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Usar soutiens apertados pode provocar cancro da mama?

28 Jun 2025 - 08:45
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Usar soutiens apertados pode provocar cancro da mama?

A crença de que usar soutien pode causar cancro da mama surgiu no século passado, quando dois antropologistas conduziram um estudo que concluía que o uso constante de soutien bloqueava os vasos linfáticos, o que provocava cancro na mama. Os autores, Sydney Singer e Soma Grismaijer, sugeriam que o cancro da mama era muito comum em culturas ocidentais e mais raro em populações indígenas porque as mulheres em países ocidentalizados usavam soutien.

Num vídeo com mais de meio milhão de visualizações no TikTok, uma naturopata utiliza esse estudo para alertar para o potencial desenvolvimento de doença oncológica devido à utilização de soutien. “O vosso corpo vai transformar-se num pântano tóxico”, garante. Será mesmo assim?

Usar soutien pode mesmo causar cancro na mama?

A metodologia do estudo foi analisada pela American Cancer Society, que afirma que “não houve controlo para garantir que este tipo de estudo é preciso”, já que os resultados foram “analisados sem ter em conta os fatores que aumentam o risco de cancro”, como a obesidade. Para além disso, o estudo não esteve em nenhuma publicação revista por pares, foi apenas publicado em livro.

Em declarações ao Viral, Anuraj Parmanande, oncologista no Hospital Lusíadas Amadora, diz que “anatomicamente, [a teoria] não faz sentido”, “a própria drenagem linfática não é feita da axila para a mama, mas da mama para a axila”. Nos vídeos que circulam nas redes sociais, os soutiens com aro são apontados como principais culpados do cancro na mama, por apertarem mais aquela zona. “Não existe risco” de cancro na mama por usar soutiens apertados, “mas é desconfortável, deve trocar-se por um soutien mais adequado”.

Um estudo de 2014, conduzido por investigadores do Fred Hutchinson Cancer Research Center, analisou dados de mais de 1500 mulheres (469 não tinham cancro) com idades entre os 55 e os 74 anos, com e sem diagnóstico de cancro da mama, para avaliar possíveis ligações entre o uso de soutien e a incidência da doença. O estudo concluiu que “não há evidência de que o uso de soutien esteja associado ao risco de cancro da mama”, independentemente do tempo de uso, do tipo de soutien (com ou sem aro) ou da idade em que se começou a usá-lo.

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Quais são os fatores de risco para este cancro?

“Não temos atualmente uma causa específica para o cancro da mama, sabemos que estas doenças acontecem e começamos a saber cada vez mais como as tratar”, explica Anuraj Parmanande.

Entre os fatores mais estudados está a hereditariedade: “Uma pessoa que tem familiares diretos com estas doenças tem um risco aumentado”. E a idade também é um fator relevante, com a incidência da doença a aumentar com o envelhecimento — daí que as mulheres entrevistadas para o estudo supracitado tenham entre 55 e 74 anos.

O uso da pílula e as terapias hormonais de substituição também estão associadas a maior risco, e tem sido observado que mulheres que nunca tenham engravidado têm mais probabilidade de vir a desenvolver a doença, diz o médico. Já a menstruação é “um fator protetor da doença”.

A obesidade e uma alimentação pouco equilibrada são fatores de risco gerais, comprovados para vários tipos de cancros. E apesar de se falar “do exercício como um bom fator protetor deste tipo de doenças”, é possível ser ativo e “saudável e desenvolver esta doença”, salienta o oncologista.

A ausência de uma causa única e clara para o cancro da mama pode levar alguns doentes a procurar culpados. “Às vezes, as pessoas arranjam uma forma de se culparem: falam do trabalho, das tarefas, de coisas do dia a dia, como uma forma de se culpabilizarem.”

Além dos exames de rotina, é importante fazer rastreios e estar atento aos sinais de alerta. “A palpação mamária é essencial, especialmente na camada mais jovem”, explica o médico. Mas há outros sinais a ter em conta: corrimento mamilar (especialmente se for sanguinolento) e alterações na pele da mama, como vermelhidão ou textura semelhante à casca de laranja.


Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.

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A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.

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28 Jun 2025 - 08:45

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