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Seitan é um “veneno para o intestino”? Nutricionista responde 

25 Fev 2025 - 10:00

Seitan é um “veneno para o intestino”? Nutricionista responde 

Em vários vídeos partilhados no TikTok, alega-se que o seitan é um “veneno para o intestino”. Um dos autores dessas publicações incentiva os seguidores a pararem imediatamente de comer o que ele descreve como um “bloco traduzido em saudável”, mas que, por ser “puramente glúten de trigo”, é o “pior que se pode consumir”. Mas será que essas afirmações têm fundamento científico?

Seitan é um “veneno” para o intestino? 

Em declarações ao Viral, Conceição Calhau, nutricionista e professora catedrática da Nova Medical School, explica que discutir se o seitan faz bem ou mal à saúde intestinal depende de vários fatores.  

O impacto do seitan no intestino pode variar dependendo da dose e da frequência com que é consumido. Enquanto numa alimentação omnívora (inclui tanto alimentos de origem animal quanto vegetal) este alimento é ingerido num padrão de dieta diversificada, nos regimes vegetarianos ou veganos, o seitan pode ser uma escolha mais frequente no prato. 

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Além disso, importa também destacar que a saúde intestinal, “ou a falta dela”, também é um fator essencial a ter em conta. Por isso, e antes de mais, é preciso perceber que o seitan é, tal como explica a Associação Vegetariana Portuguesa, “feito a partir de uma mistura de água e glúten de trigo”.  

Ora, tratando-se de um alimento que é um “concentrado de glúten”, como explica Conceição Calhau, o seitan é, “obviamente, contraindicado” para as pessoas com doença celíaca – uma condição autoimune em que a ingestão de glúten causa inflamação no intestino.

“Estima-se que esta doença afete 1 em cada 100 pessoas no mundo, mas apenas cerca de 30% são diagnosticadas corretamente”, de acordo com a Celiac Disease Foundation. 

Para os doentes celíacos, está recomendada a eliminação do glúten da dieta.

Além dos celíacos, o consumo de glúten também é “cada vez mais questionável” para pessoas “com manifestações de sensibilidade ao glúten não-celíaca”, ou seja, as que não têm a doença celíaca, mas ainda assim apresentam sintomas adversos ao ingerir glúten. Estas pessoas devem também evitá-lo, sugere a nutricionista consultada pelo Viral. 

Conceição Calhau adianta ainda que o facto de a saúde intestinal “estar comprometida com alterações da microbiota intestinal” pode levar a que haja “uma sintomatologia mais agravada ao consumir glúten”.

“Na prática clínica não é raro que pessoas com doença funcional do intestino, [sob] vigilância de um marcador como a calprotectina (nas fezes), em que, na fase assintomática e com [a privação de glúten na alimentação], corrigem este marcador para valores baixos, mas em que a reintrodução do glúten faz disparar este marcador, acompanhado de sintomas”, sublinha Conceição Calhau. 

Quanto aos indivíduos saudáveis que adotam um regime alimentar sem glúten por acreditarem que isso melhora a saúde ou previne doenças, a Harvard Health Publishing destaca que não há evidências científicas que comprovem esses benefícios. 

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“Apesar de muitas pessoas acreditarem que as dietas sem glúten são mais nutritivas e contêm mais minerais e vitaminas do que os alimentos convencionais, muitas vezes, isso não é verdade”, menciona ainda o mesmo artigo, acrescentando que alguns desses alimentos “tendem a ter menos fibras e mais açúcar e gordura”.  

Quanto ao seitan, Conceição Calhau explica ao Viral que, embora este alimento seja “pobre em hidratos de carbono e gordura”, pode, no entanto, conter adição de sal ou açúcar devido ao processamento.  

Por outro lado, ainda que tenha cerca de 30 gramas de proteína por 100 gramas de alimento, o seitan não possui todos os aminoácidos essenciais, especialmente a lisina, o que compromete a qualidade da proteína isoladamente.

Em suma, para pessoas com doença celíaca ou sensibilidade ao glúten, o seitan pode realmente fazer mal ao intestino, agravando os sintomas e comprometendo a saúde intestinal. Mas, para pessoas sem problemas relacionados com o glúten, este alimento pode ser consumido, desde que faça parte de uma dieta equilibrada e variada

Mas, afinal, o que é o glúten e onde está presente?  

O glúten é um conjunto de proteínas de origem vegetal encontrada em cereais como trigo e o centeio e cevada e é o responsável por dar elasticidade à massa, permitindo que ela cresça e fique com uma consistência esponjosa, o que é essencial para a textura dos pães e bolos, segundo a Associação Portuguesa de Celíacos. 

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Importa sublinhar que o facto de um alimento ter o selo “gluten free” (isento de glúten) não significa que seja mais saudável.

Tal como o nutricionista José Camolas explicava, neste artigo do Viral, alguns dos produtos que se encontram no supermercado com este selo são ultraprocessados, sendo, muitas vezes, “mais ricos em gordura” e, “algumas vezes, mais pobres em algumas vitaminas e minerais”.

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Alimentação

25 Fev 2025 - 10:00

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