Ressonar causa lesão cerebral e aumenta o risco de demência? Neurologista esclarece
Numa publicação partilhada no Instagram alega-se que “ressonar causa lesão cerebral e aumenta o risco de demência”. Segundo o post, “o ronco, especialmente quando grave ou associado à apneia do sono, pode levar a pausas na respiração durante o sono, causando uma queda nos níveis de oxigénio no sangue”.
Esse défice de oxigénio “pode danificar as células cerebrais” e “afetar várias funções cognitivas”. Por esse motivo, acrescenta-se,“o ronco crónico e a apneia do sono também têm sido associados a um risco aumentado de desenvolver demência, incluindo a doença de Alzheimer”. Será que ressonar causa mesmo lesão cerebral e aumenta o risco de demência?
É verdade que ressonar causa lesão cerebral e aumenta o risco de demência?
Em declarações ao Viral, Rui Araújo, neurologista e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia (SPN), adianta que a relação entre as patologias do sono e a demência ainda não é clara (ver também aqui, aqui e aqui).
Segundo o médico, sabe-se que “uma apneia do sono grave, muitas vezes associada à roncopatia [ressonar], pode efetivamente contribuir para lesões cerebrais e dar alguns sintomas semelhantes aos da demência, como esquecimento, desorientação e lentificação”.
Num texto informativo publicado no balcão digital do Serviço Nacional de Saúde (SNS 24) também se refere a “falta de atenção, memória ou dificuldade de concentração” como sintomas comuns da apneia do sono, que também se verificam nos casos de demência (ver aqui).
Em causa está o facto de as pessoas com apneia do sono passarem por “vários períodos durante o sono em que não há uma oxigenação adequada”, explica Rui Araújo.
Isto é, clarifica-se no texto do SNS 24 sobre a apneia do sono, esta síndrome “é um distúrbio respiratório do sono caracterizado pelo breve, mas frequente bloqueio das vias respiratórias, que provoca interrupções da respiração totais (apneias) ou parciais (hipopneias) durante o sono”.
No fundo, “ocorre um relaxamento excessivo dos músculos da via aérea superior resultando no bloqueio da normal respiração”, lê-se.
Tal como se esclarece num texto informativo da Universidade de Ohio, nos Estados Unidos da América, “dormir é um momento em que o cérebro não só descansa, mas também se recupera” e, “durante o sono, o cérebro elimina proteínas patológicas que se acumulam durante o dia”.
Quando as pessoas não dormem ou não têm um sono de qualidade e reparador, “essas proteínas não são eliminadas e o seu acúmulo está associado à demência”, aponta-se.
Apesar de tudo, sublinha Rui Araújo, “ainda não é possível dizer com certeza” que ter uma apneia do sono não tratada “pode originar uma demência”.
Isto porque “a demência implica que as alterações cognitivas tenham uma natureza crónica e isso ainda não está completamente estabelecido”, justifica o neurologista.
No texto da Universidade de Ohio defende-se a mesma ideia. Não se sabe ao certo “se a apneia do sono pode causar demência”, lê-se. Identificou-se “uma ligação, sugerindo que a apneia do sono não tratada pode levar ao início precoce ou à progressão mais rápida da demência”, mas “o motivo é incerto”, acrescenta-se.
Por esse motivo é que na última publicação da Comissão Permanente da Lancet “sobre as causas tratáveis e reversíveis da demência, a questão das perturbações do sono não foi colocada, não porque não existe evidência que ligue o sono às alterações cognitivas, mas porque não se conseguiu dizer ainda que contribui inequivocamente para a demência”, realça Rui Araújo.
Embora o sono não tenha sido incluído como um fator de risco oficial, a comissão referiu que a apneia do sono “pode estar associada à demência” (ver também aqui).
Em suma, ter perturbações do sono não tratadas, como a apneia do sono associada à roncopatia, pode causar alterações cognitivas negativas semelhantes às provocadas pela demência. No entanto, até à data, não é possível afirmar que essas perturbações levam ao desenvolvimento de demência.
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