Tomar creatina reduz ciclos menstruais irregulares e melhora a fertilidade nas mulheres?
Num post partilhado no Instagram sugere-se que “a ingestão de creatina reduz ciclos menstruais irregulares e melhora a fertilidade nas mulheres”. Na descrição do post, citam-se alguns estudos que, supostamente, corroboram estas alegações. Mas será que há evidência científica robusta que comprove estes benefícios?
É verdade que a creatina reduz os ciclos menstruais irregulares e melhora a fertilidade nas mulheres?
Até à data, “não há evidência científica de que a creatina melhora os ciclos menstruais ou a fertilidade”, adianta Teresa Almeida Santos, professora na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) e diretora do departamento de Ginecologia, Obstetrícia, Reprodução e Neonatologia da Unidade de Saúde Local (ULS) de Coimbra.
Tal como tinha explicava a nutricionista Catarina Custódio, em declarações anteriores ao Viral, a creatina é um composto formado a partir de aminoácidos, que é “fundamental como fonte para produção de energia”.
A creatina, além de ser “produzida pelo nosso organismo”, pode ser obtida “através da alimentação”, sobretudo na carne e no peixe.
Atualmente, refere Teresa Almeida Santos, “há muitas pessoas a fazer suplementação de creatina”, sobretudo no âmbito da prática de exercício físico. Contudo, “não há provas que sustentem” os supostos benefícios mencionados no post publicado no Instagram. A evidência que existe “é anedótica”, defende a médica.
O que está em questão é o hipotético impacto da creatina na função mitocondrial. A professora da FMUC explica que “a função mitocondrial que, no fundo, é a função de produção de energia das células, particularmente dos ovócitos, é crítica para o sucesso em termos reprodutivos”.
Se for possível “melhorar a produção de energia pelas mitocôndrias que estão envelhecidas, podemos de alguma forma melhorar a fertilidade”.
É nesse sentido que hoje se procura substâncias, nomeadamente antioxidantes, “que possam melhorar a função mitocondrial dos ovócitos, como o resveratrol”.
A creatina “seria apenas mais uma molécula que, eventualmente, pode ter algum efeito, mas nada está provado”, sublinha a médica.
Até porque “é muito difícil isolar o efeito da creatina de outros fatores”, aponta. Atualmente, “as pessoas fazem suplementos de várias coisas e não conseguimos isolar o efeito de nada, mesmo em termos experimentais”.
Em relação aos ciclos menstruais, a alegação de que a creatina regula os ciclos “não faz sentido”. O que se sabe é que “os ciclos são regulares se houver uma boa função ovulatória”. Neste caso, ainda se extrapola mais a informação atual.
Além de não haver evidência que prove que a ingestão de creatina tem estes benefícios, recorrer a este suplemento com o objetivo de melhorar a fertilidade “faz perder tempo e o tempo é crítico” nesta questão.
Quais os benefícios da creatina?
Um dos principais benefícios da suplementação de creatina prende-se com o desempenho desportivo. Segundo um texto da Harvard Medical School, a creatina “contribui para uma rápida produção de energia e pode aumentar a potência ou os picos de velocidade que exigem curtos períodos de atividade aeróbica”.
Além disso, a creatina parece melhorar ligeiramente a força muscular, tanto em adultos jovens como em idosos (ver aqui).
Nesse sentido, este suplemento também parece ser benéfico ao retardar a perda muscular relacionada com a idade. Neste contexto, a toma de creatina parece funcionar melhor quando utilizada em conjunto com exercício físico para o desenvolvimento muscular (ver também aqui).
Noutro plano, recorre-se à creatina em casos de défice deste composto, que ocorrem em pessoas com condições específicas. A ingestão diária de creatina por via oral pode aumentar os níveis de creatina no cérebro, quando o problema prende-se apenas com o défice e não com o transporte da creatina para o cérebro (saiba mais sobre o assunto neste artigo do Viral).
Apesar de haver menos evidência nesse âmbito, a toma de creatina parece também “reduzir a fadiga mental em alguns cenários, sobretudo em situações de grande stress, nomeadamente de privação de sono ou na prática de exercício físico até à exaustão”, adiantava o nutricionista Ricardo Cotovio, em declarações anteriores.
De modo geral, os suplementos de creatina são seguros, desde que sejam tomados nas doses adequadas.
Não se aconselha grávidas e lactantes a tomarem creatina, porque não há informação suficiente sobre se é seguro fazê-lo nestas fases.
Apesar de a creatina não causar danos nos rins – tal como já esclarecemos num artigo anterior – não é recomendado suplementar creatina quando existe uma doença renal de base.
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