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Pôr açúcar numa ferida aberta é uma boa forma de estancar o sangue? Enfermeira responde

23 Fev 2026 - 08:15

Pôr açúcar numa ferida aberta é uma boa forma de estancar o sangue? Enfermeira responde

No TikTok partilha-se uma “dica para estancar feridas”. Segundo o autor do vídeo publicado, pôr açúcar numa ferida aberta é uma boa forma de estancar um sangramento. Será mesmo assim? Esta prática é eficaz e segura? 

É verdade que pôr açúcar numa ferida aberta estanca o sangue?

Em declarações ao Viral, Joana Mestre, membro da Ordem dos Enfermeiros (OE), adianta que “colocar açúcar numa ferida aberta não é uma forma eficaz de estancar o sangue”. 

“O açúcar não possui qualquer mecanismo hemostático [que impeça a perda de sangue], não ativa a coagulação nem cria uma barreira capaz de parar uma hemorragia”, explica.

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A ideia de usar açúcar em feridas “tem origem histórica, remontando a práticas tradicionais dos séculos XVII–XVIII, quando era aplicado para reduzir infeção devido ao seu efeito osmótico”, explica. 

Em prática clínica moderna, “o açúcar foi usado sobretudo em contextos com poucos recursos, para tratar feridas crónicas, cavitadas ou muito exsudativas [produzem líquido em excesso], funcionando como alternativa barata ao mel ou a apósitos [curativos] avançados”. 

Casos recentes continuam a citá-lo como opção possível, mas “a evidência é limitada e não a recomendada como primeira linha”, sublinha Joana Mestre.

Os dados mais recentes limitam-se a mostrar “potenciais benefícios na cicatrização de feridas crónicas, nunca no controlo de sangramento”. 

Por exemplo, cita a enfermeira, um caso clínico (ver aqui) “apenas descreve aceleração da cicatrização com açúcar, sem qualquer efeito na hemostasia”. 

Uma síntese de evidência da Wound Healing and Management (WHAM) “confirma que os estudos existentes sobre açúcar são escassos, de baixa qualidade e não demonstram capacidade de parar hemorragias”, refere. 

No fundo, há “pouca base científica para o uso de açúcar em feridas” e a que existe é “de baixa qualidade e não demonstra superioridade face a apósitos modernos”, salienta Joana Mestre.

Por outro lado, “revisões atuais sobre apósitos modernos, como hidrogéis, e análises de agentes hemostáticos validados, como os à base de quitosano e kaolin, mostram que apenas métodos comprovados, pressão direta ou apósitos hemostáticos específicos, são eficazes para estancar sangue” (ver aqui e aqui).

Assim, na perspetiva da enfermeira, “de acordo com a evidência científica disponível, o açúcar não deve ser usado para parar hemorragias”.

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Quais os riscos desta prática?

Além de não ser uma prática eficaz, “a aplicação de açúcar diretamente numa ferida aberta pode apresentar riscos”, adianta Joana Mestre. 

A enfermeira explica que “o açúcar não é estéril e pode levar ao aumento da carga microbiana, aumentando o risco de infeção”. 

Além disso, pode “criar um ambiente viscoso que dificulta a remoção e causa trauma adicional ao tecido durante a limpeza”, prossegue. 

Em feridas “muito profundas” ou “com circulação comprometida”, pode “reter humidade em excesso”, “atrasando a cicatrização” e amolecendo a pele que rodeia a ferida.

Para mais, “por não ser um produto padronizado, há variabilidade na pureza, o que reduz a segurança”, avisa. 

Como estancar um sangramento em casa de forma segura?

Os guias de primeiros socorros reconhecidos a nível internacional  recomendam ter “um kit doméstico adequado” que inclua “gaze estéril, compressas, panos limpos, faixas, luvas descartáveis, pensos simples e, se possível, um agente hemostático ou garrote para emergências”.

Segundo Joana Mestre, “o procedimento recomendado para estancar um sangramento em casa é aplicar pressão direta e firme sobre a ferida, utilizando gaze estéril ou um pano limpo”, conforme orientado pelas diretrizes de primeiros socorros da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (IFRC, na sigla inglesa) e do Australian and New Zealand Committee on Resuscitation (ANZCOR). 

Se a compressa ficar muito saturada, “deve colocar-se outra por cima sem remover a primeira, mantendo a pressão contínua” (ver também aqui).

Quando se trata de feridas em braços ou pernas, recomenda-se “a elevação do membro para ajudar a reduzir o sangramento”, sublinha.

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“Se o sangramento não ceder com pressão direta, podem ser utilizados apósitos hemostáticos comerciais ou, apenas por pessoas devidamente treinadas, um garrote, segundo as orientações do American College of Surgeons – Stop the Bleed Program”, acrescenta a enfermeira.

Em certos casos, pode ser necessária a assistência de um especialista. Nesse sentido, Joana Mestre aponta alguns sinais de alerta “que indicam quando é preciso procurar um profissional de saúde em caso de hemorragia”. 

É fundamental procurar ajuda se:

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– “O sangramento não parar após pressão direta contínua por 10 a 15 minutos”;

– A hemorragia for muito intensa, pulsátil ou volumosa, “com perda rápida de sangue”;

– “A ferida for profunda, extensa ou causada por um objeto sujo/cortante, ou houver um corpo estranho inserido”;

– “Houver suspeita de fratura, lesão da articulação, incapacidade de movimentar o membro, dormência, palidez ou frio no membro”;

– “Surgirem sinais de infeção após a lesão”, como, por exemplo, “rubor/vermelhidão crescente, calor, edema/inchaço, pus, dor intensa ou febre”.

Categorias:

Primeiros socorros

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Açúcar | Ferida

23 Fev 2026 - 08:15

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