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Pílula e cancro: por que razão a comparação com o tabaco e o amianto é enganadora

1 Set 2026 - 08:15

Pílula e cancro: por que razão a comparação com o tabaco e o amianto é enganadora

Em publicações partilhadas nas redes sociais, alega-se que a pílula anticoncecional integra a mesma categoria de risco de cancro que o tabaco e o amianto. Mas será mesmo assim?

É verdade que a pílula está classificada no mesmo nível de risco de cancro que o tabaco e o amianto?

Não, porque não existe uma “categoria de risco de cancro”. A categoria mencionada nas publicações refere-se a um dos grupos de “classificação de perigo” da Agência Internacional de Investigação sobre Cancro (IARC, na sigla inglesa) da Organização Mundial da Saúde (OMS).

A IARC classifica um agente em uma de quatro categorias: grupo 1 – cancerígeno para humanos; grupo 2Aprovavelmente cancerígeno para humanos; grupo 2B – possivelmente cancerígeno para humanos; e grupo 3 – não classificável quanto à sua carcinogenicidade para os seres humanos (ver aqui).

A pílula anticoncecional, o tabaco e o amianto estão na mesma categoria, no grupo 1. Isto significa que “existem provas convincentes” de que estes agentes causam cancro nos seres humanos. Mas não quer dizer que a pílula aumenta o risco de cancro da mesma forma que o tabaco e o amianto.

Tal como se explica num documento de perguntas e respostas publicado pelo IARC, “as categorias de classificação indicam a força das evidências quanto à capacidade de um agente causar cancro (tecnicamente chamado ‘perigo’), mas não medem a probabilidade de ocorrência de cancro (tecnicamente chamado ‘risco’) num determinado nível de exposição ao agente”.

Segundo o IARC, “o risco de cancro associado a substâncias ou agentes com a mesma classificação pode ser muito diferente, dependendo de fatores como o tipo e a extensão da exposição e o grau do efeito do agente num determinado nível de exposição”, por isso, “comparações dentro de uma categoria podem ser enganosas”.

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A pílula “é um fator de risco conhecido para o desenvolvimento de alguns tumores, sobretudo os tumores da mama”, sendo que alguns estudos também reportam os contracetivos orais como fatores de risco para o cancro do colo do útero, adiantou a oncologista Ana João Pissarra, em declarações ao Viral e ao Polígrafo (ver aqui, aqui e aqui).

“O estrogénio e a progesterona naturais estimulam o desenvolvimento e o crescimento de alguns tipos de cancro (por exemplo, cancros que expressam recetores para essas hormonas, como o cancro da mama)”, lê-se num texto do National Cancer Institute (NCI) dos Estados Unidos.

Como as pílulas anticoncecionais “contêm versões sintéticas dessas hormonas femininas, também podem aumentar o risco de cancro”.

Por esse motivo, esclarece Ana João Pissarra, em casos específicos em que se verificam outros fatores de risco, sobretudo no caso do cancro da mama – o tipo de cancro com mais evidência nesse sentido – pode haver a recomendação de optar por outro método contracetivo, de modo a reduzir o risco.

Por outro lado, também se sabe que a pílula “é um fator protetor para o desenvolvimento de outros tipos de cancro, nomeadamente o do ovário e do endométrio”, salienta a médica.

No caso do cancro do endométrio ao “suprimir a proliferação das células endometriais” e no cancro do ovário ao “reduzir o número de ovulações que uma mulher tem ao longo da vida, reduzindo assim a exposição às hormonas femininas naturais”, explica-se no texto do NCI.

Além disso, acrescenta-se no mesmo texto, a pílula também parece reduzir o risco de cancro colorretal ao “diminuir os níveis de ácidos biliares no sangue das mulheres que tomam estrogénios conjugados orais”.

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Noutro plano, o nível de risco de cancro associado ao tabaco e ao amianto não é comparável ao da pílula. 

Além disso, a exposição a estes dois agentes não tem qualquer benefício para a saúde. O tabaco e o amianto “têm muitas substâncias pró-carcinogénicas e os contracetivos orais não”, sublinha Ana João Pissarra.

Segundo um texto da OMS, globalmente, estima-se que mais de 200 mil mortes “sejam causadas pela exposição ocupacional ao amianto – mais de 70% de todas as mortes por cancros relacionados com o trabalho”. Nesse sentido, “o uso do amianto foi proibido em mais de 50 estados-membros da OMS”.

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Já o tabaco “é um fator de risco transversal a praticamente todas as doenças oncológicas”, sublinha a oncologista. Pode contribuir para o desenvolvimento de mais de 20 tipos de cancro e “é responsável por 25% de todas as mortes por cancro em todo o mundo”, sublinha a OMS, noutro texto.

Categorias:

cancro

Etiquetas:

Amianto | pílula | Tabaco

1 Set 2026 - 08:15

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