Pessoas que tomam antidepressivos “são fracas”? E estes fármacos só “mascaram os sintomas”?
“Mas estás a dizer que as pessoas que tomam antidepressivos são fracas? Sim, é exatamente isso que eu estou a dizer”: estas foram as declarações de uma publicação partilhada no TikTok que se tornaram virais, nas últimas semanas.
Numa série de vídeos sobre depressão e antidepressivos, uma criadora de conteúdo defendeu que tomar este tipo de fármacos é sinal de fraqueza, que é uma escolha “pararmos de ter pena de nós” e que os antidepressivos “só mascaram os sintomas” e só fazem sentido “numa minoria muito pequenina”. Mas a ciência confirma estas ideias?
Tomar antidepressivos é sinal de fraqueza?
Não. Tomar antidepressivos não é um sinal de fraqueza e a depressão “não é uma escolha ou uma moda, e não depende da força de vontade”. Quem o diz, em declarações ao Viral, é Maria Isabel Rocha, psiquiatra na Unidade Local de Saúde de Vila Nova de Gaia/Espinho e na CUF.
A médica explica que a depressão é uma “perturbação mental que se deve a uma alteração de químicos cerebrais que fazem, no fundo, a comunicação entre os neurónios”. Estas alterações resultam da desregulação de vários neurotransmissores, “como a serotonina, a noradrenalina e adrenalina, a dopamina e o glutamato”, e têm consequências emocionais e biológicas.
É neste âmbito que os antidepressivos são úteis, sendo falsa a teoria de que apenas “mascaram os sintomas”, visto que atuam nos desequilíbrios químicos do cérebro e ajudam a tratar a depressão.
É errada também a ideia de que a depressão é uma escolha: “Na depressão major (forma grave de depressão), esta pode ser reativa a um fator de vida, num sentido vivencial. Contudo, muitas vezes, estão em causa fatores endógenos, ou seja, depressões de origem familiar, que são desencadeadas por acontecimentos de vida adversos e que originam um conjunto de sinais e sintomas que constituem uma depressão major”, adianta Maria Isabel Rocha.
Considera-se que as pessoas sofrem de episódios depressivos major quando, durante pelo menos duas semanas, apresentam “um humor depressivo, anedonia – que é a ausência de prazer em relação às atividades em que habitualmente sentiam prazer -, bem como uma diminuição do funcionamento na esfera social, familiar e profissional”.
A estes sintomas pode ainda associar-se “disfunção cognitiva, sentimentos de culpa inapropriados e, em alguns casos, ideação suicida, que pode manifestar-se sob a forma de pensamentos passivos ou de um plano estruturado de suicídio”, acrescenta a médica.
Na página da Organização Mundial da Saúde, salienta-se que “um episódio depressivo é diferente das flutuações normais do humor”, já que “estes episódios duram a maior parte do dia, quase todos os dias, durante pelo menos duas semanas”.
Maria Isabel Rocha sublinha que, “se nas suas fases ligeiras, as depressões podem ser tratadas com psicoterapia, na fase moderada e grave, nunca é recomendado pelas guias de orientação internacionais que sejam tratadas só com psicoterapia”.
Num artigo explicativo publicado no site do SNS24, que cita como fonte a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, explica-se que “a depressão, mesmo nos casos mais graves, pode ser tratada e quanto mais cedo o tratamento é iniciado, mais eficiente é”.
“A maioria dos doentes apresentam melhorias dos seus sintomas quando tratados com antidepressivos, psicoterapia ou uma combinação de ambos. Contudo, a escolha do tratamento deverá atender à: gravidade do quadro clínico; preferência do doente; presença ou não de outras doenças”, indica a mesma fonte.
Quais os riscos de uma depressão não tratada?
A desinformação sobre a depressão e os antidepressivos pode ter consequências graves, visto que, quando não tratada, a doença pode agravar-se e comprometer seriamente a qualidade de vida.
A médica consultada pelo Viral destaca, desde logo, o risco de “ideação suicida” e de “sintomas psicóticos” que podem pôr a saúde e a vida do doente em risco.
“A depressão não tratada eficazmente pode também levar a precipitar um quadro de declínio cognitivo precoce – nomeadamente demências, em passos mais avançados -, porque leva à alteração de um químico (o BDNF) que vai fazer com que as células do hipocampo, onde está alojada a memória, morram de forma mais precoce”, adianta.
Além disso, pode ter consequências do ponto de vista físico, seja ao piorar o prognóstico de patologias pré-existentes, como “a doença cardíaca, a doença oncológica, a doença autoimune, etc.”, seja por levar à somatização (quando o sofrimento emocional se transforma em sintomas físicos reais).
“Se não tratarmos eficazmente a depressão, vão muitas vezes manifestar-se sintomas somáticos e é muito frequente, por exemplo, que idosos apareçam na consulta com vários sintomas somáticos cuja base é uma depressão que é preciso tratar”, conclui.
Em suma, a ideia de que tomar antidepressivos é sinal de fraqueza ou de que estes fármacos se limitam a “mascarar sintomas” não tem qualquer fundamento científico. A depressão é uma doença com base neurobiológica que exige tratamento adequado, e ignorá-la pode ter consequências graves para a saúde.