Vacina contra o HPV aumenta o risco de cancro do colo do útero e tem mais riscos do que benefícios?
Alega-se em várias publicações nas redes sociais que as vacinas contra o vírus do papiloma humano (HPV) são perigosas e têm mais riscos do que benefícios. Em alguns posts, diz-se que a vacina contra o HPV aumenta o risco de cancro do colo do útero, noutros sugere-se que aumentam o risco de se desenvolver doenças autoimunes e há ainda quem defenda que a vacina causa infertilidade.
Uma das pessoas que mais tem partilhado este tipo de alegações sobre a vacina contra o HPV é Robert F. Kennedy Jr., recentemente nomeado por Donald Trump para Secretário da Saúde e dos Serviços Humanos dos EUA. Ao longo dos anos, Robert F. Kennedy Jr. tem utilizado a sua conta na rede social X para alertar a população para os supostos perigos da vacina.
No início de 2023, o advogado escreveu, num post, que “a vacina Gardasil contra o HPV parece estar a aumentar o risco de cancro do colo do útero nos grupos etários vacinados, tal como as vacinas contra a Covid aumentam o risco de Covid”.

Mas será que a vacina contra o HPV não é segura e apresenta mais riscos do que benefícios? Há evidência científica que comprove os supostos efeitos secundários partilhados nas publicações das redes sociais?
É verdade que a vacina contra o HPV aumenta o risco de cancro do colo do útero e tem mais riscos do que benefícios?
Não existe evidência científica que comprove que a vacina contra o HPV aumenta o risco de cancro do colo do útero ou que apresenta mais riscos do que benefícios. Pelo contrário, existem vários estudos robustos que validam a segurança e eficácia das vacinas disponíveis (ver também aqui).
Tal como se pode ler num texto publicado no site da Organização Mundial da Saúde (OMS), “existem 6 vacinas contra o HPV disponíveis a nível mundial”.
Todas protegem “contra os tipos 16 e 18 de HPV de alto risco, que causam a maioria dos cancros do colo do útero, e demonstraram ser seguras e eficazes na prevenção da infeção por HPV e do cancro do colo do útero”, acrescenta-se.
Na Europa, estão aprovadas, pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA), três vacinas contra o HPV: a “Cervarix”, a “Gardasil” e a “Gardasil 9” (ver aqui).
Para a última vacina a ser aprovada, a “Gardasil 9”, a EMA apresenta cinco estudos clínicos principais que contaram com dezenas de milhares de participantes. Segundo os resultados das investigações citadas, a vacina “Gardasil 9 pode proporcionar proteção contra os nove tipos de infeção por HPV”, responsáveis pela maioria dos cancros do colo do útero, vaginais e vulvares causados por estes vírus.
Também os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla inglesa) salientam, num texto, que “todas as vacinas contra o HPV revelaram uma elevada eficácia (perto de 100%)” na prevenção de infeções relacionadas com o vírus e dos cancros associados ao HPV.
O Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS) refere, num texto, que a vacina “funciona muito bem na redução do risco de contrair o HPV” e, “desde que a vacina é utilizada, tem-se verificado uma grande diminuição do número de jovens que contraem doenças relacionadas com o HPV, como o cancro do colo do útero e as verrugas genitais”.
Ao contrário do que se sugere em várias publicações partilhadas nas redes sociais, também “não há provas de que as vacinas contra o HPV provocam infertilidade ou doenças autoimunes, embora estes sejam mitos comuns”, lê-se num texto do Instituto Nacional do Cancro (NCI) dos Estados Unidos.
No mesmo sentido, refere-se noutro texto dos CDC, também não há provas de que “as vacinas contra o HPV causem problemas reprodutivos nas mulheres, incluindo a IOP” (insuficiência ovárica prematura), nem há evidência que sugira “uma ligação causal” entre a vacina e a morte.
Segundo o NCI, os efeitos secundários comuns das vacinas contra o HPV são “dor, inchaço e vermelhidão no local onde a injeção foi administrada, bem como dores de cabeça, cansaço e náuseas” (ver também aqui).
Os efeitos secundários graves mais comuns da vacinação contra o HPV “são tonturas e desmaios”, acrescenta.
O único caso em que não se pode tomar a vacina é se a pessoa “tiver tido uma reação alérgica grave (anafilaxia) a uma dose anterior da vacina ou a um componente da vacina”, avisa o NHS.
Caso contrário, “a melhor forma de prevenir o HPV, e futuras doenças devido ao HPV, é vacinar-se”, lembra a Sociedade Americana do Cancro.
Aliás, os últimos números do Comité Consultivo Global para a Segurança das Vacinas (GACVS) da OMS revelam que os benefícios da vacinação contra o HPV “são muito evidentes”.
“Vários países que introduziram as vacinas contra o HPV no seu programa de imunização registaram uma diminuição de 50% na taxa de incidência de lesões pré-cancerosas do colo do útero entre as mulheres mais jovens”, salienta-se num texto do GACVS.
Em contrapartida, “a taxa de mortalidade por cancro do colo do útero no Japão, onde a vacinação contra o HPV não é recomendada de forma pró-ativa, aumentou”.
Em Portugal, “a vacina contra o vírus do papiloma humano faz parte do Programa Nacional de Vacinação”, informa-se num texto do balcão digital do Serviço Nacional de Saúde (SNS 24).
A vacinação “está recomendada para administração aos 10 anos, aplicável para raparigas, num esquema de duas doses (0, 6 meses)”.
Além disso, desde outubro de 2020 que “os rapazes nascidos a partir de 2009 podem fazer a vacina gratuitamente, no âmbito do Programa Nacional de Vacinação, também aos 10 anos”, acrescenta-se.
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