O primeiro passo para uma alimentação saudável é deixar de comer glúten?
Um vídeo partilhado no TikTok sugere que tirar o glúten da dieta é o primeiro passo para o início de um estilo de vida saudável. A publicação fala em efeitos visíveis num mês – no funcionamento do intestino, e no desaparecimento do aspeto “inchado”. Mas será mesmo que o glúten merece este rótulo de vilão?
É preciso deixar de consumir produtos com glúten para ter uma alimentação saudável?
De acordo com a nutricionista Inês Pádua, não é necessário deixar de consumir alimentos com glúten para ter uma alimentação saudável.
Além disso, sublinha, nem o pão, nem a massa merecem o rótulo de vilão, desde que consumidos nas quantidades que são recomendadas, o que nem sempre acontece: “Estamos muito dependentes a todas as refeições de produtos à base de cereais com glúten, e também dos snacks, da bolachinha, da barra de cereais”.
Ao Viral, a nutricionista esclarece que o erro não está no consumo de alimentos com glúten, mas sim no consumo exagerado deste tipo de produtos.
Várias organizações ligadas à saúde – como, por exemplo, a Johns Hopkins Medicine e a Harvard Health Publishing – publicaram textos informativos a desmistificar a ideia de que o glúten é prejudicial para a população em geral.
Na página da Johns Hopkins Medicine escreve-se que as dietas sem glúten “não são para toda a gente”, sendo recomendadas apenas às pessoas com doença celíaca, sensibilidade ao glúten ou alergia ao trigo.
Além disso, alerta-se para os possíveis riscos deste tipo de dietas, nomeadamente a ingestão insuficiente de grãos integrais, fibra e micronutrientes, já que alguns dos alimentos com glúten são também ricos em “vitaminas do complexo B, ferro e magnésio”.
O glúten inflama o organismo e pode provocar inchaço?
Não, não é verdade que, para a população em geral, o glúten seja inflamatório ouprovoque inchaço abdominal de forma generalizada. Os sintomas associados ao consumo de glúten ocorrem em indivíduos com condições específicas, como a doença celíaca, alergia ao trigo ou sensibilidade ao glúten não celíaca.
Inês Pádua explica que, em algumas patologias, como a artrite reumatoide, há “estudos que mostram que uma dieta isenta de glúten pode reduzir o grau de inflamação” (ver aqui). No entanto, são necessários mais estudos que confirmem essa hipótese.
Tal como já tinha explicado em declarações anteriores ao Viral, Ana Célia Caetano, gastroenterologista no Hospital de Braga o glúten não provoca efeitos inflamatórios em todas as pessoas. “Não causa alergia nem inflama o intestino de todas as pessoas”, clarificava a investigadora no Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde da Universidade do Minho.
A especialista sublinhava que apenas no caso dos doentes celíacos há uma “resposta imunológica ao glúten”.
Num texto publicado no site do balcão digital do Serviço Nacional de Saúde (SNS 24), explica-se que a doença celíaca “é uma doença crónica que desencadeia uma reação imunológica de inflamação do intestino delgado, após a ingestão do glúten na dieta”.
Nestas situações, o único tratamento aceite “consiste numa dieta isenta de glúten para toda a vida”, pode ler-se no site da Associação Portuguesa de Celíacos.
Quanto ao inchaço no corpo – que a autora da publicação na rede social garante que desaparece quando se elimina a ingestão de glúten – Inês Pádua admite que tal pode acontecer, não devido a esta decisão isolada de eliminar o glúten, mas porque houve uma alteração do padrão alimentar.
“Normalmente, as pessoas, quando deixam o glúten, fazem toda uma reestruturação na alimentação, aumentam o consumo de fruta, de hortícolas, de água, começam a fazer mais exercício e desincham”.
Alimentos sem glúten são mais saudáveis?
Inês Pádua alerta que os produtos sem glúten não são necessariamente mais saudáveis. “Muitas vezes, atribuímos logo a este tipo de produtos um selo de maior qualidade do ponto de vista nutricional, mas na grande maioria das vezes, a única coisa que este ‘sem glúten’ atesta é que efetivamente os produtos não têm glúten”, explica.
A nutricionista sublinha que é preciso olhar para os outros números: valores das calorias, quantidade de açúcares adicionados, gordura saturada e sal. “Podem ser uma alternativa sem glúten, mas depois tudo o resto pode ser exatamente igual, ou até pior”, avisa.
Tendo em conta que os produtos sem glúten são mais caros, a nutricionista conclui que o custo-benefício – para pessoas que não são intolerantes ou alérgicas – não compensa, e não é a forma milagrosa de iniciar um estilo de vida saudável.