Uma das causas da depressão pós-parto é o défice de ómega 3? Psiquiatra explica
Num vídeo partilhado no TikTok alega-se que uma das causas da depressão pós-parto é o défice de ómega 3. Isto porque, justifica-se, o cérebro do bebé “precisa de ómega 3” para se desenvolver. Se a grávida não tiver os níveis de ómega 3 adequados, supostamente, “fica com défice e entra em depressão”. Será mesmo assim?
É verdade que o défice de ómega 3 causa depressão pós-parto?
O défice de ómega 3 “não pode ser considerado uma causa” da depressão pós-parto. Quem o diz, em declarações ao Viral, é Filipa Caetano, psiquiatra e psicoterapeuta cognitivo-comportamental.
Sabe-se que, durante a gravidez, “no último trimestre, o bebé vai usar as reservas de ómega 3 da mãe para terminar a formação do cérebro e da parte da visão”, explica a especialista.
Por esse motivo, “nessa altura e no pós-parto, as mulheres têm uma diminuição dos ómegas na corrente sanguínea”.
Contudo, não se verificou, nos estudos, que “suplementar com ómega 3 diminua a depressão pós-parto”, nem “houve grande ligação” entre os dois fatores.
Existe, de facto, “alguma associação entre quadros depressivos e maior inflamação a nível do cérebro, e os ómegas têm alguma capacidade anti-inflamatória, de regulação do humor, porque promovem uma melhor neurotransmissão”, adianta a psiquiatra.
Ainda assim, “não se pode falar em causalidade”, porque “a depressão pós-parto é multifatorial”. Dizer que umas das causas da depressão pós-parto é o défice de ómega 3 pode levar as pessoas a crer “que suplementando só com ómega 3 a coisa se resolve, e não é bem assim”, sublinha.
Noutro plano, é importante realçar que os níveis adequados de ómega 3 são importantes para todas as fases da vida.
As grávidas “apresentam necessidades aumentadas de ácidos gordos essenciais, nomeadamente ómega 6 e ómega 3”, refere-se num documento da Direção-Geral da Saúde (DGS) sobre alimentação e nutrição na gravidez.
Existem três tipos de ómega 3, sendo o EPA e o DHA “os mais conhecidos” e os que “são funcionalmente ativos”, salienta Filipa Caetano.
De acordo com as recomendações da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA, na sigla inglesa), durante a gravidez e a lactação, para uma ingestão adequada, devem ser adicionados 100 a 200 mg de DHA à recomendação geral.
Isto significa que “as grávidas têm de ingerir pelo menos 300 mg de DHA para suprir as necessidades do feto”, esclarece a psiquiatra.
Em alguns casos, sublinha-se no documento da DGS, “o uso de suplementos de ómega 3 pode ser considerado, de acordo com as recomendações do profissional de saúde que a acompanha”.
Quais são os principais fatores de risco para a depressão pós-parto?
Não se conhece uma causa exata para a depressão pós-parto, mas sabe-se que resulta de uma combinação de fatores, como “alterações repentinas nos níveis hormonais após a gravidez” “alterações físicas” (como “queda nos níveis da hormona tiroideia”) e “fatores relacionados ao estilo de vida” (como “fadiga, falta de sono, apoio limitado ou eventos stressantes recentes”), explica-se num texto do MedlinePlus (um site de informação sobre saúde que pertence aos Institutos Nacionais da Saúde dos Estados Unidos).
Existem ainda alguns fatores que aumentam o risco de uma grávida ter depressão pós-parto. Filipa Caetano destaca o histórico de depressão, ou seja, “se a mulher já tiver tido depressões no passado, isso é um grande fator de risco para a depressão pós-parto”.
O histórico familiar também é importante neste contexto. Por exemplo, “se a mãe também teve depressão pós-parto, há aqui algum risco a considerar”, aponta.
Além disso, se a grávida “tiver pouco apoio em termos familiares” ou “se estiver em risco económico” também corre um maior risco de desenvolver a doença.
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