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Urtigas “desinflamam o corpo” e regulam hormonas? O que diz a ciência

11 Abr 2026 - 08:15

Urtigas “desinflamam o corpo” e regulam hormonas? O que diz a ciência

Um vídeo no Facebook sugere que consumir urtigas pode “desinflamar o corpo” e ajudar a regular o sistema hormonal. Mas será esta planta uma solução natural para reduzir inflamação sistémica e equilibrar hormonas? Existe evidência científica que sustente estas alegações?

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Consumir urtigas “desinflama o corpo”?

Em declarações ao Viral, a endocrinologista Paula Freitas adianta que “não existe evidência científica robusta” que permita recomendar o consumo de urtiga com este objetivo, nem sequer uma dose ou regularidade definida.

Embora existam estudos – sobretudo pré-clínicos, e alguns dados em humanos – “muito limitados” a sugerir o efeito anti-inflamatório da urtiga, esses resultados ainda não são suficientes. Como explica a também docente na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, “a maioria dos dados é experimental” e  “o seu papel na clínica ainda é duvidoso”.

Em humanos, a atividade antioxidante da urtiga tem sido analisada, até à data, apenas em três doenças, como realça um estudo de 2022 da publicação científica Antioxidants: diabetes, doença inflamatória intestinal (DII) e Hiperplasia Prostática Benigna (HPB). No entanto, o mesmo artigo reconhece que “são necessários mais estudos em humanos” para determinar o potencial antioxidante da planta como tratamento para estas doenças.

Também a especialista entrevistada denota que os estudos em humanos são escassos e inconsistentes: “Não demonstram de forma robusta redução consistente de marcadores sistémicos como PCR ou IL-6”.

E “desinflamar o corpo” é realmente um conceito médico?

Não exatamente.

A inflamação é um processo biológico complexo, com diferentes formas e causas, e não existe uma condição universal chamada “corpo inflamado”. 

Paula Freitas esclarece que o termo “desinflamar o corpo” é “errado porque mistura fenómenos muito distintos (i.e. inflamação aguda, crónica, autoimune, infeciosa, metabólica) como se fossem uma única entidade corrigível com a mesma ‘dieta anti-inflamatória’ ou suplemento milagroso”.

Além disso, a especialista alerta que este tipo de linguagem é frequentemente usado nas redes sociais como “apelo comercial para suplementos, detox ou protocolos pouco fundamentados, usando uma linguagem pseudo-científica, mas sem fornecer qualquer evidência científica e clínica objetiva”.

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A urtiga regula o sistema hormonal?

Aqui a evidência também é limitada.

Existem alguns dados experimentais que sugerem interações com o sistema hormonal, mas sobretudo em contexto laboratorial. “A evidência clínica em humanos é muito limitada e, quando existe, aponta para efeitos discretos e sobretudo indiretos”, descreve a especialista.

“Os dados disponíveis são sobretudo in vitro ou extrapolados de modelos animais. Não há, até ao momento, provas robustas em humanos de um efeito hormonal direto, forte e previsível (por exemplo, aumento de X % de testosterona ou redução consistente de prolactina, LH, FSH, etc.)”, adiciona. Ou seja, não está comprovado que o consumo de urtiga altere de forma significativa hormonas como testosterona ou estrogénios.

Ainda, segundo a docente, “outras áreas de investigação são na hepatoproteção, efeitos cardiovasculares, neurológicos, reprodutivos”, mas, como já referiu, “a evidência é quase toda in vitro/animal e com extrapolação muito limitada aos humanos”.

Esta leitura é consistente com a literatura científica mais recente. Uma revisão publicada, em junho de 2024, no Phytochemistry Reviews conclui que a urtiga apresenta atividade anti-inflamatória, sobretudo em estudos in vitro e em modelos animais, mas sublinha a necessidade de mais ensaios clínicos em humanos antes de se avançar para conclusões clínicas. 

Também um artigo do Journal of Herbal Medicine aponta para propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, que pode até implicar benefícios no tratamento do cancro da mama, mas enquadra-as sobretudo no cenário experimental, não como evidência clínica consolidada.

Chá, suplemento ou planta fresca: faz diferença?

Em teoria, a forma de consumo pode alterar os compostos ingeridos. No entanto, na prática, faltam dados comparativos sólidos. “A evidência comparativa entre chá, planta fresca e suplementos é muito limitada”, diz Paula Freitas.

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De acordo com a especialista: “As folhas concentram mais carotenoides, certos fenólicos e alguns nutrientes, enquanto as raízes têm mais determinados lignanos e perfis diferentes. Adicionalmente, solvente e diferentes técnicas de extração extraem diferentes compostos. Extratos hidroalcoólicos e com solventes orgânicos (e.g., metanol, etanol, acetona) extraem muito mais fenóis e flavonoides do que água simples, e a temperatura de extração também influencia a composição, o que sugere que um simples chá não reproduz o conjunto de compostos ativos usado em muitos trabalhos laboratoriais”.

Como refere, “não é possível quantificar de forma sólida ‘eficácia relativa’ entre chá, suplemento ou planta fresca”. Perante esta incerteza, recomenda que, “na falta de evidência, não se deve tomar”.

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Existem riscos associados ao consumo da planta?

Sim. O contacto com a planta fresca pode causar reações cutâneas e o consumo pode interferir com vários medicamentos. A especialista destaca “potenciais interações” com fármacos cardiovasculares, antidiabéticos e diuréticos.

No caso de terapias hormonais, Paula Freitas afirma que os dados são escassos, mas existem interações “sobretudo de plausibilidade farmacológica”, pelo que, na prática cínica, a automedicação deve ser desencorajada .

Conclui-se, assim, que não existe evidência científica robusta que comprove que consumir urtigas “desinflama o corpo” ou regula o sistema hormonal de forma significativa. Como resume a especialista, a evidência disponível é sobretudo experimental e não  representa “eficácia clínica comprovada”.

Categorias:

Alimentação

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Urtigas

11 Abr 2026 - 08:15

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