Ozempic causa danos nos ossos?
Em várias publicações partilhadas no TikTok defende-se que o Ozempic deixou de ser “uma pílula mágica” e agora está a destruir os ossos. Os autores dos posts sugerem que “novas pesquisas” indicam que, além dos efeitos adversos conhecidos, o Ozempic também pode causar danos nos ossos. Será mesmo assim?
É verdade que o Ozempic pode danificar os ossos?
“Até ao momento, não existe evidência de que o Ozempic (semaglutido 1,0 mg) cause, de forma direta, ‘danos nos ossos’ ou osteoporose”. Quem o diz, em declarações ao Viral, é Paula Freitas, endocrinologista e presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM).
Nem a osteoporose, nem a “osteopenia”, nem o “aumento consistente de fraturas” estão registados como efeitos adversos destes medicamentos.
O que se observa, neste contexto, “é o impacto da própria perda de peso sobre a massa óssea, um fenómeno comum a dietas restritivas, fármacos e cirurgia bariátrica ou metabólica”, sublinha a médica.
O Ozempic é um fármaco que “está formalmente indicado para o tratamento da diabetes tipo 2, com benefício adicional na redução ponderal, mas não é a formulação aprovada especificamente para tratamento da obesidade”, explica a especialista.
Para obesidade, indica-se “semaglutido 2,4 mg (Wegovy), um monoagonista do recetor do GLP-1” ou “agonistas duais GIP/GLP-1, como a tirzepatida (Mounjaro), que atingem perdas de peso que se aproximam às da cirurgia bariátrica”.
Sempre que se perde peso, seja através de “dietas muito restritivas, fármacos antiobesidade ou com cirurgia bariátrica ou metabólica”, além de se perder massa gorda, também se perde “massa magra e massa óssea”, esclarece Paula Freitas.
O impacto sobre osso, em específico, “está bem descrito após grandes perdas ponderais, independentemente da opção terapêutica” (ver aqui e aqui).
Em relação à cirurgia bariátrica ou metabólica, “sobretudo as técnicas com componente malabsortivo” (alteração cirúrgica do intestino delgado para que o corpo absorva menos calorias e nutrientes), “associa-se a maior perda de massa óssea” e aumento da remodelação óssea, “por alterações hormonais, mecânicas e de absorção de cálcio e de vitamina D”, explica a endocrinologista.
Em comparação, “a perda óssea observada com os fármacos agonistas do recetor do GLP-1 tende a ser menor e predominantemente explicada pela redução de peso e não por má absorção”, o que levanta a hipótese de “um perfil ósseo relativamente mais favorável dos fármacos em relação à cirurgia de obesidade, embora a evidência comparativa direta ainda seja limitada”.
Em doentes com diabetes tipo 2, por exemplo, “controlar a doença com agonistas do recetor de GLP-1, como o semaglutido, pode até reduzir o risco global de osteoporose e fraturas, dado que a própria diabetes mal controlada é, por si só, um fator de risco para fragilidade óssea” (ver aqui e aqui).
Em suma, sublinha Paula Freitas, “a evidência disponível aponta que não há demonstração de que Ozempic, Wegovy ou Mounjaro provoquem danos diretos nos ossos ou osteoporose por um mecanismo tóxico específico”.
Quem corre maior risco de ter problemas nos ossos enquanto toma Ozempic?
Apesar de os possíveis danos nos ossos estarem ligados à perda de peso abundante e não ao Ozempic em si, há pessoas que correm maior risco de perda de massa óssea enquanto fazem o tratamento com semaglutido.
Desde já, as pessoas “com fragilidade óssea de base, nomeadamente osteopenia ou osteoporose prévias” têm maior probabilidade de apresentarem danos nos ossos.
Também correm um risco acrescido, pessoas “com múltiplos fatores de risco, como idade avançada, menopausa sem tratamento, história prévia de fraturas, uso crónico de corticoides, sedentarismo, entre outros”, sublinha Paula Freitas.
“Indivíduos com perdas de peso abruptas associadas a dietas muito restritivas, ingestão proteica inadequada, défices de cálcio ou de vitamina D, e que não praticam exercício de resistência, podem apresentar maior perda de densidade mineral óssea”, aponta.
Importa ainda destacar as pessoas com perturbações do comportamento alimentar, com baixo peso ou peso saudável, “que utilizam estes fármacos sem indicação formal”.
Nestas situações, pode haver um “agravamento de défices nutricionais e de perda de massa magra” que, em conjunto com a “perda rápida de peso e reduzida carga mecânica sobre o esqueleto, constitui o principal determinante da perda de densidade mineral óssea”, esclarece a presidente da SPEDM.
Quais os cuidados a ter para prevenir problemas nos ossos?
Os principais cuidados a ter durante um tratamento que leva à perda rápida de peso incluem: “prevenir défices nutricionais, preservar a massa magra e garantir estímulos mecânicos adequados no osso, ou seja, promover exercício com carga, evitando emagrecimentos ‘extremos’ sem supervisão médica”, adianta Paula Freitas.
Na perspetiva da presidente da SPEDM, “a perda de peso deve ocorrer de forma gradual, com indicação e acompanhamento médico regular” e deve-se “evitar dietas excessivamente restritivas”.
Nesse sentido, “deve ser assegurada uma ingestão adequada de proteínas, cálcio e vitamina D e recorrer à suplementação quando indicado”, sublinha.
Além disso, a perda de peso deve ser associada à “prática de exercício de resistência (musculação, treino funcional), de forma a preservar a massa magra e o estímulo mecânico sobre o esqueleto”.
Por fim, acrescenta a especialista, “é importante monitorizar a saúde óssea e muscular nos grupos de maior risco, como mulheres pós-menopausa ou pessoas com osteopenia prévia e ponderar a realização de densitometria óssea quando clinicamente indicado”.
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