Dia da Solidariedade Humana: Ajudar os outros tem benefícios para a saúde?
Costuma sentir-se bem quando participa em atividades solidárias? Na verdade, ser solidário com os outros e fazer voluntariado pode ter consequências positivas no bem-estar e na sua saúde.
No âmbito do Dia Internacional da Solidariedade Humana, dois psicólogos explicam ao Viral os benefícios de realizar ações solidárias e de voluntariado.
Ser solidário e fazer voluntariado tem benefícios para a saúde?
Em declarações ao Viral, a psicóloga Ana Félix adianta que a realização de atos solidários “traz muito mais a quem o faz do que a quem usufrui da ajuda”.
A psicóloga explica que estas atividades proporcionam “um bem-estar neuroquímico e uma sensação de satisfação”, ajudando também a “reduzir o stress e combater a solidão”.
“Os atos de solidariedade podem ser um contributo para combater vários sintomas de depressão, ansiedade e tristeza”, acrescenta Ana Félix, admitindo que recomenda, “muitas vezes”, estas atividades em consulta.
O sentimento positivo que surge após um ato solidário ocorre devido à libertação das chamadas “hormonas da felicidade”, nome dado a um conjunto de neurotransmissores (no qual se inclui a dopamina, a serotonina e a oxitocina) responsáveis por proporcionar sensações de prazer, satisfação e bem-estar ao indivíduo.
Num artigo publicado anteriormente no Viral, Francisco Sousa Santos, endocrinologista e autor da página Hormonas em Bom Português, esclarece que a produção destas “hormonas da felicidade” está relacionada com “comportamentos que são percecionados pelo organismo como sendo favoráveis à nossa existência”.
Ou seja, estes neurotransmissores atuam como uma “recompensa” pela prática de atos positivos para a saúde – neste caso, associados à satisfação das necessidades sociais do indivíduo.
Miguel Ricou, presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos Portugueses, lembra que os humanos “são seres sociais” e têm “a necessidade de se relacionar”, obtendo “prazer e bem-estar quando satisfazem essa necessidade”.
Além da sensação de prazer e bem-estar, estes neurotransmissores têm outras funções e outros efeitos benéficos para a saúde. Segundo a Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard, a dopamina impacta a capacidade de aprendizagem e atenção, o ritmo cardíaco, a função hepática, o processamento da dor e a qualidade de sono.
Também a serotonina tem efeitos positivos na memória, nas respostas a situações de stress, na saúde digestiva e no controlo da temperatura corporal, entre outros. A oxitocina ajuda a relaxar, a confiar e promove estabilidade psicológica.
Diferentes estudos analisaram o impacto das ações altruístas e das iniciativas de voluntariado na saúde de quem as pratica. Apesar de serem investigações observacionais e de ser necessário realizar mais estudos para obter conclusões mais robustas, os resultados apontam para a existência de melhorias na qualidade de vida dos indivíduos.
Uma revisão sistemática, publicada em 2018, concluiu que “a realização de atos de bondade melhora o bem-estar” do indivíduo, contudo, trata-se de um efeito “relativamente modesto”.
Noutro artigo de revisão, publicado em 2013, a evidência observacional “sugere que o voluntariado poderá beneficiar a saúde mental e a sobrevivência”, mas não se sabe quais os mecanismos de causa destes benefícios.
A Universidade norte-americana de Carnegie Mellon publicou um estudo sobre os efeitos positivos de realizar pelo menos 200 horas de voluntariado por ano (perto de quatro horas por semana) em indivíduos entre os 51 e os 91 anos. Os investigadores observaram que um indivíduo “altruísta” tinha menos 40% de risco de ter tensão alta ou desenvolver hipertensão.
Estes benefícios na saúde são também identificados pelas pessoas que praticam este tipo de ações. Dados do relatório “Doing Good is Good for You”, publicados em 2017, referem que 93% dos inquiridos que participaram em atividades de voluntariado (nos 12 meses anteriores) identificaram uma melhoria no humor, 88% notaram uma melhoria da autoestima e 79% experienciaram menores níveis de stress.
Três quartos dos indivíduos que realizaram voluntariado (75%) passaram a sentir-se fisicamente mais saudáveis, e cerca de um terço (34%) admite que esta atividade ajuda a gerir melhor as doenças crónicas.
Miguel Ricou lembra que, “quando sentimos que o que estamos a fazer pode ser importante para os outros, vamos ter uma sensação de prazer e satisfação” que “promove o bem-estar” e está “ligada à saúde positiva”.
O psicólogo reforça que as pessoas “beneficiam das relações que estabelecem umas com as outras”, ao contrário das ideias atualmente veiculadas pela sociedade atual de que os indivíduos precisam de “ser fortes sozinhos e individualmente”.
Também Ana Félix desafia as pessoas a experimentarem atividades de solidariedade e voluntariado, pois estas práticas têm “resultados muito interessantes”. Sublinha que, além de “melhorar a autoestima e o sentimento de pertença”, são atividades que, normalmente, criam “doces memórias”.
Em conclusão: ser solidário com os outros pode, de facto, ter efeitos positivos na saúde de quem pratica estas ações. A realização de atividades de voluntariado pode promover a produção das chamadas “hormonas da felicidade”, que estão associadas a uma redução dos níveis de ansiedade e stress, ao combate dos sintomas de depressão ou até à prevenção de hipertensão.