Pasta de dentes trata hemorroidas e infeções vaginais?
No Tiktok, alega-se que a pasta de dentes pode ser utilizada para outras situações além da lavagem diária dos dentes. Segundo o autor do vídeo, este produto também trata hemorroidas e infeções vaginais.
Para resultar, afirma o autor do vídeo, basta aplicar uma pequena quantidade de pasta de dentes na área circundante da hemorroida ou infeção, idealmente antes do banho, e esperar meia hora antes de retirar. Esta mezinha, garante, “vai aliviar o desconforto” e resolver o problema. Mas será mesmo assim?
Hemorroidas e infeções vaginais podem ser tratadas com pasta de dentes?
Segundo Pedro Viana Pinto, ginecologista-obstetra e professor assistente da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), a pasta de dentes não só não resolve estes dois problemas como não deve sequer ser utilizada para estes fins.
“A vulva é uma zona extremamente sensível e tem que ser tratada com máximo cuidado, porque, caso contrário, podem surgir dermatoses, infeções e outros processos inflamatórios. Não existem evidências científicas que comprovem que a pasta de dentes funciona nestes casos e usá-la pode ser extremamente perigoso”, salienta, em declarações ao Viral.
Segundo o médico, a utilização deste produto “vai ter um efeito altamente abrasivo na pele”, desregular a barreira cutânea e flora bacteriana da região da vagina e, inclusive, aumentar o risco de uma nova infeção vaginal, fissura ou úlcera.
No caso das hemorroidas, destaca, pode ter o efeito contrário, agravando o problema e a sintomatologia.
Quais são os riscos de utilizar pasta de dentes nestas zonas?
A pasta de dentes é um produto demasiado forte para aplicar nestas zonas íntimas e vai agravar os sintomas.
No caso das infeções vaginais, alerta Pedro Viana Pinto, o produto vai alterar a barreira mucocutânea da região da vulva e, eventualmente, a parte microbiana, podendo com isso originar outras infeções.
“Isto pode acontecer porque a vulva e a vagina têm bactérias e fungos que é suposto lá estarem e a alteração desta microbiota pode levar a que haja consequências no contexto da pele. Tudo está equilibrado, mas a partir do momento em que há um desequilíbrio, as bactérias nocivas podem sobrepôr-se às benéficas e aí passamos a ter risco de infeções”, sustenta.
Como surgem as crises hemorroidárias e as infeções vaginais?
Segundo Pedro Viana Pinto, as hemorroidas podem ser descritas como umas “almofadas” que todas as pessoas têm e que estão escondidas. A obstipação e consequente esforço na defecação fazem com que se tornem salientes e provoquem sintomas, como o sangramento.
As infeções vaginais, por outro lado, surgem na sequência de agressões na zona. Estas agressões, explica o ginecologista, podem acontecer após uma lavagem incorreta, utilização de produtos desadequados ou até a toma de um antibiótico para tratar a infeção, mas que, na verdade, pode estar a agravar o problema.
“As IST (infeções sexualmente transmissíveis) também são causa das infeções vaginais e por isso é que é importante utilizar métodos contracetivos de barreira que as previnem. Estas infeções causam problemas não só na região da vagina, mas também de fertilidade”, acrescenta.
Qual o tratamento?
De acordo com Pedro Viana Pinto, a melhor forma de tratar uma infeção vaginal é, antes de mais, consultar um ginecologista após os primeiros sintomas.
“Reforço que é necessário a paciente ser consultada por um médico porque, muitas vezes, compram antifúngicos, que, como existem vários tipos de infeções vaginais, não resultam e vão desencadear problemas diferentes que podem ser infecciosos ou não.”
A medicação será prescrita de acordo com o tipo de infeção (que pode ser fúngica ou bacteriana), sendo que, nas mais leves, tende a desaparecer no espaço de uma semana. No caso das IST, o tratamento dura 14 dias.
Além do tipo de infeção, acrescenta o médico, o tratamento também vai depender de outras doenças que a mulher possa ter, como é o caso da diabetes. Se esta patologia estiver mal controlada, a infeção pode ser mais grave e, consequentemente, demorar mais tempo a ser tratada.
“A diabetes é um dos principais fatores de risco das infeções fúngicas mais complexas que podem ser vaginais, vulvares ou na pele da região inguinal e são mais complexas de tratar.”
No caso das crises hemorroidárias, diz, muitas nem precisam de tratamento. “Há casos em que basta seguir uma dieta menos obstipante para facilitar a defecação”, afirma Pedro Viana Pinto.
Laxantes e cremes à base de dióxido de zinco ou pequenas doses de corticóides também estão entre as opções. Contudo, avisa o ginecologista, só devem ser usados se os sintomas forem graves.
Para tratar hemorroidas, neste artigo do Sistema Nacional de Saúde britânico (NHS, na sigla original), aconselha-se ainda a ingestão de líquidos, “aplicar gelo na zona para aliviar o desconforto” e a “redução do consumo de café e álcool”, lê-se.
Exercício físico diário, tomar um banho morno e limpar a zona com papel higiénico húmido são outras sugestões.
Como lavar a zona íntima
O médico aconselha que a lavagem diária da vulva seja feita somente com água. Não utilizar pensos higiénicos diariamente, optar por cuecas largas e, se possível, dormir sem esta peça de roupa interior são outros dos cuidados a ter.
Conforme mencionado neste artigo do Viral, existem investigações científicas que comprovam que os pensos higiénicos, quando utilizados com frequência, podem aumentar o risco de recorrência de infeções frequentes, como a candidíase e a vaginose.
No caso de não existirem infeções, a água também deve ser a única alternativa de lavagem. No entanto, continua Pedro Viana Pinto, “ocasionalmente, podem ser utilizados produtos de higiene íntima”. A pasta dos dentes, reforça, é que nunca deve ser usada.