Estudo prova que viver perto de campos de golfe causa Parkinson?
Após a publicação de um estudo recente, começaram a surgir vários vídeos no TikTok em que se alega que esta investigação prova que viver perto de campos de golfe causa Parkinson. Segundo os autores dos vídeos, isto acontece devido à exposição a pesticidas utilizados em campos de golfe. Mas será mesmo assim? O estudo mencionado prova que viver perto de campos de golfe causa a doença de Parkinson?
É verdade que viver perto de campos de golfe causa Parkinson?
Em declarações ao Viral, Fradique Moreira, neurologista e membro da Sociedade Portuguesa de Neurologia (SPN), adianta que, “com base neste estudo, não se pode afirmar que viver perto de campos de golfe causa a doença de Parkinson”.
O estudo mencionado nos vídeos do TikTok “mostra uma associação estatística” e “não uma relação causa-efeito”, ou seja, “não se pode dizer que viver perto de um campo de golfe causa Parkinson”.
Ainda assim, o médico consultado pelo Viral considera que este estudo levanta a possibilidade de uma “ligação preocupante que merece mais investigação”.
Fradique Moreira explica que esta investigação “foi publicada na JAMA Network Open, uma das revistas científicas mais prestigiadas na área da Medicina”.
Na perspetiva do neurologista, “é um trabalho sólido” que “levanta questões relevantes sobre os riscos ambientais associados à doença de Parkinson, sobretudo no que toca ao uso dos pesticidas em campos de golfe”.
Os investigadores analisaram “mais de cinco mil pessoas, numa região dos Estados Unidos, ao longo de 24 anos”, comparando “quem desenvolveu a doença de Parkinson com quem não desenvolveu”, informa o especialista da SPN.
O foco do trabalho “era perceber se viver perto de campos de golfe, onde supostamente são utilizadas grandes quantidades de pesticidas, podia ou não estar ligado a um maior risco de desenvolver a doença de Parkinson”, prossegue.
A principal conclusão foi que “as pessoas que viviam entre uma a três milhas (cerca de 1,6 a 4,8 km) de distância de campos de golfe tinham um maior risco de desenvolver a doença”, sendo que o “risco era menor quanto maior a distância” dos campos.
Os autores do estudo referem ainda que a exposição a pesticidas em campos de golfe pode acontecer por duas vias principais: através da “contaminação da água subterrânea” (“via poços e áreas de serviço de água”) e da “exposição aérea, derivada dos pesticidas aplicados” nos campos.
Tendo em conta os resultados, “os investigadores recomendam que sejam consideradas políticas públicas de forma a minimizar o risco de contaminação da água e do ar, como estratégia de prevenção da doença de Parkinson em populações próximas desses campos de golfe”, refere o médico.
Apesar de ser um trabalho sólido, em termos de evidência científica, não transmite uma conclusão definitiva, sendo necessários mais estudos para obter conclusões robustas. Aliás, sublinha Fradique Moreira, o estudo tem algumas limitações, mencionadas pelos próprios investigadores.
Em primeiro lugar, “o estudo envolveu população maioritariamente caucasiana e de uma região muito específica dos Estados Unidos”, logo “não se pode generalizar os resultados”, aponta.
Além disso, não foram tidas em conta outras variáveis, como “o histórico ocupacional” das pessoas. Por exemplo, refere o médico, “algumas dessas pessoas podiam ter um trabalho com grandes exposições a pesticidas e outras não” e isso, por si só, pode alterar os resultados.
Em suma, o estudo referido é um trabalho robusto que mostra uma possível associação (e não causa) entre a exposição a pesticidas utilizados em campos de golfe e o aumento do risco de Parkinson, devendo ser encarado com um “alerta para se continuar a fazer investigação”, defende o neurologista.
Qual o impacto da exposição a pesticidas no risco de Parkinson?
Num texto da Associação Portuguesa de Doentes de Parkinson (APDPk), explica-se que a doença de Parkinson “surge quando os neurónios (células nervosas) de uma determinada região cerebral, denominada substância nigra, morrem”.
Na sequência desse processo, “os níveis de dopamina tornam-se anormalmente baixos, o que leva a dificuldades no controlo do tónus muscular e movimentos musculares, afetando, portanto, os músculos quer durante o repouso, quer quando em atividade”, acrescenta-se.
Segundo Fradique Moreira, “a investigação tem mostrado que certos pesticidas aumentam o risco da doença de Parkinson, sobretudo os que são associados a mecanismos que causam stress oxidativo na substância nigra” (ver também aqui e aqui).
Existem ainda outros fatores (modificáveis e não modificáveis) que também contribuem para o aumento de risco de Parkinson, não havendo um único fator inteiramente responsável pelo desenvolvimento da doença.
Alguns deles são: “a idade”, “a genética”, “a exposição prolongada à poluição do ar”, o consumo de “água contaminada com solventes industriais”, “os traumatismos cranianos repetidos” e “o sedentarismo”, refere o médico (ver também aqui e aqui).
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