Treinar consoante a fase do ciclo menstrual? A ciência não valida o “cycle syncing”
O termo “cycle syncing” é um conceito que se tem propagado em vídeos nas redes sociais, nos últimos tempos. Esta tendência implica adaptar o exercício físico, a alimentação e a rotina às quatro fases do ciclo menstrual para, supostamente, “trabalhar a favor das hormonas” e sentir menores manifestações das dores menstruais. Para compreender se esta moda tem fundamento clínico para a atividade física das mulheres, o Viral ouviu João Bernardes, professor catedrático especialista em ginecologia e obstetrícia, e Mafalda Antunes, fisiologista do exercício.
O que promete o “cycle syncing”
A ideia de “cycle syncing” parte da premissa de que, se as hormonas oscilam ao longo do ciclo menstrual, o treino, a dieta e até a vida social deveriam acompanhar essas alterações. Nas redes sociais, isso traduz-se em calendários com uma “fase para treino intenso”, “fase para descansar” ou “fase para socializar”.
Mafalda Antunes, fisiologista do exercício dedicada à área da saúde da mulher no Hospital da Luz, começa por esclarecer que “o ‘cycle syncing’ não é uma metodologia clínica nem um método de prescrição de exercício validado”. É, sublinha, “um conceito popular que propõe ajustar o tipo, a intensidade e o volume do exercício físico às diferentes fases do ciclo menstrual, com base no princípio de que as oscilações hormonais produzem alterações previsíveis no desempenho, na recuperação e nos sintomas da mulher”.
Há, de facto, uma base hormonal
A especialista explica que ao longo do ciclo – regulado pela interação entre hipotálamo, hipófise e ovários – os níveis de estradiol e progesterona sobem e descem, com impacto documentado “na termorregulação, na ventilação, na função vascular, na utilização de substratos energéticos, no sistema nervoso, no músculo e no tecido conjuntivo”.
Contudo, explica que “a plausibilidade biológica não implica, necessariamente, relevância para o desempenho no exercício físico da mulher”. Um efeito hormonal mensurável ao nível celular não é “suficientemente grande para justificar alterações na prática de exercício físico e na prescrição de treino”, denota. E a própria divisão em quatro fases “bem delimitadas” é, nas palavras da fisiologista do exercício, “uma simplificação”, uma vez que, cientificamente, se olha sobretudo para as fases folicular e lútea, separadas pela ovulação. E adiciona: “A ovulação é uma transição relativamente breve, não um bloco prolongado de treino”.
O que dizem os estudos
Malfada Antunes refere que “não existem, no sentido forte da palavra comprovar”, provas de que alterar treinos conforme a fase do ciclo possa melhorar resultados ou aliviar sintomas menstruais. A especialista cita uma meta-análise de 2020, com 78 estudos, que encontrou apenas “uma redução trivial do desempenho na fase folicular inicial”, com qualidade de evidência considerada baixa.
Refere também um estudo mais recente, publicado este ano na Sports Medicine, que acompanhou 28 mulheres com ciclos naturais ao longo de oito semanas e mediu a velocidade de execução em exercícios de força. Os sintomas foram mais frequentes na fase folicular inicial, com 75% das participantes a referirem fadiga, 60,7% cólicas uterinas ou pélvicas, 50% dor lombar e 50% dificuldade de concentração.
Apesar disso, diz Mafalda Antunes, “a maioria dos domínios de sintomas não apresentou relação significativa com o desempenho no exercício”. Por outro lado, a fisiologista frisa que “este não foi um ensaio de ‘cycle syncing’”, já que todas as participantes seguiram o mesmo programa de treino.
Por outro lado, existe “evidência de que o exercício regular pode reduzir alguns sintomas”, diz Mafalda Antunes. “Programas aeróbios, treino de força, ioga, exercício combinado ou técnicas de relaxamento podem reduzir a dor na dismenorreia primária e alguns sintomas pré-menstruais”. Mas “não há evidência de que sincronizar o treino com fases predefinidas melhore o desempenho, a hipertrofia ou os sintomas em comparação com um programa bem estruturado e autorregulado”, elucida.
O que deve fazer quem treina?
Na prática, a recomendação da fisiologista é quase o oposto do que circula online: não é necessário seguir um programa dividido em “treino intenso”, “treino moderado”, “recuperação” ou “repouso” consoante o calendário menstrual. Segundo Mafalda Antunes, “se a mulher está assintomática, recuperada e a responder normalmente, não há razão para alterar a sessão planeada por estar menstruada ou em qualquer outra fase do seu ciclo”.
