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Omeprazol “aumenta em 240%” a probabilidade de ter cancro do estômago?

18 Abr 2026 - 08:15
falso

Omeprazol “aumenta em 240%” a probabilidade de ter cancro do estômago?

No TikTok, alega-se que o omeprazol, um medicamento utilizado para vários problemas gástricos, a longo prazo, causa cancro. O autor de um dos vídeos partilhados vai mais longe e sugere que não se deve tomar omeprazol em nenhuma circunstância e que este medicamento “aumenta em 240%” a probabilidade de ter cancro do estômago. Será mesmo assim?

É verdade que o omeprazol “aumenta em 240%” a probabilidade de ter cancro do estômago?

Num esclarecimento conjunto enviado ao Viral, Carolina Simões, Miguel Serrano e Pedro Currais, médicos gastroenterologistas que integram o Grupo Multidisciplinar de Cancro do Esófago e Estômago do IPO Lisboa, adiantam que não há evidência científica que comprove que o omeprazol aumenta em 240% a probabilidade de cancro do estômago.

“O omeprazol é um inibidor da bomba de protões (IBP), que diminui a secreção de ácido no estômago”, aprovado no tratamento de várias doenças.

Segundo as guidelines de gastrenterologia europeias (ESGE) e americanas (ACG/AGA), “as indicações aprovadas incluem: doença do refluxo gastroesofágico (DRGE); esófago de Barrett; esofagite eosinofilica; tratamento de úlcera péptica gástrica ou duodenal, erradicação de Helicobacter pylori (em combinação com antibióticos); profilaxia de hemorragia digestiva alta induzida por anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) ou antiagregantes e síndromes hipersecretores”, adiantam os especialistas.

Na perspetiva do Grupo Multidisciplinar do IPO Lisboa, a afirmação de que o omeprazol aumenta em 240% a probabilidade de um doente ter cancro do estômago pode derivar de um estudo de 2018.

Neste trabalho, reporta-se “um aumento relativo de cerca de 144% (e não 240%, como foi divulgado)” de “cancro gástrico em utilizadores de IBPs após erradicação de infeção por H. pylori”. Mas é importante interpretar estes dados com cuidado.

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Em primeiro lugar, risco relativo e risco absoluto são conceitos diferentes. O risco absoluto mede a probabilidade real de um evento – neste caso, uma doença – ocorrer num grupo (incidência), enquanto o risco relativo compara essa probabilidade entre dois grupos (expostos versus não expostos).

O risco absoluto reportado no estudo em questão “é extremamente baixo: 153 casos em 63.397 doentes (4.3 casos por 10.000 pessoas/ano)”, sublinham os especialistas.

Por esse motivo, nem sequer seria viável do ponto de vista científico afirmar que a toma de omeprazol aumenta em 144% a probabilidade de ter cancro do estômago.

Por outro lado, esta investigação tem muitas limitações. Os médicos do IPO Lisboa salientam que, “segundo o sistema GRADE, este é um estudo com evidência de baixa qualidade”. 

Além de os dados terem sido “colhidos numa população idosa com doença gástrica pré-existente, o que traduz um risco basal mais elevado de cancro gástrico, o ajuste estatístico realizado neste estudo não foi suficiente para corrigir de forma adequada este viés”, explicam. 

Para mais, “este estudo não inclui dados histológicos, que são dados fundamentais para determinar o risco de cancro gástrico após a erradicação do H.pylori”.

Segundo os gastroenterologistas do IPO Porto, “o maior estudo populacional até à data (2026), com 17.232 casos de adenocarcinoma gástrico em cinco países nórdicos, não encontrou associação entre uso prolongado de IBPs e cancro gástrico”. 

Este estudo também “identificou múltiplas fontes de erro que geravam falsos positivos em estudos anteriores”.

No mesmo sentido, as guidelines da ESGE (Sociedade Europeia de Endoscopia Gastrointestinal), da AGA (Associação Americana de Gastroenterologia), do ACG (Colégio Americano de Gastroenterologia) e da CAG (Associação Canadiana de Gastroenterologia) “concluíram que a evidência não demonstra causalidade” – entre o cancro gástrico o omeprazol – “e que não justifica alterar a prescrição de IBP quando há indicação clara”. 

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Os especialistas sublinham ainda que, de acordo com as recomendações atuais, “estes doentes não necessitam de rastreio oncológico adicional”. 

Importa ainda referir que “os utilizadores de IBPs têm mais frequentemente DRGE, gastrite e infeção por H. pylori – todos fatores de risco independentes para cancro gástrico”, salientam os médicos.

Existem dois grandes tipos de fatores de risco para o cancro do estômago: os modificáveis e os não modificáveis

Os não modificáveis são “a idade avançada”, a etnia/origem geográfica (maior incidência na Ásia Oriental), ser do “sexo masculino”, ter “predisposição genética/hereditária”, ter “história familiar de cancro gástrico” e ter “anemia perniciosa” (ver também aqui e aqui).

Em relação aos modificáveis, os especialistas do IPO Lisboa referem a “infeção por Helicobacter pylori” como “o principal fator de risco”, estando “associado a cerca de 90% dos cancros gástricos não-cárdia” (tumores que não estão na junção esófago-estômago).

Além disso, o tabagismo, o consumo excessivo de álcool, a infeção por vírus Epstein-Barr, a obesidade, o sedentarismo e uma “dieta rica em sal, alimentos fumados, conservados em salmoura ou processados” e pobre em fruta e vegetais também são fatores de risco modificáveis importantes.

Assim, a melhor forma de reduzir o risco de cancro do estômago é atuar nos fatores modificáveis. “A erradicação do H. pylori, a cessação tabágica, a moderação do consumo de álcool, a manutenção de peso saudável e uma dieta equilibrada são as estratégias de prevenção com maior evidência de suporte”, acrescentam os especialistas.

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O omeprazol é um medicamento seguro?

“Quando usado corretamente e com indicação adequada, o omeprazol é considerado um medicamento seguro”, adiantam os gastroenterologistas do IPO Lisboa.  

Trata-se de um medicamento que “deve ser tomado em jejum, meia hora antes do pequeno-almoço e, quando necessário, meia hora antes de outras refeições”. 

O problema é quando o uso é indevido. “As guidelines europeias e americanas alertam que o seu uso prolongado ou sem indicação clara está associado ao desenvolvimento de efeitos adversos”, alertam os especialistas.

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Os riscos mais significativos ocorrem, “sobretudo, em doentes idosos e/ou hospitalizados, e incluem”: “aumento do risco de infeção por Clostridioides difficile”, “aumento do risco de pneumonia adquirida na comunidade”; “défice de absorção de vitamina B12 e/ou ferro”, “osteoporose” e “pólipos de glândulas fúndicas (benignos, sem risco de desenvolver cancro gástrico neste contexto)”.

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18 Abr 2026 - 08:15

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