VITAL
Sumo de limão e bicarbonato de sódio pode curar ou prevenir cancro?
A alegação de que o sumo de limão combinado com bicarbonato de sódio tem propriedades anticancerígenas é amplamente divulgada em redes sociais. Os defensores desta ideia argumentam que o cancro “prospera em ambientes ácidos” e que alcalinizar o corpo através de alimentos ou substâncias como bicarbonato pode interromper ou impedir o crescimento de tumores. A base é a mesma da teoria que garante que se uma pessoa só ingerir alimentos alcalinos, não irá desenvolver cancro.
Como explicado noutro artigo do Viral, essa alegação não é sustentada por evidência científica credível. O corpo humano regula o pH do sangue de forma extremamente rigorosa, mantendo-o entre 7,35 e 7,45, independentemente da dieta. Comer alimentos “alcalinos” ou consumir bicarbonato de sódio não tem impacto significativo sobre o pH sanguíneo. O que pode mudar ligeiramente é o pH da urina, sem qualquer implicação para o ambiente interno onde os tumores se desenvolvem.
Misturar sumo de limão e bicarbonato de sódio pode prevenir ou curar o cancro?
A teoria que diz que o bicarbonato de sódio cura o cancro baseia-se numa alegação Tulio Simoncini, um ex-médico italiano que escreveu um texto, em 2007, em que afirma que o cancro é causado por uma infeção de um fungo comum. Simoncini foi condenado a uma pena de prisão de cinco anos e meio pela morte de um jovem de 27 anos com cancro no cérebro.
O então médico tinha prometido curar o paciente recorrendo apenas a injeções intravenosas de bicarbonato de sódio, mas, quatro meses depois do início das sessões, o jovem entrou em paragem cardiorrespiratória e morreu. Segundo os médicos legistas e o tribunal foram as grandes doses do composto a causa de morte do homem de 27 anos. Simoncini saiu com pena suspensa após dois anos.
Mas o cancro não é um fungo e essa ideia foi amplamente desacreditada pela comunidade científica. O cancro é o resultado de mutações genéticas que levam ao crescimento descontrolado de células. Estas mutações podem ser provocadas por vários fatores de risco. E embora a imunossupressão possa tornar os pacientes mais suscetíveis a infecções fúngicas, o cancro em si não é um fungo.
O limão é um dos alimentos que consta das inúmeras listas com curas “milagrosas” para o cancro que vão percorrendo as redes sociais. Contém vitamina C e antioxidantes, mas, de acordo com a Cancer Research UK, não há qualquer evidência clínica que mostre que o consumo de limão, isoladamente ou em combinação com outros ingredientes naturais, seja eficaz na prevenção ou no tratamento do cancro. O mesmo se aplica ao bicarbonato de sódio: apesar de possuir propriedades alcalinas, a sua ingestão não altera o pH do microambiente tumoral nem tem efeitos terapêuticos diretos validados.
Um estudo publicado na revista Cancer Research analisou os efeitos da alcalinização do microambiente tumoral em ratos. A investigação demonstrou que a administração controlada de bicarbonato poderia alterar o pH dos tumores, tornando-os mais sensíveis a certos tratamentos. Contudo, os próprios autores alertam que os resultados foram obtidos em modelos animais, sob condições específicas e controladas, e não se aplicam automaticamente a humanos. “Mudar o pH de um corpo humano não é assim tão simples”, lê-se numa publicação da Cancer Research UK.
A própria crença de que o cancro se deve a uma “acidez geral do organismo” deriva de uma interpretação errada da fisiologia. De facto, muitas células tumorais existem num ambiente ácido, mas essa acidez é consequência da atividade metabólica acelerada dos tumores, e não uma causa primária da doença.
O que acontece quando se mistura sumo de limão e bicarbonato de sódio?
Do ponto de vista químico, quando o sumo de limão é misturado com bicarbonato de sódio, ocorre uma reação ácido–base. O resultado é a formação de citrato de sódio, dióxido de carbono — o gás que causa a efervescência — e água. Esta reação neutraliza parte da acidez e não tem qualquer efeito terapêutico reconhecido. O produto final é uma solução levemente salina e efervescente, que pode aliviar momentaneamente sintomas como indigestão leve, mas não tem impacto sobre células tumorais.
Em vários vídeos diz-se que esta mistura “faz detox” por poder provocar diarreia, mas essa interpretação está errada. A diarreia não é um processo de desintoxicação, é uma reação do intestino a irritações ou distúrbios e episódios repetidos podem causar desidratação e desequilíbrios perigosos, não representam qualquer forma de “limpeza” do corpo. Não há evidência de que dietas “detox” removam toxinas do organismo. A “desintoxicação” do corpo é feita continuamente pelo fígado, rins, pulmões e intestinos, sem necessidade de receitas milagrosas.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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