Pessoas também devem fazer uma desparasitação todos os anos?
Desparasitar ou não desparasitar? Para quem tem animais de estimação, o assunto da desparasitação interna do cão ou do gato não é uma novidade. Os médicos veterinários aconselham a que seja feita desparasitação – interna e externa – para proteger os animais de potenciais doenças.
E nos humanos? Será aconselhado desparasitar toda a família regularmente por prevenção? Dois especialistas explicam ao Viral quais as recomendações em vigor sobre a desparasitação e os cuidados a ter para evitar a contaminação.
Devem as pessoas fazer uma desparasitação todos os anos?
Em Portugal, “não há indicação e benefício de fazer desparasitação regular em seres humanos”, esclarece o gastroenterologista Rui Mendo, especialista no Hospital Lusíadas e no Hospital Egas Moniz, em Lisboa.
A administração de fármacos antiparasitários “só se deve fazer em caso de sintomas” ou quando é diagnosticada uma “infeção parasitária”.
A mesma resposta é dada por Daniel Silva Coutinho, infeciologista no Hospital Lusíadas do Porto e no Hospital de Gaia: “Tendo em conta os últimos estudos, a prevalência de parasitas intestinais em Portugal é baixa. Por essa razão, segundo a Direção-Geral de Saúde (DGS) e a Organização Mundial de Saúde (OMS), não é recomendado as desparasitações ‘de rotina’ em humanos, sem evidência de parasitação.”
O especialista recorda que nas décadas de 1980/90 havia essa prática devido à “elevada prevalência parasitária” existente no país, mas que deixou de fazer sentido graças à “melhoria das condições higieno-parasitárias” – nomeadamente ao nível do tratamento das águas residuais.
No geral, os parasitas são transmitidos através da ingestão de larvas ou ovos dos parasitas, pelo contacto com fezes contaminadas. Para diminuir os fatores de risco, deve “lavar bem os alimentos, evitar comer peixe e carne mal cozinhados e prezar por uma boa higiene das mãos”, aconselha Rui Mendo.
Existem centenas de parasitas diferentes no mundo, sendo alguns mais comuns do que outros em diferentes regiões. As viagens para países com elevada prevalência parasitária pode também ser considerado um fator de risco.
O Centro norte-americano para o Controlo e Prevenção de Doença (CDC, na sigla inglesa) publicou um guia de saúde para viajantes, com alguns cuidados a ter dependendo do país de destino. Em países em desenvolvimento, por exemplo, é desaconselhada a ingestão de água da torneira ou de alimentos crus devido à taxa de prevalência parasitária.
Porém, mesmo nos países desenvolvidos – como Portugal – existem diagnósticos de infeção parasitárias. As crianças fazem parte dos grupos de maior risco, mas, mesmo assim, a desparasitação preventiva não faz parte das indicações da DGS.
Na norma 006/2017, referente à “Abordagem Diagnóstica e Terapêutica das Parasitoses em Idade Pediátrica”, refere-se que “não deve ser prescrito tratamento preventivo contra parasitas intestinais”. A administração de fármacos antiparasitários deve acontecer após o diagnóstico e seguindo as indicações médicas.
No mesmo sentido, uma revisão publicada na Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, em 2012, analisou a evidência científica (à data) referente à desparasitação sistemática em idade pediátrica e concluiu que, em Portugal, não se recomenda essa prática.
“Existe evidência científica de benefício da desparasitação intestinal sistemática, com anti-helmínticos, em crianças residentes em países com prevalência de parasitose intestinal por helmintas transmitidos pelo solo superior a 50%”, (SOR B). Em países com baixa prevalência, como Portugal, recomenda-se o tratamento individual baseado no diagnóstico de infeção (SOR C)”, pode ler-se.
Daniel Silva Coutinho lembra que o “uso indiscriminado” de desparasitantes pode “criar resistência” aos fármacos, diminuindo a eficácia perante uma real infeção.
Além disso, os antiparasitários podem também destruir alguns microorganismos que vivem “em simbiose” com o organismo e que, segundo alguns estudos, podem “ser protetores contra doenças autoimunes e patologias alérgicas”.
A sintomatologia depende do tipo de parasita que está a causar a infeção. No entanto, Rui Mendo identifica alguns sintomas mais comuns: “Pode dar uma dor abdominal muito grande, febre, diarreia e prurido no ânus.”
Segundo o serviço nacional de saúde britânico (NHS, na sigla inglesa), deverá procurar aconselhamento médico se “encontrar um grande parasita, uma parte de um parasita ou ovos de parasita nas fezes”, se “tiver uma irritação de pele vermelha, com prurido e com a forma de um parasita”, se “se sentir doente, com diarreia, dores de estômago durante mais de duas semanas” e se “perder peso sem razão aparente”.
Em suma: a desparasitação recorrente em humanos não é aconselhada pelas autoridades de saúde portuguesas. O tratamento antiparasitário é recomendado após o diagnóstico da infeção e deve ser acompanhado por um médico. A utilização de fármacos para desparasitar regularmente pode criar resistência.