Não se deve depilar os pelos púbicos? Quais os cuidados a ter?
No TikTok, alega-se que não se deve depilar os pelos púbicos na totalidade, porque esta prática está associada a vários riscos para a saúde.
Num dos vídeos partilhados diz-se que, quando se depila os pelos púbicos, cria-se “microlesões na pele” e abre-se “um caminho perfeito para que microorganismos entrem no corpo”. Isto “aumenta o risco de uma infeção sexualmente transmissível”.
Além disso, acrescenta-se, a depilação completa nesta zona “também pode causar inflamações”. Mas será mesmo assim? Não se deve depilar os pelos púbicos? Quais os cuidados a ter?
É verdade que não se deve depilar os pelos púbicos?
Em declarações ao Viral, Pedro Vilas Boas, dermatologista na clínica Pedro Vilas Boas Dermatologia & Laser, adianta que “não há, neste momento, evidência que justifique uma recomendação absoluta do tipo ‘não se deve depilar os pelos púbicos’”.
Na perspetiva do médico, “a depilação da região púbica é, sobretudo, uma opção estética e cultural, e pode ser feita em segurança se forem respeitados alguns cuidados básicos de higiene e se o método for adequado ao tipo de pele e de pelo”.
Sabe-se “que a depilação não é isenta de riscos, mas isso não significa que seja ‘contraindicada’ para todas as pessoas”, prossegue o especialista.
Por isso, defende, “a decisão deve ser individual, informada e, idealmente, discutida com o médico em caso de pele sensível, antecedentes de infeções ou doenças dermatológicas locais”.
Em alguns vídeos partilhados nas redes sociais, sugere-se que os pelos púbicos não devem ser removidos porque têm um papel importante na saúde.
De facto, refere Pedro Vilas Boas, “os pelos púbicos têm funções biológicas” (ver também aqui). Por um lado, “atuam como uma barreira mecânica, reduzindo o atrito entre pele, roupa e durante a relação sexual, o que diminui microlesões e irritação da pele”.
Também “ajudam a reduzir a entrada direta de partículas e microrganismos em orifícios naturais – o mesmo princípio que está por trás dos pelos do nariz, ouvido, pestanas e sobrancelhas em relação ao nariz, ouvidos e olhos”, acrescenta.
“Historicamente, esta função protetora era provavelmente mais relevante em contextos de pior higiene e falta de saneamento”, aponta.
Contudo, “hoje, com melhores hábitos de higiene íntima, essa proteção continua a existir, mas o impacto prático dos pelos púbicos é menor ou irrelevante na maioria das pessoas saudáveis”, explica o dermatologista.
Quais os riscos associados à depilação dos pelos púbicos?
Segundo Pedro Vilas Boas, “os principais riscos são locais e relacionados com o método utilizado”. Incluem: “irritação da pele e sensação de ardor”; “pequenos cortes”; “abrasões”; “queimaduras (sobretudo com cera quente ou aparelhos mal utilizados)”; e “hiperpigmentação pós-inflamatória em algumas pessoas”.
Além disso, “a depilação pode causar vários tipos de inflamação local”. A foliculite – inflamação do folículo piloso, muitas vezes provocada pela Staphylococcus aureus, uma bactéria residente da pele – é “a complicação mais típica”, sobretudo em contexto de depilação “com lâmina ou cera”.
Pode ainda ocorrer uma “pseudofoliculite com pelos encravados, mais comum quando o pelo é mais encaracolado”.
Em casos mais raros, é possível verificar-se “infeções mais profundas, se houver má higiene, partilha de lâminas ou manipulação de lesões já infetadas”, sublinha.
No que diz respeito ao suposto aumento do risco de contrair uma infeção sexualmente transmissível associado à depilação dos pelos púbicos, Pedro Vilas Boas esclarece que não é bem assim.
