Quem tem diabetes “precisa de cortar o feijão” da alimentação?
Num vídeo partilhado no TikTok alega-se que quem tem diabetes “precisa de cortar o feijão” da alimentação. Isto porque, sugere o autor do vídeo, “apesar de ser uma leguminosa e ter uma boa quantidade de proteína, é riquíssimo em amido e vai causar um pico glicémico no organismo”. É verdade que as pessoas com diabetes não devem comer feijão?
Quem tem diabetes deve cortar o feijão da alimentação?
Ao Viral, a endocrinologista Joana Menezes Nunes adianta que “as pessoas com diabetes não devem cortar o feijão da alimentação”.
Tal como explicava a endocrinologista Paula Freitas, em declarações anteriores, há, de facto, “alimentos que prejudicam a estabilização da glicemia e outros que ajudam a mantê-la mais estável”.
Contudo, “não existe propriamente o conceito de ‘alimentos proibidos’ para pessoas com diabetes”. Aliás, na perspetiva da endocrinologista, “é proibido proibir”.
Joana Menezes Nunes refere que, ao contrário do que se sugere no vídeo do TikTok, “o feijão é um aliado poderoso no controlo da glicemia”.
A ideia de que as pessoas com diabetes não devem ter feijão na alimentação surge da “simplificação antiga e errada” de que “diabéticos não podem comer hidratos de carbono”, esclarece a médica.
Como o feijão “contém hidratos de carbono (amido), muitas pessoas assumem automaticamente que ele vai aumentar o açúcar no sangue da mesma forma que o pão branco ou os doces”, por exemplo.
Mas isso não é verdade. Até porque, “ao contrário do pão branco ou do açúcar – que têm índice glicémico (IG) máximo -, o feijão tem um IG baixo”.
Em causa está o facto de o feijão ser “riquíssimo em fibra solúvel e insolúvel, além de proteína vegetal”. Esta combinação “cria uma espécie de ‘barreira’ no estômago e intestino”, explica a endocrinologista (ver também aqui).
A fibra do feijão “obriga o corpo a fazer a digestão muito lentamente”, ou seja, “a glicose (açúcar) entra na corrente sanguínea ‘às pingas’ e não como uma ‘enxurrada’, evitando os picos de glicemia pós-prandial (após a refeição)”, acrescenta.
O único tipo de feijão com o qual se deve ter cuidado extra, neste contexto, e que, de facto, deve ser evitado, “é o feijão processado em molho de tomate (tipo “baked beans” ou feijão de lata com molhos doces), pois esses molhos costumam ter muito açúcar adicionado”, sublinha.
Que cuidados deve ter uma pessoa com diabetes no consumo de feijão?
Apesar de o feijão não ser proibido na alimentação das pessoas com diabetes, é preciso ter alguns cuidados, sobretudo na dose e na confeção do alimento.
Em primeiro lugar, “quem faz insulina rápida às refeições” precisa de saber que o feijão tem cerca de 15g a 20g de hidratos de carbono por 3 colheres de sopa, “dependendo da variedade”. Mas “estes hidratos são absorvidos lentamente”, refere Joana Menezes Nunes.
Como a digestão é lenta, “o pico de glicemia pode acontecer mais tarde do que com massa ou arroz” e “quem usa insulina deve estar atento a isto para não ter uma hipoglicemia logo a seguir ao jantar ou uma hiperglicemia tardia”, alerta.
“Embora saudável, o feijão tem hidratos” e é “preciso contabilizá-los na refeição”, salienta.
Por exemplo, “se comer uma pratada de feijão, deve reduzir noutras fontes de hidratos (como o arroz ou a batata) na mesma refeição”.
Também é comum, na cozinha tradicional portuguesa, ter um prato com arroz, feijão e batata frita. Mas as pessoas com diabetes “devem evitar juntar três fontes de amido”. O ideal é escolher “ou feijão com arroz (em porções moderadas) ou feijão com batata”, sublinha a médica.
Além disso, a combinação do feijão com “gorduras saudáveis e mais fibra ou mais proteína retarda ainda mais o esvaziamento gástrico e a absorção dos hidratos”.
Algumas boas combinações sugeridas pela endocrinologista são: “feijão e vegetais verdes (brócolos, couve, espinafres)”, “feijão e gordura saudável (um fio de azeite em cru)” ou “feijão e proteína (peixe, carne magra, tofu)”.
Por outro lado, a estrutura física do feijão também importa. Por exemplo, “comer feijão inteiro é melhor do que em puré ou sopa passada”.
Isto porque, explica Joana Menezes Nunes, “quando trituramos o feijão, ‘partimos’ a fibra, o que torna a absorção do açúcar ligeiramente mais rápida”.
A médica refere ainda “o truque do arrefecimento”. Segundo a especialista, “cozinhar o feijão, deixá-lo arrefecer (no frigorífico) e depois reaquecer aumenta a quantidade de amido resistente”.
Este tipo de amido “funciona como fibra, alimentando as bactérias boas do intestino e reduzindo ainda mais a resposta glicémica”, esclarece.
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