Pílula é “a maior causa de trombose venosa e embolia pulmonar”?
Num vídeo do TikTok alerta-se para os alegados perigos da pílula anticoncecional para a saúde. Segundo a autora do vídeo, o anticoncecional oral é “a maior causa de trombose venosa e embolia pulmonar”. Mas será mesmo assim?
É verdade que a pílula é “a maior causa de trombose venosa e embolia pulmonar”?
Não. Em declarações ao Viral, Filipa Jácome, cirurgiã vascular da Allure Clinic, explica que, “embora os anticoncecionais orais possam aumentar o risco” de trombose venosa e de embolia pulmonar, “sobretudo os combinados com estrogénio, não são a principal causa” destes problemas.
A médica adianta que uma trombose venosa consiste na “formação de um coágulo de sangue (trombo) dentro de uma veia”, que obstrui “o fluxo normal de sangue”.
Uma trombose venosa “pode ocorrer em qualquer veia do organismo, mas ocorre mais frequentemente nos membros inferiores”.
Existem dois tipos de trombose venosa: a “profunda (ocorre em veias do sistema venoso profundo, como a veia femoral) e a superficial – ou tromboflebite – (quando ocorre em veias superficiais)”, prossegue a especialista.
A trombose venosa profunda é considerada “mais grave”, levando “a dor e edema (inchaço) importante do membro, enquanto uma trombose venosa superficial se apresenta mais frequentemente com dor, calor e rubor no trajeto de uma veia superficial”.
Filipa Jácome explica ainda que “este trombo ou parte dele pode libertar-se, progredindo pela circulação e assim obstruir veias noutras localizações, como, por exemplo, no pulmão (tromboembolia pulmonar)”.
O grande responsável “pelo aumento de risco de trombose venosa” é “o estrogénio”, sublinha a médica.
Quanto maior for a dose de estrogénio, “maior é o risco de formação de trombos”. Além disso, “o tipo de progesterona parece também ter impacto no risco destes eventos”, acrescenta.
Nesse sentido, de facto, “a pílula altera o equilíbrio natural da coagulação sanguínea, estimulando mecanismos que promovem a formação de coágulos e reduz a capacidade do nosso organismo de desfazer esses trombos”, tornando “o sangue mais viscoso e pró-trombótico” (ver também aqui e aqui).
Apesar de a trombose venosa ser um “efeito adverso grave” da pílula é “raro”, refere-se no Consenso sobre contraceção, um documento da autoria da Sociedade Portuguesa da Contraceção, da Sociedade Portuguesa de Ginecologia e da Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução.
Aliás, o risco de trombose venosa nas mulheres que tomam a pílula “é inferior ao risco” associado à gravidez.
Segundo Filipa Jácome, “a incidência anual de trombose venosa profunda em mulheres que não usam contracetivo oral é de aproximadamente 1 a 5 casos em cada 10 mil mulheres, enquanto entre as que usam contracetivo oral, esse número sobe para 6 a 12 casos por 10 mil mulheres”.
Assim, “percebe-se que há um aumento do risco de trombose venosa de cerca de 3 a 6 vezes” com a toma da pílula, sendo que “o risco de trombose é maior durante o primeiro mês de uso dos contracetivos orais e permanece constante por vários anos”.
Com a suspensão da toma da pílula, o risco “normaliza após cerca de um mês”, sublinha.
A médica sublinha que os contracetivos orais “têm evoluído bastante ao longo dos últimos anos” e passaram “a ter formulações com doses hormonais mais baixas e diferentes, com maior eficácia e perfil de segurança”.
Por esse motivo, “felizmente, a maioria das mulheres que usam contracetivos orais não desenvolve trombose venosa”.
Além de a pílula não ser a maior causa de trombose venosa e embolia pulmonar, é apenas um de vários fatores de risco. Isto significa que quanto mais fatores de risco se verificarem, maior a probabilidade de se desenvolver uma trombose venosa.
Que outros fatores aumentam o risco de trombose venosa e embolia pulmonar?
Além da toma de contracetivos orais e da gravidez, “a imobilização prolongada”, “o cancro”, “a obesidade”, “a terapia hormonal de substituição”, “o pós-parto”, “uma cirurgia” e “um trauma” também podem aumentam o risco de trombose venosa.
Existem ainda “alterações genéticas hereditárias associadas a um maior risco de trombose venosa, como as trombofilias”, salienta Filipa Jácome.
Há muitas variantes a considerar, por isso, “é essencial haver uma avaliação médica individual antes de iniciar o uso e a escolha do método contracetivo”, que tenha sempre em conta “o perfil de saúde de cada mulher”, defende a médica.
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