Posso apanhar hantavírus pelas latas de refrigerantes? “É altamente improvável”
Em alguns vídeos partilhados nas redes sociais alerta-se para a suposta possibilidade de se contrair infeções por hantavírus através do contacto com latas de refrigerantes. Segundo os posts partilhados, a saliva, a urina ou as fezes de roedores infetados podem entrar em contacto com as latas e infetar os consumidores, sendo recomendado limpar a superfície antes de consumir as bebidas. É verdade? Pode-se contrair hantavírus através de latas?
É verdade que se pode contrair infeções por hantavírus através de latas de refrigerantes?
Em declarações ao Viral, o virologista Celso Cunha e o infecciologista e professor na NOVA Medical School (NMS) João Ribeiro adiantam que, em teoria, é possível apanhar hantavírus através do contacto com latas de refrigerantes infetadas, mas é muito pouco provável.
João Ribeiro começa por explicar que os hantavírus se transmitem sobretudo “a partir de ratos ou outros roedores infetados, que excretam o vírus através de saliva, fezes e urina” (ver também aqui, aqui e aqui).
Na maior parte das vezes, a transmissão acontece “em espaços confinados, sobretudo em arrumos, que não são arejados, onde há ratos e que tenham largado há pouco tempo algum destes materiais biológicos”. Depois, se alguém for a esses espaços pode levantar poeiras, inalá-las e ser contaminado por exposição.
Assim, defende o médico, “em teoria é possível, na prática é muito pouco provável” que uma lata de refrigerante seja a causa de uma infeção por hantavírus.
Os especialistas explicam que existem várias razões que tornam este cenário improvável. Em primeiro lugar, “era preciso que se estivesse em contacto direto com a superfície de uma lata de refrigerante logo após ser contaminada por fezes de um rato infetado – que se veriam – ou por saliva ou urina”, adianta João Ribeiro.
O contacto teria de ser num curto período após a contaminação, porque “os vírus não tem uma grande viabilidade fora do hospedeiro, são vírus frágeis desse ponto de vista” (ver aqui e aqui).
Isto torna ainda menos provável que um consumidor seja infetado, porque, à partida, o vírus não sobreviveria no ambiente, seja em fábricas ou nos armazéns dos supermercados, até chegar à pessoa que comprou a lata de refrigerante.
Mesmo nos cafés, exemplifica o professor da NMS, “a maior parte das latas estão refrigeradas” e, nessas condições, “o vírus não resiste”.
Além disso, refere Celso Cunha, “é muito pouco provável que uma lata ou uma garrafa de refrigerante contenham aerossóis infetados em número suficiente para uma pessoa poder ser contaminada e contrair a doença”.
Na perspetiva do virologista “é altamente improvável que aconteça uma infeção humana por hantavírus através da ingestão de refrigerantes enlatados ou engarrafados”.
Seria “muito mais fácil contrair outro tipo de doença infeciosa, através do contacto com refrigerantes enlatados, do que este hantavírus que provocou um surto no barco”.
O exemplo dado por ambos os especialistas é a leptospirose, uma doença infeciosa causada pela bactéria Leptospira, que está presente na urina ou fluidos de ratos, cães, e outros animais infetados (ver aqui).
Até hoje, não há registos de casos de hantavírus através do contacto com latas de refrigerantes infetadas. Também, segundo um texto da University of California Office of the President (UCOP) dos Estados Unidos, “não há provas de que o hantavírus possa ser transmitido através de latas de refrigerante”.
A infeção por hantavírus através de latas de refrigerantes é ainda menos viável em Portugal e na Europa, porque, até à data, “não há registo de nenhum caso”, sublinha Celso Cunha.
Por outro lado, acrescenta, “o roedor específico que é hospedeiro deste vírus” que deu origem ao surto não habita na Europa.
Faz sentido limpar as latas?
“Limpar a parte superior das latas de refrigerantes é uma boa prática”, lê-se no texto da UCOP. Contudo, “mesmo que não se limpe as latas de refrigerantes, é altamente improvável que uma pessoa adoeça com a síndrome pulmonar por hantavírus”.
Para João Ribeiro também “faz sentido higienizar e não beber diretamente das latas”, não particularmente devido a risco de infeção por hantavírus, mas porque existem “outros agentes microbiológicos, como a leptospirose”, que são mais resistentes e existem em Portugal.
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