacinas, seria necessário “testar” e perceber se este material é tolerado pelo organismo humano e se a sua administração é segura.
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