Todos os doentes com cancro não devem comer glúten?
Em vários vídeos do TikTok partilha-se a ideia de que “o glúten é inflamatório”, por isso, não deve ser consumido por pessoas com cancro. Mas será mesmo assim?
É verdade que os doentes com cancro não devem comer glúten?
Não há uma recomendação de proibição de glúten na dieta dos doentes oncológicos. Até porque “o glúten só é inflamatório para quem é celíaco”, sublinha Paula Ravasco, médica, nutricionista e diretora do Programa de Pós-graduação Internacional “Nutrição e Metabolismo em Oncologia” da Universidade Católica Portuguesa (UCP).
Tal como explica a nutricionista, “o glúten é uma proteína naturalmente presente em alguns cereais” e “só assume um caráter pró-inflamatório e deletério para quem o consome quando existe uma intolerância de base” (ver também aqui, aqui e aqui).
Para todas as outras pessoas, o glúten “não é mais do que uma proteína vegetal”, sem “associação com qualquer tipo de promoção de um estado pró-inflamatório no intestino, na mucosa intestinal, pela produção de anticorpos ou de mediadores do sistema imune”, esclarece.
Por vezes, “os doentes a fazer tratamentos para o cancro, por exemplo, quimioterapia ou radioterapia, podem ter maior incidência de alguns sintomas”, como diarreia e vómitos.
Isso faz com que, “transitoriamente, o intestino não fique tão funcional”, sublinha Paula Ravasco. Nessa fase, “pode haver a necessidade de se remover determinados alimentos” e de promover o consumo de outros (ver também aqui).
Por exemplo, “se o doente não tolerar tão bem cereais que tenham a presença de algumas outras substâncias, entre elas o glúten”, pode ser necessário retirar esses alimentos.
Por outro lado, “nunca se vai sugerir consumir azeite a um doente que está a vomitar por causa da quimioterapia”, exemplifica.
“O azeite é um ótimo alimento, a melhor gordura que temos, mas para uma pessoa com vómitos e intolerância gástrica está recomendado remover os lípidos da alimentação” nessa fase.
Em caso de diarreia por causa da quimioterapia ou da radioterapia, “prescrevemos dietas não laxantes”, ou seja, “dietas pobres em fibras, em cereais e em algumas substâncias que podem sofrer maior fermentação no intestino”.
No fundo, não há propriamente uma recomendação específica e geral no que diz respeito à alimentação durante o tratamento do cancro. O acompanhamento nutricional e a alimentação em si, bem como os alimentos a priorizar e a evitar, devem ser individualizados.
Aliás, defende a nutricionista, é fundamental os doentes com cancro receberem aconselhamento nutricional antes de fazerem qualquer tipo de terapêutica antineoplásica (ver aqui, aqui e aqui).
Entre outras coisas, é importante verificar “o que a pessoa costumava comer e o que gosta de comer” e adaptar a alimentação “em função do que antecipamos que pode acontecer com os tratamentos e como podemos mitigar as consequências”, explica Paula Ravasco.
Na alimentação durante o cancro, “o raciocínio é sempre o mesmo, quer seja relativamente ao glúten, às fibras, aos açúcares, às frutas, às vitaminas e aos minerais”. Segundo a médica, “deve ser sempre tudo feito e avaliado no contexto da individualização” associado a adaptações “para que os tratamentos funcionem da melhor forma”.
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