Todas as pessoas com tiroidite de Hashimoto devem eliminar o glúten da dieta?
Em vários vídeos partilhados no TikTok aconselham-se as pessoas com tiroidite de Hashimoto a retirarem o glúten da dieta. Segundo o autor de um dos vídeos, o sistema imunitário reage “contra o glúten”, porque “pensa” que “a proteína do glúten é igual à proteína da tiroide”. Isto, supostamente, iria piorar a condição, mesmo que se esteja a fazer o tratamento. É verdade? Todas as pessoas com tiroidite de Hashimoto devem eliminar o glúten da alimentação?
Quem tem tiroidite de Hashimoto deve deixar de comer glúten?
Não há evidência científica de que retirar o glúten da dieta tenha benefícios significativos e comprovados para a saúde de pessoas com tiroidite de Hashimoto que não tenham também intolerância ao glúten ou doença celíaca (ver aqui, aqui e aqui).
A doença de Hashimoto é uma condição autoimune “que afeta o funcionamento da tiroide”, uma glândula que “produz hormonas que ajudam a regular uma grande variedade de funções vitais do organismo”, explica-se num texto do MedlinePlus (um site de informação sobre saúde que pertence aos Institutos Nacionais da Saúde dos Estados Unidos).
Por exemplo, “as hormonas da tiroide influenciam o crescimento e o desenvolvimento, a temperatura corporal, a frequência cardíaca, os ciclos menstruais e o peso”. A doença de Hashimoto “é uma forma de inflamação crónica que pode danificar a tiroide, reduzindo a sua capacidade de produzir hormonas”, esclarece-se.
A doença celíaca também é uma condição autoimune. O organismo das pessoas com a doença reage de forma anormal ao glúten, uma proteína presente em cereais como o trigo, o centeio e a cevada.
Assim, quando uma pessoa celíaca ingere alimentos com glúten, o seu sistema imunitário desencadeia uma resposta inflamatória que danifica o intestino delgado (ver aqui).
Não há benefícios em deixar de comer glúten quando não se tem doença celíaca ou intolerância ao glúten (ver aqui e aqui). No entanto, importa sublinhar que “a doença celíaca é uma condição que ocorre com mais frequência em pessoas com doença de Hashimoto do que em pessoas sem essa doença”, lê-se num texto da UCLA Health.
Segundo a informação disponibilizada no site da organização britânica Coeliac UK, “entre 1,5% e 3,8% das pessoas com doenças autoimunes da tiroide também sofrem de doença celíaca, em comparação com 1% da população em geral”.
Numa revisão de 2022, publicada na revista científica Nutrients, também se sublinha, nas conclusões, que “não há atualmente evidências de que uma dieta sem glúten seja benéfica na doença de Hashimoto”.
Segundo os investigadores, “o glúten só deve ser eliminado por doentes que sofrem de doença celíaca ou sensibilidade ao glúten, condições que podem coexistir com a doença de Hashimoto”.
Uma dieta sem glúten “não afeta a concentração das hormonas da tiroide e, devido ao processo inflamatório em curso no organismo, deve ser adotada uma dieta anti-inflamatória (principalmente à base de vegetais)”.
Como é mais comum os doentes com Hashimoto terem doença celíaca, é importante haver um rastreio nesse sentido. “Após a exclusão de outras doenças autoimunes, devem realizar acompanhamentos regulares, uma vez que os doentes podem ainda desenvolver outras doenças autoimunes ao longo do tempo”, conclui-se no mesmo estudo.
Qual o impacto da alimentação na tiroidite de Hashimoto?
Tal como acontece com outras doenças, a alimentação também ajuda, como complemento, na gestão da tiroidite de Hashimoto, sobretudo se for adotada uma dieta equilibrada e saudável como a mediterrânica (ver aqui e aqui).
Contudo, é importante ter atenção a um mineral específico: o iodo. Segundo um texto do National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases (NIDDK), “a tiroide utiliza o iodo, um mineral presente em alguns alimentos, para produzir hormonas tiroideias”.
Mas uma pessoa que tenha a doença de Hashimoto ou outros tipos de doenças autoimunes da tiroide, pode “ser sensível aos efeitos secundários nocivos do iodo”.
O consumo de alimentos com grandes quantidades de iodo – tais como algas marinhas ou outros tipos de algas, e certos medicamentos ou suplementos ricos em iodo – “pode causar hipotiroidismo ou agravá-lo”.
A situação fica ainda mais complicada caso se trate de uma grávida. Na gravidez, é necessário “ingerir iodo suficiente”, mas o excesso deste mineral “também pode causar problemas”.
Assim, em contexto de tiroidite de Hashimoto é importante falar com um médico, para garantir que a alimentação tem o aporte adequado de iodo, em qualquer fase da vida.