VITAL
Ter pedras nos rins é um fator de risco comprovado para cancro renal?
Há estudos a reportar que algumas pessoas que têm ou já tiveram pedras nos rins desenvolveram cancro renal. Isto significa que ter pedras nos rins é um fator de risco para cancro renal? A evidência científica disponível corrobora esta ideia?
É verdade que ter pedras nos rins aumenta o risco de desenvolver cancro renal?
Em declarações ao Viral, Tiago Rodrigues, diretor da unidade de urologia do Hospital Cruz Vermelha, adianta que não é verdade que as pessoas com pedras nos rins tenham um risco acrescido de desenvolver cancro renal.
“Não há nenhum estudo com uma metodologia minimamente forte que possa estabelecer uma causa-efeito entre uma coisa e outra”, refere o especialista.
Existem, de facto, “alguns estudos observacionais que fazem essa associação”, mas são trabalhos “metodologicamente muito fracos”, em que não se pode tirar a conclusão de que a litíase (pedras nos rins) é um fator de risco para o cancro renal.
Além disso, “do ponto de vista científico, não se pode estabelecer uma relação causa-efeito entre uma coisa e outra em estudos observacionais”, sublinha o médico.
Nestes estudos em específico, “há uma série de vieses, ou seja, fatores que confundem os resultados”.
Em primeiro lugar, há “um viés de seleção”, aponta. “Doentes com litíase fazem muitos mais exames”, por isso, “há um aumento da taxa de deteção comparativamente à população no geral, que não faz tantos exames”, explica.
Assim, “numa observação um pouco rigorosa” era importante dizer que havia mais doentes com cancro renal que tinham pedras nos rins, porque “muitos dos cancros foram detetados ao fazer-se exames por causa das pedras”.
Até porque “o tumor do rim é essencialmente assintomático até estadios mais tardios”, salienta o urologista. “Mais de 80% dos tumores nos rins que vemos hoje em dia, no mundo ocidental e em Portugal, são achados incidentais”.
Por outro lado, “acredita-se que alguns fatores de risco para litíase renal, nomeadamente para litíase úrica, também possam ser fatores de risco para cancro do rim”, explica.
Isto significa que “o que causa uma coisa pode causar a outra”, ou seja, “um doente pode ter um risco aumentado de vir a ter pedra do rim e cancro do rim, não por um causar o outro, mas sim porque a mesma coisa causa os dois”, esclarece o especialista.
Quais os fatores de risco estabelecidos para o cancro renal?
Os principais fatores de risco para o cancro renal são “a história familiar” e “a genética”, avança Tiago Rodrigues.
Num texto da American Cancer Society explica-se que pessoas com forte histórico familiar de cancro renal têm maior probabilidade de desenvolver a doença. “Esse risco é maior para pessoas que têm um irmão ou irmã com cancro renal”, lê-se.
Além disso, “algumas pessoas herdam alterações genéticas dos pais que podem aumentar o risco” de cancro renal.
Por outro lado, aponta Tiago Rodrigues, “a exposição a certos químicos” também é um fator de risco. A evidência sugere que a exposição a certas substâncias, no local de trabalho, por exemplo, como o tricloroetileno ou o cádmio, aumenta o risco de cancro renal (ver aqui, aqui e aqui).
Depois, existem fatores de risco comuns a várias doenças (como as pedras nos rins), ou seja, não são exclusivos do cancro renal.
Tiago Rodrigues refere “os fatores de risco metabólico”, como a obesidade, o colesterol alto e o ácido úrico alto, que, por si só, “estão mais associados aos homens do que às mulheres” (ver também aqui, aqui e aqui). O médico refere ainda o tabagismo e a poluição.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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