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Usar champô seco causa cancro?

22 Ago 2025 - 08:45
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Usar champô seco causa cancro?

Num vídeo com mais de um milhão de visualizações no TikTok, uma alegada nutricionista alerta para o perigo da utilização de champô seco e identifica o produto como “causador de cancro”.

Nos breves segundos em que o champô seco é protagonista do vídeo, não há justificação nem evidência científica. Mas a alegação é repetida noutras plataformas e formatos: quem diz que este cosmético provoca cancro, garante que contém vestígios de benzeno, um agente comprovadamente cancerígeno, de acordo com a avaliação da Agência Internacional de Investigação do Cancro (IARC, na sigla inglesa).

Ao olhar para listas de ingredientes de vários champôs secos à venda no mercado, não se encontra a palavra “benzeno”. Este líquido não está presente em nenhum produto do género, até porque “é proibido na Europa porque é um cancerígeno do grupo 1 [na classificação da IARC] e jamais alguém ia pôr benzeno no propósito nos champôs secos”, diz Marta Ribeiro Teixeira, dermatologista na Clínica Espregueira, no Porto.

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Então porque é que se diz que a utilização de champôs secos aumenta a probabilidade de desenvolver cancro?

Champô seco provoca cancro?

Não, não há qualquer evidência que sustente a afirmação, diz a dermatologista.

Esta alegação é recente: em 2022, quando um laboratório independente norte-americano analisou 148 lotes de 34 marcas e identificou valores elevados de benzeno em 70%, a crença de que o champô seco provoca cancro surgiu. De facto, nesses cosméticos foram identificados valores muito acima dos permitidos e os produtos foram retirados. Entretanto, não voltou a acontecer nada semelhante.

“Na Europa, nunca aconteceu”, refere Marta Ribeiro Teixeira, sublinhando as “regras apertadas” e “controlos” a que estes produtos estão sujeitos. “O Infarmed e a ASAE fazem o controlo dos produtos cosméticos e nunca houve nenhuma sugestão, alarme ou identificação de níveis de benzeno”. Mesmo em 2022, lembra, o benzeno foi identificado apenas nos Estados Unidos.

“O benzeno não é um componente dos champôs secos” e no caso dos Estados Unidos terá sido um contaminante. “E só foi detetado nos champôs secos em forma de spray, aquilo que se pensa é que tem que ver com os propelentes do aerossol”, nota.

Esses champôs secos retirados do mercado norte-americano representavam, de facto, um perigo para a saúde. Mas para aumentar o risco de cancro, a exposição teria de ser a longo prazo e em quantidades altas — nesse caso, há mais probabilidade de uma pessoa desenvolver leucemia ou outro cancro do sangue, lê-se no site do Centro de Prevenção e Controlo da Doença dos Estados Unidos (CDC, na sigla inglesa).

Segundo a American Cancer Society, as taxas de leucemia, e particularmente leucemia aguda mieloide, são mais altas entre trabalhadores nas indústrias química, do calçado e de refinarias, frequentemente expostos a níveis elevados de benzeno. Também a Liga Portuguesa Contra o Cancro alerta para a possibilidade de desenvolver leucemia após exposição a níveis elevados de benzeno durante o trabalho.

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O benzeno é um líquido altamente inflamável com um cheiro doce. Existe na natureza, em vulcões ou durante incêndios florestais e faz parte do crude, da gasolina e do fumo dos cigarros. Na indústria é frequentemente utilizado para fazer outros químicos, que são depois usados para fabricar plástico, resina, tecidos sintéticos, entre outros.

A inalação de quantidades muito elevadas de benzeno pode causar tonturas, dores de cabeça, tremores, confusão, perda de consciência. Engolir benzeno pode provocar vómitos, tonturas, convulsões, batimento cardíaco acelerado. Em situações extremas, é possível que engolir ou inalar benzeno leve à morte.

A longo prazo, como é o caso de trabalhadores de várias indústrias, o benzeno pode diminuir a produção de glóbulos vermelhos, o que pode causar anemia, segundo o CDC. A mesma instituição alerta para a possibilidade de alterar o número de anticorpos no sangue, fazendo com que haja menos glóbulos brancos.

É seguro usar champô seco?

“Sim, é preciso ter alguns cuidados, mas não há motivo para alarme”, diz a dermatologista. Esses cuidados estão relacionados com o couro cabeludo e não com a possibilidade de desenvolver doença oncológica devido ao uso de champô seco — nenhum componente deste produto é cancerígeno.

O “uso deve ser esporádico”, principalmente para pessoas com couro cabeludo sensível, alerta Marta Ribeiro Teixeira. “Não recomendaria o uso a pessoas que tenham uma dermatite seborreica ou uma psoríase ativa porque pode causar ainda mais irritação”. “Cabelos secos correm o risco também de ficar mais secos e mais danificados, sobretudo no verão”, avisa a médica.

A aplicação deve ser feita em locais “abertos ou ventilados, por exemplo, junto a uma janela aberta” e a “20 ou 30 centímetros do couro cabeludo e do rosto”. A dermatologista lembra ainda que o champô seco existe em várias texturas, não só em aerossois, por isso pode ser boa ideia experimentar o produto “em espuma ou em pó”.

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“Ler o rótulo” é uma prática recomendável para confirmar que não há alergia a nenhum dos componentes do champô seco.


Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.

A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.

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22 Ago 2025 - 08:45

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