Quando há sintomas (dor, fadiga, fluxo abundante, insónia) faz sentido ajustar a sessão nesse dia, com menos séries, menos carga, mais descanso, ou trocar para uma modalidade “mais tolerável”, descreve a especialista. Mas isso, avisa, “são estratégias gerais de autorregulação perante sintomas ou recuperação insuficiente, aplicáveis a qualquer momento” e não “exercícios da fase menstrual” ou “da fase lútea”.
Realça ainda: “A monitorização do ciclo pode ser útil para reconhecer padrões, identificar irregularidades e facilitar a comunicação com profissionais de saúde ou de exercício. Deve servir para individualizar e proteger a saúde, não para prever o desempenho”.
Narrativas a desmentir
Segundo Mafalda Antunes, ainda se observa o mito de que “todos os ciclos duram 28 dias, que a ovulação ocorre sempre no 14.º dia e que as fases podem ser determinadas com precisão a partir do calendário”. Num estudo com mais de 600 mil ciclos, só 13% tinham exatamente essa duração, menciona a especialista.
Além disso, “não é correto afirmar que todas as mulheres estão mais fracas durante a menstruação e atingem o máximo de força ou potência durante a ovulação”. Estes padrões “podem ser percepcionados por algumas mulheres, mas os efeitos médios observados nos estudos são pequenos e inconsistentes”.
Também não há evidência de que “o ‘cycle syncing’ equilibre as hormonas”, promova perda de peso específica, aumente a fertilidade ou trate patologias como a endometriose. “O exercício tem benefícios importantes, mas não funciona como teste diagnóstico nem como tratamento específico para as alterações endócrinas ou ginecológicas”, resume.
A menstruação, por si só, não deve travar o exercício
No que toca à possibilidade de a menstruação ser motivo para desaconselhar o exercício físico, como se defende em alguns vídeos virais, Mafalda Antunes declara: “Não conheço nenhum caso clínico individual com essa indicação específica. Quanto à literatura científica relevante e atual, fica explícito que não existe nada nesse sentido”.
É também esta a conclusão a que chega João Bernardes, professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e especialista em ginecologia e obstetrícia. Partindo da sua experiência de prática clínica e investigação – que inclui estudos sobre a relação entre ciclo hormonal, lesões em atletas de alta competição e até a voz em cantores líricos -, confirma que “há flutuações cíclicas, hormonais, normais durante o ciclo”, nomeadamente no caso de quem não toma a pílula. Mas, mesmo assim, são flutuações mínimas, relacionadas com o sono, o apetite, a resistência ao exercício ou a sociabilidade.
Contudo, isso difere de impor regras, denota. “Se está tudo bem, se a mulher está bem, se faz [exercício] durante o período menstrual, isso é um período menstrual normal”, explica. “Eu não vejo porque interromper, podendo isso até ter algum malefício”.
O médico refere que se deve distinguir a variação natural do ciclo do que é sinal de doença. Perante endometriose, hemorragias intensas ou tensão pré-menstrual incapacitante, “a nossa recomendação é, calma, não é para fazer nesta altura”. Fora disso, forçar mudanças de comportamento com base apenas no calendário “não me parece que faça muito sentido”, acrescenta o docente.
João Bernardes aponta, a título de opinião clínica, a fase ovulatória como período de maior capacidade física. Já a fase menstrual associa a um estado “mais introspetivo”, mas sem que isso implique qualquer contraindicação ao exercício.
O risco de adiar uma consulta
Ainda não é comprovado que o “cycle syncing” possa, em alguns casos, atrasar um diagnóstico formal. No entanto, “esse risco é clinicamente plausível se a pessoa for incentivada a interpretar dor intensa, hemorragia abundante ou incapacidade funcional como manifestações hormonais normais que devem ser geridas por meio de alterações no treino”, admite Mafalda Antunes.
A fisiologista fala em alguns dos sintomas que merecem avaliação clínica: dor que interfere no trabalho, na escola, no sono, no treino; dor progressiva; dor nas relações sexuais; dor ao urinar ou defecar; hemorragia muito abundante; sintomas de anemia, infertilidade, fadiga marcada ou alterações importantes da regularidade menstrual. “Limitar-se a ajustar o treino durante meses, perante sintomas incapacitantes, pode atrasar uma avaliação necessária”, reconhece. “O ‘cycle syncing’ não é um diagnóstico, nem muito menos uma alternativa aos cuidados de saúde”.