Quem tem problemas nos rins não deve comer melancia?
No TikTok alega-se que “quem tem problemas de rins não pode comer melancia”, porque esta fruta “contém uma substância chamada citrulina”. Segundo o autor do vídeo partilhado, a citrulina, em condições normais de saúde, “ajuda o corpo a produzir mais óxido nítrico, que é excelente para o coração e para a circulação”.
No entanto, defende-se no mesmo vídeo, as pessoas com problemas nos rins devem evitá-la, “porque é o rim que faz a filtração e elimina a citrulina” e, para “quem tem doença renal crónica ou qualquer tipo de problema renal, isso pode alterar muito o funcionamento da saúde”. Será mesmo assim? Quem tem problemas nos rins não deve comer melancia?
É verdade que as pessoas com problemas nos rins não devem comer melancia?
É falso que as pessoas com doença renal não devam comer melancia. Em declarações ao Viral, Cristina Cândido, nefrologista no Hospital da Luz Odivelas, no grupo Nephrocare e no Centro Clínico Andar, adianta que “não existem alimentos ‘proibidos’ de forma universal para todas as pessoas com doença renal”.
Existem, sim, “restrições específicas conforme o tipo de doença renal, estadio da função renal, resultados analíticos e tratamento”, ou seja, “um alimento pode ser adequado para uma pessoa e inadequado para outra”. Na doença renal, “o foco é a quantidade e o contexto clínico”, acrescenta a médica.
Cristina Caetano, nutricionista clínica no grupo Nephrocare, partilha a mesma ideia. Ao Viral, explica que “não há frutas proibidas, mas sim quantidades que devem ser controladas”.
A melancia e qualquer fruta podem “continuar no prato das pessoas com insuficiência renal crónica”. Segundo a nutricionista, “a mensagem a reter é o equilíbrio no consumo”.
Apesar de a melancia – e a fruta no geral – “ser rica em potássio (um mineral a controlar neste contexto), também contém fibra que ajuda a eliminar o potássio através das fezes”.
Além disso, “é alcalina, o que contribui para diminuir o potássio no sangue, pois ajuda-o a entrar dentro das células”.
A citrulina – referida no vídeo partilhado como “a vilã” neste contexto – é “um aminoácido não essencial”, ou seja, é produzido pelo organismo, não sendo necessário obtê-lo pela alimentação.
Este aminoácido é, de facto, “abundante na melancia e pode ser progressivamente acumulado tanto na polpa quanto na casca”, refere Cristina Caetano (ver também aqui).
“O teor de citrulina é mais alto na casca da melancia vermelha (60 a 500 mg por 100 g de melancia) do que na polpa (40 a 160 mg por 100 g de melancia), não tendo sido detetada citrulina nas sementes da melancia”, aponta.
O consumo de alimentos ricos em citrulina – como a melancia – deve ser moderado sobretudo em contexto de doença renal, não propriamente por causa da citrulina, mas porque estes alimentos são muitas vezes ricos em potássio.
Tal como se explica num texto da UCLA Health, quando se tem doença renal crónica, “os rins apresentam uma capacidade reduzida de filtrar o potássio, o que resulta na acumulação de potássio no sangue, causando uma condição denominada hipercalemia”.
A hipercalemia é perigosa, “uma vez que o excesso de potássio pode causar fraqueza muscular, batimentos cardíacos irregulares ou mesmo morte súbita”.
Na perspetiva de Cristina Caetano, a ingestão de fruta em contexto de doença renal “deve ser individualizada de acordo com a situação clínica, resultados laboratoriais, gostos e padrão alimentar de cada pessoa”.
Por exemplo, “as pessoas com insuficiência renal aguda/crónica ou em programa regular de hemodiálise/diálise peritoneal devem manter uma alimentação equilibrada e variada, e poderão consumir, de forma geral, 2 a 3 porções de fruta diariamente, sem que isso tenha um impacto negativo”, esclarece.
Mas nestas situações “é aconselhado o acompanhamento por parte de um nutricionista para ajustar as quantidades na sua alimentação diária”.
Qual o impacto da alimentação na gestão da doença renal?
Segundo Cristina Cândido, “a alimentação tem um papel central na gestão da doença renal, porque os rins são responsáveis por filtrar resíduos, equilibrar minerais, controlar líquidos e ajudar na regulação da pressão arterial”.
Quando a função renal diminui, “a dieta pode ajudar a reduzir sintomas, atrasar a progressão da doença e prevenir complicações”, explica.
Assim, uma alimentação adequada “pode diminuir a sobrecarga dos rins, especialmente quando é limitada em sódio (sal)”.
Para a nefrologista, “o mais importante é o padrão global da alimentação baseado numa dieta mediterrânica, mas ajustada às especificidades da doença renal do paciente: redução de sal (sódio), ajustada ao potássio (se houver necessidade), proteína na quantidade certa e menos ultraprocessados” (ver também aqui, aqui, aqui e aqui).
Por outro lado, “o excesso de sódio pode conduzir ao aumento da pressão arterial e retenção de líquido” e “o excesso de proteína, em alguns casos, pode também aumentar o trabalho renal”.
Quando os rins não filtram bem, certos minerais, como o potássio e o fósforo, podem acumular-se e, nesse caso, “é necessário um ajuste destes minerais na dieta”, acrescenta.