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Está provado que apertar um pente durante o parto alivia as dores?

20 Mai 2024 - 10:07
falso

Está provado que apertar um pente durante o parto alivia as dores?

No Facebook alega-se que apertar um pente com a mão pode ajudar com as dores do parto. Num dos posts, sugere-se que “um simples pente pode ser um grande aliado durante o trabalho de parto”, porque “pode ajudar a distrair e a aliviar a dor, proporcionando um certo conforto”.

Noutra publicação defende-se que esta técnica funciona devido a três fatores. Primeiro, ao segurar o pente, as grávidas “podem aplicar pressão nos pontos de acupressão nas mãos, que estão conectados aos centros de dor no cérebro” e isso, supostamente, ajuda “a reduzir a perceção da dor e promover o relaxamento”.

Por outro lado, prossegue a autora do post, segurar o pente pode distrair a grávida das contrações. Além disso, sugere-se que o objeto pode ser utilizado como forma de a pessoa “praticar técnicas de respiração profunda e ritmada, o que pode ajudar a aliviar a dor e a promover um trabalho de parto mais suave e eficiente”. Mas será que esta técnica é comprovadamente eficaz na redução das dores do parto?

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Apertar um pente durante o parto ajuda a combater as dores?

Em declarações ao Viral, Fernando Cirurgião, diretor do serviço de ginecologia e obstetrícia do Hospital de São Francisco Xavier, começa por adiantar que não existe evidência científica de que apertar um pente ajuda a combater as dores do parto.

Do ponto de vista do médico, é comum levantar-se questões sobre este tipo de técnicas, porque são muitas vezes utilizadas por “casais que optam por não recorrer a analgesias clássicas, como a epidural e outros medicamentos”, durante o parto.

No entanto, em teoria, o único possível efeito benéfico de apertar um pente durante o parto tem a ver com “a distração da dor”, ou seja, “o divergir da dor da região pélvica para aquela região” da mão.

Mesmo assim, não há evidência que garanta esse efeito. Aliás, frisa Fernando Cirurgião, pressionar determinados pontos do corpo até pode ter uma ação temporária na atenuação da dor, mas, “nessa circunstância em específico, durante o trabalho de parto, fazer isto nem sequer é comparável ao efeito de uma epidural”.

Fernando Cirurgião conta inclusive que já presenciou o caso de uma grávida que “entrou na maternidade com um pente de metal amarelo na mão”. Segundo o especialista, a grávida “pressionava esse pente em intervalos regulares”.

Antes de chegar ao hospital, esta paciente tencionava ter o bebé em casa, sem ajuda farmacológica. Contudo, relata o obstetra, teve “uma série de dias em trabalho de parto em casa”, sem “ter qualquer evolução” e “com dores intensas”, o que acabou por levá-la ao hospital.

No final, até pediu epidural, o que a permitiu relaxar, “completar a dilatação” e “fazer nascer o bebé”.

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Noutro plano, esta técnica que consiste em apertar um pente com a mão para aliviar a dor do parto é partilhada como uma forma de acupressão, isto é, uma terapia complementar que se baseia na aplicação de pressão em pontos específicos do corpo para, supostamente, combater e prevenir algumas condições de saúde.

No entanto, tal como a acupuntura (uma técnica semelhante, mas com recurso a agulhas), a acupressão também não é um método suficientemente estudado e não há evidência científica robusta que indique que seja benéfica no alívio das dores do parto.

Aliás, a Cochrane, uma organização de investigação prestigiada, já fez vários estudos sobre este dois temas, e publicou uma revisão, em 2020, que pretendeu estudar “os efeitos da acupuntura e da acupressão na gestão da dor durante o parto”. 

Nesse estudo, os investigadores adiantaram que “a acupuntura ou a acupressão podem ter pouco, ou nenhum efeito sobre o parto vaginal assistido”.

Além disso, num apontamento final, referiram que “é necessária mais investigação de alta qualidade”, que inclua “controlos fictícios e comparações com os cuidados habituais e que apresentem resultados sobre a sensação de controlo no trabalho de parto, a satisfação com a experiência do parto ou a satisfação com o alívio da dor”.

No mesmo sentido, num texto informativo publicado no site do Serviço Nacional de Saúde (NHS, na sigla inglesa) britânico, aponta-se que “não está provado” que “os tratamentos alternativos como a acupuntura, a aromaterapia, a homeopatia, a hipnose, a massagem e a reflexologia” proporcionem “um alívio eficaz da dor” do parto.

Portanto, além de não existir evidência robusta que comprove a eficácia da acupressão, não há estudos específicos sobre a técnica do “pente de parto”.

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Utilizar a técnica do “pente de parto” pode ser contraproducente?

Na perspetiva de Fernando Cirurgião, as técnicas como a do “pente de parto”, além de provavelmente não terem qualquer efeito no alívio das dores, podem atrasar e dificultar o trabalho de parto. Aliás, frisa, “o caso que referi é um bom exemplo de que o pente foi insuficiente”.

O especialista explica que existem alguns fatores, “como a posição do bebé”, que podem “tornar o período expulsivo mais demorado e mais doloroso”.

Por esse motivo, se ainda “existir uma dor intensa e, como tal, uma contratura de toda a estrutura pélvica, vai dificultar tremendamente a expulsão do bebé”.

Claro que existem casos “em que não é preciso dar nenhuma analgesia, porque o parto é muito rápido” e “vamos continuar a ouvir histórias de bebés que nascem na casa de banho ou à porta da maternidade”, admite.

No entanto, não é isso que acontece na maior parte das vezes. E, defende o médico, “a dada altura, a epidural tem um efeito relaxante e analgésico que permite reduzir a intensidade da dor” (ver aqui e aqui).

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Por isso, este fármaco acaba por ter “o poder de facilitar o parto” e permitir que “a mãe receba o bebé com um sorriso, em vez de o receber com ar sofrido, desgastado e sem conseguir lidar com a situação”, expõe.

Fernando Cirurgião tem a perceção de que algumas pessoas acreditam “que a epidural atrasa o parto”, porque pensam que, “se não há dor, o parto não está a evoluir”.

Contudo, essa é uma ideia errada. O obstetra explica que, com a epidural, “as contrações continuam a existir e a evolução do trabalho de parto também”. O que esta anestesia faz é atenuar a dor e promover um relaxamento.

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20 Mai 2024 - 10:07

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