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Está provado que pôr perfume no pescoço faz mal à tiroide?

16 Mai 2024 - 09:39
falso

Está provado que pôr perfume no pescoço faz mal à tiroide?

Alguns utilizadores do TikTok alegam que borrifar perfume diretamente no pescoço faz mal à tiroide, uma glândula que desempenha um papel fundamental na regulação do metabolismo e em diversas funções do organismo. 

Num dos vídeos partilhados, alega-se que o perfume é um produto “tóxico” e “um disruptor endócrino cheio de químicos”. Mas terá esta ideia tem comprovação científica?

É verdade que borrifar perfume diretamente no pescoço prejudica a tiroide?

Em declarações ao Viral, Francisco Sousa Santos, endocrinologista e autor da página Hormonas em Bom Português, adianta que não existe nenhum estudo que demonstre que “pôr perfume no pescoço está associado a um maior risco de disfunção tiroideia”.

Segundo o especialista, fala-se “cada vez mais em químicos disruptores endócrinos”, ou seja, em substâncias “externas ao nosso corpo que, de alguma forma, podem interferir no funcionamento e na ação das nossas hormonas”. 

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De facto, aponta, “existem alguns estudos que mostraram uma correlação de exposição a alguns tipos de disruptores endócrinos com diversos tipos de alterações do metabolismo da tiroide”.

No caso dos perfumes, pode falar-se dos “ftalatos, que são químicos presentes em plásticos e mesmo em vários produtos de cosmética”, prossegue.

Nesse sentido, alguns trabalhos (como este e este) “mostram uma associação entre os níveis de ftalatos – que geralmente são medidos na urina – e vários tipos de alterações a nível da função de tiroideia”.

Inclusive, destaca, há estudos que mostram “uma relação entre os níveis de ftalatos na urina da mulher grávida e alterações na função da tiroide da grávida” (ver aqui e aqui).

Contudo, Francisco Sousa Santos indica quatros fatores que impedem que a evidência disponível seja suficiente para se tirar uma conclusão robusta.

Em primeiro lugar, os estudos que existem “são observacionais”, ou seja, “não permitem aferir uma causalidade”. 

Para mais, avança, “a maior parte destes estudos não investiga o tipo de exposição que a pessoa teve”. Por exemplo, é possível apurar que “há muitos ftalatos na urina, mas não se identifica como é que a pessoa ‘ganhou’ estes ftalatos”. 

Além disso, o médico explica que a existente evidência não é unânime. “Há trabalhos a mostrar certos tipos de alterações, e outros a mostrar” alterações diferentes.

Ainda assim, a maior parte das alterações que se verificam “são de pequena escala, ou seja, não se veem grandes disfunções da tiroide”, salienta.

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Por último, a maioria destes dados são recolhidos “em modelos animais”. Por isso, não se pode extrapolar os resultados obtidos e garantir que os efeitos em humanos seriam os mesmos.

Assim sendo, resume, “de facto, existem disruptores endócrinos que, na teoria, têm o potencial para alterar a função tiroideia”, mas não há nada que comprove que pôr perfume diretamente no pescoço prejudique a tiroide.

Que fatores podem prejudicar a tiroide?

Francisco Sousa Santos começa por adiantar que “há fatores de risco muito evidentes para o mau funcionamento da tiroide” (ver aqui, aqui e aqui).

Um desses fatores é “a exposição à radiação na zona cervical” através da “radioterapia”, exemplifica o especialista.

Do mesmo modo, “fazer uma cirurgia à tiroide também é um fator de risco para ter disfunção da tiroide”, aponta.

Por outro lado, refere o médico, “alguns medicamentos usados para tratar arritmias, por exemplo, ou para tratar vários tipos de cancro”, podem contribuir para o aumento deste risco.

O facto de “a pessoa ter história familiar, sobretudo, de doenças autoimunes da tiroide” também é um aspeto relevante.

Além disso, como se refere num texto da Associação Americana da Tiroide, ter “demasiado ou pouco iodo” no organismo pode contribuir para o mau funcionamento da tiroide.

A tiroide tem de ter iodo para produzir hormonas. Mas, “para manter a produção da hormona tiroideia em equilíbrio, é necessária a quantidade certa de iodo”, esclarece-se.

Por isso, frisa Francisco Sousa Santos, “uma sobrecarga de iodo” – que pode ocorrer devido à toma excessiva de suplementos de iodo – potencia “o risco do mau funcionamento da tiroide”.

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Nesse sentido, o endocrinologista recomenda que a suplementação de iodo só seja feita “se for necessário” e é fundamental “ter muito cuidado com as doses”.

Por fim, lembra o especialista, “sabe-se que existem, efetivamente, vários químicos com potencial para serem disruptores do metabolismo de tiroide”, mas ainda não se conseguiu esclarecer o tema ao ponto de se recomendar que as pessoas “evitem um determinado objeto ou a substância”.

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Endocrinologia

16 Mai 2024 - 09:39

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