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Pintar o cabelo provoca cancro?

8 Set 2025 - 08:45
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Pintar o cabelo provoca cancro?

Pintar o cabelo faz parte da rotina de muitas pessoas, mas vários vídeos nas redes sociais sugerem que as tintas utilizadas podem provocar cancro. Esta alegação não é recente, diz o oncologista Pedro Simões, em declarações ao Viral e ao Polígrafo, e já se fizeram vários estudos para tentar perceber a relação entre tintas de cabelo e cancro.

Mas será mesmo verdade que é possível aumentar o risco de cancro por pintar o cabelo? E todas as tintas são iguais?

Tintas de cabelo provocam cancro?

“Realmente, existe alguma evidência, mas não é assim tão linear. Em primeiro lugar, a evidência que existe é em estudos observacionais”, ou seja, tratam-se de estudos que seguem várias pessoas ao longo de alguns anos para perceber se certos hábitos estão associados a doenças. Mas mesmo que se registe uma associação “nada disto consegue atribuir uma causalidade”, alerta o médico.

Segundo Pedro Simões, até agora, o que se encontrou foram associações estatísticas e não provas de que as tintas sejam a causa direta da doença. “O cancro é uma doença multifatorial e, como tal, não se pode propriamente dizer que uma tinta em específico ou que um produto em específico o possa causar”, sublinha.

Um aspeto que importa frisar é a evolução dos produtos ao longo do tempo, diz o especialista. Até aos anos 80, muitas tintas incluíam aminas aromáticas, substâncias hoje reconhecidas como carcinogénicas e já proibidas na União Europeia e nos Estados Unidos. “Alguns desses produtos realmente sabe-se que causam cancro”, mas as tintas utilizadas hoje não têm esses ingredientes na composição.

Isso ajuda a perceber por que motivo estudos mais antigos detetaram riscos acrescidos, que podem já não refletir a realidade atual. Para o médico, o amoníaco, muitas vezes citado em alguns vídeos como problemático, não está no centro das preocupações: “A questão do amoníaco não é associada ao desenvolvimento de cancro”, esclarece.

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Um estudo de coorte, publicado no BMJ em 2020, analisou dados do Nurses’ Health Study, que acompanhou 117 mil mulheres durante 36 anos. Os investigadores concluíram que o uso de tintas permanentes não está associado a um aumento do risco global de cancro, nem à mortalidade por cancro. Mas deixam uma nota: “O aumento do risco de carcinoma basocelular, cancro da mama (triplo negativo) e cancro do ovário justificam uma investigação mais aprofundada”.

Já um estudo publicado em 2019 no International Journal of Cancer detetou um ligeiro aumento de cancro da mama em mulheres que utilizavam tintas permanentes para pintar o cabelo. Também há investigações que associam tintas de cabelo ao desenvolvimento de linfomas, principalmente em pessoas que pintavam o cabelo já antes dos anos 80.

Nenhum destes estudos prova que existe causa-efeito, fazem apenas associações entre dois fatores, que não estão necessariamente relacionados — para já, não há provas de que estejam, segundo o médico.

Mas, admite, “parece realmente haver uma associação com o consumo ao longo do tempo”. “Quando a pessoa vai pintar o cabelo de vez em quando, não há um aumento significativo de risco nessa população. O risco está mais associado às tintas permanentes. As semipermanentes e temporárias, em princípio, não terão um aumento de risco.”

Além do tipo de tinta, também o contexto de exposição é relevante. A American Cancer Society afirma que os resultados são consistentes no que toca à exposição contínua a tintas permanentes (no caso de cabeleireiros ou barbeiros) e cancro da bexiga. O aumento de risco registado é “pequeno” para os profissionais, mas parece existir. O mesmo não acontece a pessoas que são apenas utilizadoras de tintas, segundo a instituição. 

Esses resultados seriam particularmente notórios para profissionais a trabalhar antes dos anos 80 e 90, já que o cancro da bexiga está relacionado (e isto está comprovado, afirma Pedro Simões) com a exposição a aminas aromáticas, componente que já não existe nas tintas de cabelo.

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O especialista confirma: “Faz sentido que o risco seja maior em profissionais que usam essas tintas diariamente do que no uso ocasional. E tintas mais recentes, em princípio, têm tendência a ser menos tóxicas.”

Há alguma forma de ter a certeza que não corro risco?

A melhor forma de o fazer será certamente não pintar o cabelo. Mas as tintas hoje são mais seguras e não há indicação de que não as deve utilizar devido a risco de cancro.

O oncologista repete a mesma frase várias vezes ao longo da entrevista com o Viral e com o Polígrafo: “Não há provas de uma causa-efeito, apenas há uma associação registada”.

Há outras opções que podem ser avaliadas no momento de escolher a tinta para pintar o cabelo: “É preferível utilizar tintas semipermanentes ou temporárias. E há algumas tintas à base vegetal, como a hena, que não são tão duradouras, mas em princípio os riscos serão menores”, diz o médico.

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Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.

A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.

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8 Set 2025 - 08:45

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