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Trabalho noturno por turnos pode ser um fator de risco para cancro? O que dizem os especialistas

12 Dez 2025 - 08:45

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Trabalho noturno por turnos pode ser um fator de risco para cancro? O que dizem os especialistas

O sono tem impacto na saúde, dormir bem é essencial para o bem-estar físico, emocional e mental. 

E o organismo está formatado para manter um horário de sono regular: dormir de noite e estar ativo durante o dia. Isto significa que ter má higiene do sono pode trazer várias consequências para a saúde.

Seguindo essa lógica, fica claro que o trabalho noturno por turnos pode ser nocivo para a saúde. Mas até que ponto? Será possível que o trabalho noturno possa mesmo ser um fator de risco para cancro?

O trabalho noturno por turnos pode ser um fator de risco para cancro?

A Agência Internacional para a Investigação em Cancro (IARC) da Organização Mundial da Saúde classificou o trabalho noturno em turnos como “provavelmente carcinogénico para humanos”.

“A explicação passa sobretudo pela desorganização crónica dos relógios biológicos”, explica Miguel Meira Cruz, diretor da Unidade de Sono do Centro Cardiovascular da Universidade de Lisboa, ao Viral. 

O facto de estarem expostos a luz durante a noite e “a inversão dos horários de sono-vigília” faz com que estes trabalhadores tenham uma redução de melatonina, “uma hormona com propriedades oncoprotetoras”. 

Além disso, a inversão dos horários “altera outras hormonas, perturba genes de controlo do ciclo celular e da reparação do ADN, afeta o sistema imunitário e aumenta inflamação e alterações metabólicas – um terreno mais favorável ao desenvolvimento e progressão tumoral”.

O ritmo circadiano tem implicações “de forma muito direta” no desenvolvimento de cancro, diz o especialista do sono. 

“Quase todas as células do organismo têm um “relógio interno” molecular que organiza quando a célula deve reparar o ADN, quando pode proliferar, como utiliza energia e como responde a sinais inflamatórios ou do sistema imune”, começa por dizer.

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E quando esse relógio está “cronicamente desalinhado em relação ao ciclo dia-noite (por exemplo, por exposição à luz à noite, horários irregulares, jet lag social)”, o que os estudos em modelos animais mostram é que há “mais mutações, maior crescimento tumoral e, em alguns casos, menor eficácia e maior toxicidade de certos tratamentos”, sublinha Miguel Meira Cruz.

É por aí que se explica o “interesse crescente em ‘cronoterapia’ oncológica: ajustar horários de fármacos ao relógio biológico para aumentar eficácia e reduzir efeitos adversos”.

O especialista diz que não é preciso “criar alarmismo”, apenas reconhecer que turnos mal organizados, com exposição intensa à luz à noite e ausência de proteção adequada do sono e dos ritmos, podem acrescentar mais um tijolo ao ‘muro de risco’ oncológico”.

E dormir pouco? Também pode ser fator de risco para cancro?

O trabalho noturno por turnos é o mais estudado, até porque combina vários fatores de risco: “trabalho em horas biológicas de descanso, luz intensa à noite, sono diurno mais curto e fragmentado e, muitas vezes, horários rotativos”.

“Mas o problema central é a perturbação crónica do sistema circadiano e do sono”, diz o especialista. E isso pode acontecer com “horários muito irregulares”, quando se passa frequentemente noites sem dormir, quando há muita exposição a ecrãs à noite ou grandes diferenças de horário entre dias de trabalho e fins de semana”.

“No que toca a dormir pouco, a evidência é menos consistente do que para o trabalho noturno”, refere Miguel Meira Cruz. 

Não existe uma “associação forte e uniforme entre duração curta do sono e risco global de cancro, embora alguns estudos sugiram maior risco para certos tipos de tumores ou em subgrupos específicos”. 

“Alguns dados apontam que trajetórias de sono cronicamente curto ao longo de anos podem associar-se a maior incidência de cancro e pior prognóstico, mas os efeitos parecem modestos e ainda estão longe de serem tão claros como, por exemplo, o impacto do tabaco ou da obesidade”.

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E “melhorar o desenho dos turnos, proteger o sono, minimizar luz intensa à noite e controlar outros fatores de risco (tabaco, álcool, sedentarismo, obesidade) são estratégias realistas para reduzir” o possível impacto destes fatores de risco no desenvolvimento de cancro.

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Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.

A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.

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12 Dez 2025 - 08:45

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