VITAL
A quimioterapia foi descoberta devido a uma arma química durante a II Guerra Mundial?
A quimioterapia é a “administração de fármacos que destroem as células cancerígenas, interferindo com os processos de crescimento e divisão das mesmas”, lê-se no site do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
Esses medicamentos “atacam” células que se dividem rapidamente, como as cancerígenas, mas também é possível que afetem células saudáveis — daí que muitas vezes surjam efeitos secundários como vómitos, queda de cabelo, náuseas, entre outros.
Pode ser administrada com um propósito curativo, depois de o doente já ter sido submetido a uma cirurgia ou radioterapia, com o objetivo de “evitar a possível disseminação de micrometástases” e “eliminar a probabilidade de doença residual”.
Também é possível que o doente faça quimioterapia antes da cirurgia de remoção do tumor como forma de diminuir o número de células tumorais, facilitando (e em alguns casos, possibilitando) a cirurgia.
Quando um tumor está já num estadio muito avançado, com metastização noutros locais que não apenas o tumor de origem, o objetivo da quimioterapia “é tratar e aliviar a sintomatologia do cancro, não apresentando intuito curativo.”
Estes mecanismos hoje são conhecidos e a palavra “quimioterapia” é imediatamente associada a “cancro”, mas nem sempre foi assim.
Foi o químico alemão Paul Ehrlich que cunhou o termo “quimioterapia”, referindo-se ao uso de produtos químicos para tratar doenças.
A quimioterapia foi descoberta por acidente durante a II Guerra Mundial?
Mas a quimioterapia para o cancro, semelhante ao mecanismo que hoje conhecemos, surgiu num cenário particular.
No início do século XX, o gás mostarda era utilizado como arma química: ao entrar em contacto com a pele causa bolhas e também tem efeitos nocivos para os olhos e trato respiratório.
Na I Guerra Mundial, já tinha provocado mortes, mas foi na II que ocorreu um episódio que alavancou a descoberta sobre as propriedades do gás mostarda, relevantes para a criação da quimioterapia.
Um navio com gás mostarda foi bombardeado no porto de Bari, em Itália. A explosão libertou o gás, causando a morte de centenas de pessoas.
Nas autópsias, os médicos observaram que as vítimas apresentavam profunda redução dos glóbulos brancos, causada, geralmente, por danos na medula óssea, que é a responsável por produzir as células sanguíneas.
Essas observações chamaram a atenção de cientistas que, após analisarem os relatórios, perceberam que o gás mostarda parecia destruir preferencialmente células que se dividem rapidamente — como as do sistema imunitário e, potencialmente, as cancerígenas.
A partir dessa observação, Louis Goodman e Alfred Gilman, da Universidade de Yale, começaram a estudar o efeito de “mostardas nitrogenadas” (uma variante do gás mostarda em que o enxofre é substituído por nitrogénio) nos linfomas.
Os primeiros estudos, em ratos, mostraram uma regressão significativa dos tumores. Daí passou-se para coelhos — os resultados também batiam certo — e, depois, para o primeiro ensaio clínico com humanos.
O primeiro paciente no mundo a ser tratado com quimioterapia foi um homem de 48 anos em fase terminal de linfossarcoma.
Nessa altura, a radioterapia já não tinha qualquer efeito sobre aquele tumor. Com o tratamento administrado pelos especialistas de Yale, em dois dias foi registada uma diminuição do tumor.
Pouco depois, registou-se uma recidiva e os tratamentos subsequentes não tiveram tanto efeito. Ainda assim, ficou ali provado que aquele composto podia mesmo ser um medicamento importante no tratamento do cancro.
Derivados deste composto continuam a ser utilizados na quimioterapia. “Atualmente temos várias formas de tratar o cancro e cada uma funciona de maneira diferente”, disse ao Viral, em junho, João Vasco Barreira, médico oncologista e um dos autores da página ‘The Twin Docs’.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
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