O pimento verde é um alimento tóxico porque contém muita solanina?
Num vídeo partilhado no TikTok, sugere-se que não se deve comer pimento verde, porque este alimento contém “muita solanina”, um composto supostamente “tóxico”. Será mesmo assim?
É verdade que o pimento verde é um alimento tóxico porque contém muita solanina?
O pimento verde não é um alimento tóxico, nem contém doses elevadas de solanina. Quem o diz, em declarações ao Viral, é Ligia Moreira, nutricionista e membro do Gabinete de Evidência Científica da Ordem dos Nutricionistas (ON).
A solanina é uma toxina “naturalmente presente em espécies vegetais da família Solanaceae”, como o tomate, a batata e a beringela. “Embora os pimentos também pertençam à família Solanaceae, integram um género distinto, apresentando perfis químicos diferenciados, isto é, composições químicas claramente diferentes”, explica a nutricionista.
Os pimentos (espécie Capsicum annuum) – sejam os verdes, os vermelhos ou os amarelos – “não apresentam solanina na sua composição, mas sim compostos como os capsaicinoides, responsáveis pela pungência característica” (sensação picante), acrescenta.
A diferença das cores dos pimentos “está relacionada com o estado de maturação e com a capacidade de produzir clorofila [pigmento verde presentes nas plantas] e carotenoides [pigmentos amarelos, laranjas e vermelhos presentes nas plantas], antes da colheita”.
Na fase inicial de maturação, “a coloração verde deve-se pelo elevado teor de clorofila”. À medida que o fruto amadurece, “verifica-se uma diminuição da clorofila e o aumento da produção de carotenoides (amarelos) e licopeno (vermelhos)”. Essas variações “contribuem para diferenças ao nível de sabor, do aroma e da pungência (picante)” do alimento.
Além de não ter solanina, o pimento verde “não é prejudicial à saúde, sendo, inclusive, um dos alimentos presentes na dieta mediterrânica” (ver também aqui e aqui).
Contém vitamina A, C e E, “folato (ácido fólico), compostos fenólicos, fibras” e tem “muitos outros benefícios nutricionais” (ver aqui), o que faz do pimento “relevante no âmbito de uma alimentação saudável”, sublinha Ligia Moreira. Apesar disso, a tolerância a este alimento “deve ser avaliada individualmente”.
Importa ainda salientar “que devem ser asseguradas boas práticas de higiene e conservação alimentar”.
O que “pode representar um risco para a saúde” – não só no caso dos pimentos mas também de outros alimentos – “é o consumo de alimentos contaminados ou sujeitos a condições inadequadas de armazenamento”.
Fatores como “danos físicos, stress e degradação podem alterar as características do alimento, potenciando eventuais riscos para a saúde”, esclarece a nutricionista.
Os alimentos que contêm solanina são considerados tóxicos?
Além de produzirem metabolitos benéficos para a saúde, as plantas “também produzem substâncias tóxicas, como mecanismo de defesa contra fatores externos, como fungos e insetos”, explica Ligia Moreira.
As plantas da família Solanaceae “contêm glicoalcaloides que são toxinas naturais”. Segundo a nutricionista, “o termo ‘solanina’ é geralmente utilizado para representar os glicoalcaloides, cuja principal função consiste na proteção das plantas contra pragas e agentes patogénicos”.
A ingestão de solanina pode “afetar a mucosa do trato gastrointestinal e causar os sintomas, como náuseas, vómitos e diarreia” (ver também aqui). Mas isto só acontece em casos de ingestão de solanina acima do recomendado.
Os níveis destes glicoalcaloides nos tomates, nas beringelas e nas batatas são baixos. A solanina “encontra-se predominantemente em tecidos específicos da planta da batata, incluindo folhas, caules, flores” e apresenta “concentrações significativamente mais elevadas nas partes verdes da casca e nos brotos das batatas”.
Por esse motivo, existe uma recomendação “(UE) 2022/561 da Comissão Europeia relativa à monitorização da presença de glicoalcaloides em batatas e produtos derivados de batata”, em que se referem os níveis de segurança de consumo de solanina, bem como os cuidados a ter na ingestão de batatas e produtos derivados.
Estes alimentos não são tóxicos, deve-se apenas ter alguns cuidados no seu consumo e na sua confeção. Em primeiro lugar, descascar as batatas antes de cozinhar, por si só, “reduz a ingestão de solanina”.
A remoção da casca “numa espessura de cerca de 3 a 4 mm pode reduzir o teor deste composto”, sendo que as “batatas descascadas contêm menos 30 a 80% de solanina em comparação com as batatas com casca”, esclarece a nutricionista.
Por outro lado, sabe-se que “a exposição à luz, quer no campo, quer em ambientes comerciais, aumenta a síntese da solanina nos tubérculos”.
Assim, “batatas que apresentam coloração esverdeada devido à exposição à luz são frequentemente consideradas impróprias para consumo, por poderem conter níveis elevados de solanina”, aponta Ligia Moreira.
No mesmo sentido, “batatas que apresentem sinais de rebentação (brotos), apodrecimento ou danos físicos não devem ser consumidas”. Um sabor amargo é, igualmente, “indicativo de níveis elevados de glicoalcaloides”.
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