Antes de mais, defende o médico, “é importante separar dois tipos de infeções”: as “infeções sexualmente transmissíveis (IST) predominantemente cutâneas, como molusco contagioso genital ou verrugas genitais (HPV)”; e IST “sistémicas ou mais graves, como VIH, sífilis, gonorreia, clamídia e hepatites virais”.
No caso das IST sobretudo cutâneas, “existem estudos que sugerem que a remoção dos pelos pode facilitar a transmissão, sobretudo quando há microtrauma (cortes, abrasões) causado por depilação, que torna mais fácil a entrada do vírus na pele”, explica. Apesar disso, nestes trabalhos, sublinha-se a importância de haver mais estudos sobre o assunto (ver aqui).
Em relação às IST sistémicas ou mais graves, “a evidência é muito mais fraca”, sublinha o médico. “Alguns estudos populacionais encontraram uma associação estatística entre hábito de depilação púbica e história de IST, mas estes dados são altamente influenciados por fatores de confusão”.
Quando se analisa especificamente a evidência sobre “infeções como gonorreia, clamídia e VIH com diagnóstico laboratorial, há estudos que não encontram uma relação clara entre depilação extrema e maior prevalência destas infeções”, sublinha.
No fundo, a evidência parece mostrar que “a depilação pode facilitar algumas IST ‘menores’ cutâneas (molusco, verrugas virais) por causa das microlesões”, mas “não há evidência robusta de que remover o pelo, por si só, aumente o risco de forma significativa” no caso de IST mais graves (ver aqui).
Os fatores mais importantes, neste contexto, “continuam a ser uso de preservativo, número de parceiros e tipo de prática sexual”, salienta o especialista.
Quais os cuidados a ter antes e depois da depilação dos pelos púbicos?
Pedro Vilas Boas aponta algumas medidas que ajudam “a reduzir o risco de irritação, foliculite e infeções locais”, ou seja, as principais complicações associadas à depilação.
Em primeiro lugar, salienta o dermatologista, deve-se “evitar depilar em alturas em que a pele esteja já irritada, com eczema ou com lesões ativas”.
Antes da depilação é importante “lavar a região com um gel de higiene íntima suave” e, “em pessoas com tendência para foliculite, pode fazer sentido usar um gel com ação antissética (encontrado em farmácias) no dia anterior e no próprio dia”, avança.
Depois da depilação, durante os dois a três dias seguintes, deve-se “voltar a lavar a zona com um gel suave ou antissético nas primeiras”.
Também se deve “aplicar um creme cicatrizante/regenerador durante 2 a 3 dias para ajudar a restaurar a barreira cutânea”, defende.
Em pessoas com “forte tendência para foliculite pós-depilação”, pode ser útil “aplicar creme antibiótico tópico de forma muito localizada e por poucos dias, sob orientação médica”, aponta o especialista.
Outra medida essencial é “evitar roupa muito apertada e tecidos sintéticos que aumentem o calor e a fricção”, bem como “evitar esponjas, luvas ou redes de banho abrasivas, que agravam a irritação e transportam bactérias”.
Noutro plano, é fundamental ter cuidados específicos dependendo do tipo de técnica utilizada para fazer a depilação dos pelos púbicos. Para Pedro Vilas Boas, “não há um método ‘perfeito’, mas há métodos com perfil de risco mais baixo (aparar) e outros que exigem maior cuidado e, idealmente, supervisão profissional (cera, laser)”.
Apesar de a cera “ser um método acessível para remoção de pelos”, é um princípio de prudência deixar a depilação a cera dos pelos púbicos para os profissionais “já que a pele nessa área é particularmente delicada”, lê-se num texto da Associação Americana de Dermatologia (AAD).
A depilação a laser – mais do que qualquer tipo de depilação – “pode ser perigosa em mãos inexperientes”, sublinha-se noutro texto da AAD. Neste contexto, é fundamental que o tratamento seja realizado por um especialista, caso contrário há um maior risco de “queimaduras, alterações permanentes na cor da pele e cicatrizes”.