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Pessoas ruivas toleram melhor a dor? O que diz a ciência

24 Set 2024 - 10:08

Pessoas ruivas toleram melhor a dor? O que diz a ciência

Alega-se no TikTok que as pessoas ruivas percecionam a dor de forma diferente. Num dos vídeos publicados, afirma-se que as pessoas ruivas “têm uma maior tolerância à dor” e precisam “de cerca de mais 20% de anestesia do que qualquer pessoa com outra cor de cabelo”. 

Segundo outro vídeo partilhado na mesma rede social, isto dever-se-á ao gene responsável pela cor de cabelo destas pessoas. O autor do post alega que um estudo recente, publicado em 2021, concluiu que este gene “tem um papel na perceção da dor”. Mas será mesmo assim? A evidência científica disponível comprova que as pessoas ruivas toleram melhor a dor e precisam de mais 20% de anestesia?

As pessoas ruivas têm uma maior tolerância à dor e precisam de mais 20% de anestesia?

Em declarações ao Viral, Francisco Matos, anestesiologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC), começa por avançar que “há estudos genéticos que demonstram um sinal nesse sentido”, ou seja, que as pessoas ruivas poderão ter uma maior tolerância à dor e que poderão precisar de mais anestesia do que as outras pessoas.

Contudo, salienta o médico, “a evidência científica é muito rudimentar”. Os estudos em humanos que existem têm um número de participantes que o especialista considera “muito baixo”. Por isso, sustenta, “o nível de evidência também é baixo”.

Francisco Matos dá o exemplo de um estudo de coorte 2004 (citado em alguns dos vídeos que circulam no TikTok) que indicou que as pessoas ruivas podem precisar de mais 19% de anestesia do que as outras pessoas.

Nessa investigação estudou-se dois grupos “com 10 pessoas cada”, o que, segundo o anestesiologista, “é, claramente, muito insuficiente”.

Segundo um texto publicado no site dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH, na sigla inglesa) dos Estados Unidos, de modo geral, a investigação feita ao longo dos anos sugere “que as pessoas com cabelo ruivo sentem a dor de forma diferente das outras”.

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Aponta-se a possibilidade de estas pessoas terem “uma tolerância geral à dor mais elevada”, apesar de podem ser “mais sensíveis a determinados tipos de dor”, adianta a mesma fonte.

Além disso, lê-se no texto do NIH, os estudos sugerem que as pessoas ruivas podem “necessitar de doses mais elevadas de alguns medicamentos para a dor”, mas “respondem mais eficazmente aos medicamentos opioides para a dor, necessitando de doses mais baixas”.

Ao que parece, isto pode estar relacionado com a “variante do gene do recetor da melanocortina -1 (MC1R)” que controla a produção de melanina, o pigmento que dá cor à pele, ao cabelo e aos olhos. 

As células que produzem melanina produzem duas formas – eumelanina e feomelanina. A cor de cabelo das pessoas ruivas deve-se ao facto de as suas células produzirem sobretudo feomelanina (ver também aqui e aqui).

Embora o cabelo ruivo tenha sido frequentemente associado a diferenças no processamento da dor, a evidência disponível não é conclusiva.

Por exemplo, um artigo publicado em 2012 não encontrou uma associação entre a cor do cabelo e a eficácia da anestesia. Mais tarde, em 2020, outro estudo concluiu que o cabelo ruivo e a sensibilidade à dor podem ter origem em duas mutações genéticas não relacionadas.

Um ano depois, a questão da tolerância à dor das pessoas ruivas voltou a ser estudada numa investigação feita em animais, financiada em parte pelo Instituto Nacional de Artrite e Doenças Musculoesqueléticas e da Pele (NIAMS, na sigla inglesa) dos NIH, publicada na revista Science Advances.

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O objetivo deste estudo foi tentar perceber a ligação entre o MC1R e a perceção da dor. Nesse sentido, os investigadores estudaram ratos “ruivos que carregam a variante MC1R também encontrada em pessoas com cabelo ruivo”, refere-se no artigo publicado no site dos NIH.

Neste estudo, sugere-se que a mutação do recetor MC1R também afeta os níveis de hormonas derivadas de uma molécula chamada POMC (pró-opiomelanocortina), responsáveis por aumentar e diminuir a sensibilidade à dor. 

Apesar de as pessoas ruivas terem um défice destas hormonas, refere-se, o organismo compensa com a ativação de recetores opioides que inibem a dor, originando uma maior tolerância a determinados tipos de dor.

Ainda assim, são necessários mais estudos em humanos, mais “robustos” e “com amostras maiores” para obter resultados mais consistentes, defende Francisco Matos.

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Sobretudo no que toca à necessidade de anestesia nas pessoas ruivas, é importante perceber “até que ponto é que há (ou não) sobreposição da variabilidade individual”, aponta.

Em suma, não se pode afirmar, com certeza, que as pessoas ruivas são mais tolerantes à dor nem que precisam de mais 20% de anestesia do que as outras pessoas. A evidência que existe nesse sentido é escassa, pouco robusta e contraditória. São necessários mais estudos em humanos e com amostras mais significativas para chegar a resultados mais claros e consistentes.

24 Set 2024 - 10:08

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