VITAL
Há alguma relação entre tatuagens e linfoma? O que se sabe até agora
Num vídeo partilhado nas redes sociais, diz-se que “fazer tatuagens provoca linfoma”. A frase, alegadamente, baseia-se num estudo publicado em 2024. Mas será verdade? Fazer tatuagens provoca mesmo linfoma?
Tatuagens provocam linfoma?
Não, posta dessa forma, a afirmação não é verdadeira, diz Rui Henrique, diretor do Serviço de Anatomia Patológica do IPO Porto.
O estudo mencionado no vídeo existe e é “metodologicamente muito robusto”, diz o docente do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), mas não prova causalidade. O que se pode dizer é que “a realização de uma tatuagem incrementa a probabilidade de desenvolvimento de um linfoma”.
A amostra “é bastante significativa”, são “quase três mil casos e quase nove mil controlos, é um estudo de caso-controlo robusto”. E a base de dados utilizada é o registo oncológico sueco, “um registo de alta qualidade, muito conhecido internacionalmente”.
O que os autores concluem é que “há uma associação entre a realização de tatuagens cutâneas e o risco de linfoma e fazem especulação sobre as causas”. “Mas não há um nexo de causalidade, não há um estudo a dizer que este ou aquele componente estão na base da associação”, explica Rui Henrique.
E o risco é “relativamente pequeno”, “pouco percetível do ponto de vista clínico”, daí que seja necessário um estudo com uma amostra grande para o detetar.
A hipótese “faz sentido”, considera o docente do ICBAS — é também o que os autores dizem no estudo. Há um conjunto de produtos químicos “que fazem parte das tintas utilizadas nas tatuagens e estão classificados como carcinogénicos ou potencialmente carcinogénicos”.
Algumas dessas tintas foram proibidas na União Europeia em 2022, mas o estudo não tem em conta a diferença entre tintas. “Para conseguirmos uma indicação mais precisa dos riscos e dos elementos envolvidos seria preciso uma amostragem ainda maior”, explica.
Esse fator, por si só, não explica tudo, diz Rui Henrique. “Fica por explicar, por exemplo, e os autores reconhecem isso, por que motivo é que o risco é maior nos dois primeiros anos após a tatuagem, depois há uma atenuação e depois volta a aumentar”.
Essa diferença pode ter que ver com o produto químico utilizado, no caso do risco mais imediato.
“As de mais longo prazo podem estar relacionadas com um processo de inflamação crónica, que está associado a alguns tipos de linfoma”.
“E outra observação interessante do artigo é que o risco é maior para as pessoas que fizeram tatuagens e depois fizeram laser para remover”. Aquilo que parece explicar esse fenómeno é o facto de “o laser, ao fazer uma alteração química dos produtos, liberta outros químicos que poderão ser carcinogénicos”. Importa sublinhar que esta é uma hipótese mas “não há um estudo de base biológica”.
Para poder extrapolar as conclusões deste estudo serão necessários outros que provem causalidade e investiguem questões adjacentes, como os químicos específicos, a idade, as causas e mecanismos particulares que possam justificar uma relação entre tatuagens e linfoma, entre outros.
“Não é um sinal de pânico, mas pode servir como alerta”, conclui Rui Henrique.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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